Oscar Guanabarino: Críticas as
Exposições Gerais
de 1894, 1897, 1898 e 1899
contribuição de Fabiana Guerra Granjeia
Texto disponível no site: http://www.dezenovevinte.net/
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O Paiz – Edição no 3653 – 1
de outubro de 1894 – página 2
ARTES E
ARTISTAS
Escola
Nacional de Bellas-Artes
EXPOSIÇÃO
GERAL
Foi grande a nossa surpresa e grande o nosso contentamento ao entrarmos hontem na sala em que estão reunidos os trabalhos de pintura enviados á exposição de bellas-artes.
A pintura progride, como nenhuma das outras artes, no dominio da Republica; e basta comparar a actual exposição com a melhor que conseguiu o antigo imperio em 1884, quando a academia tinha conselheiros e commendadores a dirigil-a, para vermos o quanto temos caminhado.
A pintura historica, tão recommendada e exigida, apresentava sempre factos historicos, que nenhuma relação tinham com a nossa vida. Pedro Americo, professor de archeologia, caindo em constantes erros dessa materia, dava-nos Joanna d’Arc, Moysés, Judith, Heloisa e Abelardo,Voltaire, e tantos outros quadros de assumpto estrangeiro, quando a nossa historia ainda estava, como está, por explorar; e como esse pintor era quem dava a nota naquella época, todos os outros seguiram-lhe nas aguas e lá vinham as collecções biblicas, em que o S. Jeronymo não falhava[1].
Actualmente apparece uma arte, que, se não é francamente nacional, accentua bem a tendencia para isso.
Nesse ponto temos tres artistas notaveis, que pintam scenas brazileiras, produzindo quadros magnificos – Almeida Junior, Brocos[2] e Weingärtner.
O pintor ituano, autor de alguns quadros existentes nas galerias da escola nacional, taes como – O modelo, Caipiras negaceando, Derrubador brazileiro, e mais dois outros biblicos – A fuga para o Egypto e Remorso de Judas apparece-nos agora com tres télas brazileiras – A pescaria, A queda do Votorantim, Amolação interrompida e O caipira.
Na Pescaria a scena passa-se em um rio pouco caudaloso, com as margens alagadas e invadidas pelo tabual; na barranca estão os dois pescadores. É um quadro bem de scena vulgar; sem o espectaculoso do pannejamento e sem o grito das cores pomposas arrumadas para fazerem effeito.
Na Queda do Votorantim ha pouco estudo da agua; parece uma quéda de gesso, sem transparencia, sem humidade, sem ruido. Almeida Junior não está no seu elemento, mas em compensação lá temos o Caipira, typo exacto do sertanejo paulista, indolente, sentado a picar fumo para cigarro com a grande faca de ponta. Ha muita observação nesse typo, aliás difficil.
O Amolador interrompido tambem é um typo brazileiro e bem brazileiro. A téla tem grandes dimensões e obriga o pintor a muitos detalhes, que prendem a attenção do observador.
Almeida Junior é sempre o mesmo artista de traço largo, fiel desenhista e de colorido natural, banindo da palheta cores inuteis, que só servem a quem quer produzir o agradavel á vista, sem se importar com a verdade.
Brocos, perfeitamente identificado com a nossa natureza, apresenta uma série de paizagens mineiras, salientando Os bateadores[3]; mas o seu melhor trabalho é o Arqueducto, quadro que já esteve exposto antes de partir para Chicago.
Entre os artistas que procuram nacionalisar a arte, estudando os nossos
costumes e surprehendendo a côr do nosso ambiente, tão difficil de ser apanhada
pela inconstancia da luz, devemos collocar em um dos primeiros logares este
pintor, de grande actividade e sempre fiel á verdade.
Weingärtner não se limita a ser brazileiro – torna-se bairrista.
Actualmente os seus quadros são scenas do Rio Grande, ou pelo menos do Sul.
A exposição ainda não está catalogada, de modo que é difficil citar os quadros pelos seus titulos ou pelo menos indicar o seu numero; mas entre muitos que attrahiram a nossa attenção, recordamo-nos de um piquete de lanceiros em plena campanha[4].
O assumpto presta á variedade; os soldados só têm uniformisados os armamentos, e o pala e as bombachas dão o tom caracteristico dos trajes do sul onde todos querem passar por guascas, procurando effeitos na gaúchada.
O brazileirismo obrigou-nos a deixar para o fim o quadro que mais sympathia nos despertou – A feiticeira[5], de Henrique Bernardelli; esse quadro, que figurou na exposição de Chicago, é de grande merecimento, qualquer que seja o lado por que se encare. Verdade é que o assumpto tambem é dos melhores para chamar a attenção dos visitadores e dos criticos – a mulher preparada para o baile – e dizemos para os criticos, porque a mulher é a mais perfeita manifestação do bello, e é o bello a constante indagação da critica.
Felix Bernardelli[6] exhibe um quadro de grande sentimento, Uma espera á janela, mas falta-nos espaço e deixaremos para outra occasião não só esse quadro como tambem um outro identico, mas exercido pela criada, assim como uma dansarina que finge ouvir os conselhos de sua mãe.
Deviamos citar nesta primeira noticia uma cabeça envolta em véo roseo, trabalho magnifico de Rodolpho Amoêdo, e destinado, segundo nos consta, a um jornalista fluminense[7]; mas o espaço priva-nos desse intento e por essa mesma razão não falamos hoje no Jaca de laranjas de Pedro Alexandrino[8], nos trabalhos de L. Rodrigues[9], pensionista do Estado; na Escrava de Oscar P. da Silva e tantos outros em cuja frente estivemos parados algum tempo.
OSCAR GUNABARINO
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O Paiz
– Edição no 4722 – 7 de setembro de 1897 – página 3
ARTES E
ARTISTAS
Exposição
de Bellas Artes
A quarta exposição, organizada pela Escola Nacional de Bellas Artes, foi pouco concorrida.
Muitos artistas que mandavam seus trabalhos áquelle certamen estão fóra da capital e além disso, a pequena classe de pintores está dividida formando dissidencia contra o programma de ensino official.
No entanto, apezar do pequeno numero de obras d’arte ali exposto, notam-se trabalhos excellentes que reunem todas as boas qualidades exigidas pela esthetica.
Pretendemos fazer rapida analyse, senão de todos os trabalhos ao menos da maior parte, e começaremos pelo fim, salientando um desenho a crayon, estudo feito para os frescos da cathedral de Genova, de Cesar Machari[10], professor, senador e artista italiano. Foi exposto pelo proprietario, um dos irmãos Bernardelli, e deve ser bem observado principalmente pelos alumnos do curso de desenho para que vejam o que se póde chamar perfeição, independencia e certeza.
A secção de gravura de medalhas e pedras preciosas é occupada pelo professor da escola – Augusto Girardet[11], artista consciencioso, trabalhador e modesto.
É um genero este em que os artistas quasi que desapparecem. Um quadro excita logo a curiosidade do observador no sentido de conhecer o nome do autor; outro tanto não se dá com a gravura em pedras preciosas – o artista poucas vezes é relembrado, e ainda mesmo que se trate de uma celebridade os seus productos somem-se nas mãos dos entendedores, são conservados como preciosidades dentro dos cofres e o nome do artista esquecido.
As agathas de Girardet são de uma perfeição rara. De desenho rigoroso e talhadas com delicadesa, apresentam todas as minuciosidades que uma forte lente póde descobrir em trabalhos desta ordem. Ao lado das agathas figuram as conchas e um topasio gravado para ser visto por transparencia, trabalho esse de muito valor e que merece ser observado com cuidado para ser apreciada a paciencia do artista, em obter todos os traços do modelo.
Na secção de esculptura apenas apparece o modelo em gesso de um retrato que vai ser fundido em bronze; é de Rodolpho Bernardelli, e dir-se-hia vivo aquelle busto, em que o gesso, apezar das suas más qualidades para exprimir a fórma humana, parece ter adquirido a flacidez da carne e o avelludado cutaneo.
Rodolpho Bernardelli procura sempre nas suas esculpturas obter, juntamente com o desenho meticuloso da fórma, a mais perfeita expressão; e o resultado desses dois cuidados combinados é conseguir a vida nos seus productos artisticos, collocando-se assim entre os grandes esculptores.
Não é o primeiro retrato que esse artista exhibe; muitos existem nesta capital, mesmo em casas particulares, e nelles ha sempre o sopro do idealismo, um que de seductor, de attrahente, que fascina ainda mesmo em se tratando de bustos de homens, e nessa qualidade, que revela a alma do artista e o seu justo sentimento do bello, repousa o seu merecimento esthetico.
Sem taes condições não ha arte, e a prova, para não sairmos da exposição de que nos occupamos neste momento, basta citar os quadros vindos de Paris, de D. Diana Cid[12], sobre tudo um dos retratos, que qualquer artista teria deixado no cavalete como um esboço. No entanto, essa fórma indecisa e antipathica, tem hoje não só grande numero de cultores como até apreciadores e defensores – é a maldita escola symbolista, invadindo o cerebro dos artistas, produzindo uma loucura suigeneris que ameaçaria arruinar a arte se espiritos esclarecidos não lhe tivessem saído ao encontro para dar-lhe decisiva batalha.
O n. 60, Estudo do nú, é mais bem trabalhado do que qualquer dos dois outros, mas ainda assim nota-se não o cunho do acabado, do completo e do definitivo, sente-se que falta ali qualquer coisa, que o corpo humano não tem aquella fórma duvidosa e que esses velados são simples pretexto para evitar a difficuldade do desenho rigoroso, emprestando ao quadro um tom de esboço.
O. G.
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O Paiz – Edição no 5081 – 2
de setembro de 1898 – página 2
ARTES E
ARTISTAS[13]
Inaugurou-se hontem a exposição regulamentar da Escola Nacional de Bellas Artes.
É a quinta festa, a quinta exposição geral, que ali se realiza; e quando menos se esperava, em uma época de verdadeiro desanimo, reuniram-se quadros de alto valor e em quantidade bastante para attestar o amor com que um vasto grupo de artistas se dedica ao trabalho nesse terreno de actividade espiritual e esthetica.
Os pintores brazileiros, que viam com pezar o frio acolhimento dos seus quadros na sociedade fluminense, esquecida do dever de proteger essas artes com o mesmo enthusiasmo com que recebe a musica, devem estar animados com os resultados da exposição retrospectiva[14] que ante-hontem se encerrou naquelle mesmo local. Aquelle agrupamento de objectos raros e custosos veiu demonstrar que existe no Rio de Janeiro uma roda perfeitamente educada que procura a sua convivencia com os objectos que receberam a vida dos artistas e que traduzem o sentimento de uma alma pura.
Se a arte estrangeira mereceu dessa roda o apoio que se póde avaliar em somma superior ao capital de alguns bancos, claro está que ha um mercado franco para os productos da arte nacional, dependendo isso, apenas, de uma intervenção intelligente que saiba estabelecer relações entre os artistas e os collecionadores.
A imprensa fluminense é talvez culpada nesse atrazo da pintura; os jornaes fazem enorme propaganda da musica, em todos os seus terrenos, havendo mais criticos musicaes do que musicos, deixando-se, entretanto, no olvido as outras artes.
As exposições da Escola de Bellas Artes, no seu principio, eram escoimadas. Lucrava com isso o agrupamento das telas, evitando-se as botas; mas os recusados adquiriam as sympathias de amigos que os tinham desde então como victimas de preferencias odiosas.
Isso não se deu agora, pois a commissão resolveu aceitar tudo quanto fosse enviado á exposição, deixando ao publico visitante e á crítica imparcial o cuidado de fazer a selecção.
É nesse terreno que desejamos entrar, com poucas luzes, é certo, mas com toda a sinceridade, acreditando que beneficos serão os resultados, desde que a critica seja severa e conscienciosa.
Comecemos pelo expositor, cujo nome se encontra em primeiro logar no catalogo - Angelo Agostini, que apresentou 10 quadros, alguns dos quaes muito bem observados, havendo, porém, desigualdade na collecção.
O n. 10, Tropeiros paulistas, por exemplo, é um primor de technica, inda que a composição não seja das mais graciosas; mas é bastante o fundo da paizagem, um capoeirão brasileiro, com a verdade que póde ser attestada por todos aquelles que sabem observar a nossa natureza, para que o quadro se imponha immediatamente.
Os tropeiros estão bem estudados e os cavallos são feitos por mão de mestre, movimentados, vivos e nessa confusão natural e commum na vida do campo.
Esse quadro tem alto valor, pois lembra o estylo dos bons mestres, se
bem que o autor tenha usado de um artificio para realçar o seu trabalho, e vem
a ser o pouco detalhe do terreno do primeiro plano, obrigando o observador a se
extasiar com a scena viva dos tropeiros esbatida na floresta de além.
Mas ao lado dessa obra prima de Angelo Agostini apresenta-se o seu quadro n. 7 – O Dr. Rodrigues Barbosa mostrando aos indios do Amazonas o uso dos phosphoros, cujo titulo, como um programma que é, se desvirtua diante do trabalho.
Quem, longe da exposição, ler no catalogo o titulo desse quadro, julgará que terá de ver um estudo dos nossos selvicolas, quando apenas encontrará uma phantasia – uma bella floresta com umas figurinhas que tanto podem ser Chavantes como Bororós ou Crichanás, entre os quaes está uma figura, que será o Dr. Barbosa Rodrigues, porque lá está o phosphoro em combustão; mas desde que se percebe o erro do titulo fica-se em duvida sobre a authenticidade da floresta do Amazonas e da piroga.
No mesmo caso está a Caçada de antas, na serra de Therezopolis. Angelo Agostini não é caçador e nunca viu uma anta perseguida pela matilha – verdade é que se o illustre pintor se perdesse na floresta virgem no momento de ser levantáda a fera, com certeza fugia e adeus quadro.
A situação desse quadro é falsa – ou pelo menos pura phantasia do autor.
Outro tanto não acontece com o n. 8 – Pequenos engraxates, quadro interessante e verdadeiro como scena diaria.
Lembramo-nos ainda de dois magnificos estudos desse mestre – Marieta e Petite parisiènne, merecendo preferencia o segundo, bem expressivo e de effeito.
Perdem-se na exposição, não deixando boa nem má impressão, os tres quadros A paraguaya, Carro de bois e Leitura; mas em compensação fica perfeitamente gravada na memoria do visitante o n. 4 – Cavallaria brazileira perseguindo paraguayos.
Angelo Agostini desenha bem os seus cavallos e dá-lhes muito movimento, conseguindo vencer enormes difficuldades.
Nesse quadro, de valor historico, ha muito estudo e muita arte na composição dessa brilhante gaúchada dos lanceiros, havendo muita harmonia em tudo.
Em resumo – Angelo Agostini é um artista que honra a nossa exposição de Bellas Artes.
OSCAR GUANABARINO
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O Paiz – Edição no 5083 – 4
de setembro de 1898 – página 2
ARTES E
ARTISTAS
Exposição
ESCOLA NACIONAL DE BELLAS-ARTES
Seguindo a ordem do catalogo da exposição geral de bellas-artes, encontrámos, depois do nome do artista Angelo Agostini, o de D. Alina Teixeira[15], que expõe cinco quadros, com os respectivos preços marcados em lista especial, o que prova estarmos em presença de uma pintora profissional.
Vê-se que a autora dos quadros expostos avalia os seus trabalhos com mais desembaraço do que pinta: 500$ pela Avózinha, 350$ pelo Flamboyants em flor e 400$ por qualquer dos intitulados Inverno ou Ponteando meias – o que nos parece excessivo, e isso porque a Avózinha é um quadro feio, inda que desenhado com certo cuidado.
Os velhos e velhas são, não o negamos, bons estudos – mas como assumpto só é arte nas mãos habeis de artistas amestrados, capazes de dar a sua individualidade a uma tela; no Flamboyants em flor ha falta de perspectiva e uma pilastra fóra do prumo; o Ponteando meias, uma velha que examina a linha com que cose – é uma figura parada, e finalmente o que se intitula Lendo, é acanhado. Essa collecção lucraria muito, apresentada como trabalhos de amadora, sem preços no catalogo, pois chamaria sobre si as indulgencias da critica e dos pretendentes.
Encontra-se, depois desse nome, o do pintor paulista Almeida Junior, que expõe seis quadros, entre os quaes a Partida da monção (n. 20) com a seguinte legenda no catalogo:
“Os antigos paulistas assim denominaram (partida da monção) a caravana que sahia do Porto Feliz, descendo o Tieté, para Cuyabá. As de que se trata eram organizadas simplesmente por destemidos e ousados sertanejos, que, inspirados pelo amor do desconhecido, descoberta de minas e civilisação dos bugres, em toscos batelões cobertos de palha e simples canôas, partiam conscientes de que iam arrostar com sacrificios inauditos toda a sorte de aventuras, constituindose por isso uma tradição. O quadro exposto representa a partida desses heroes que, depois da missa na igreja de Nossa Senhora da Mãi dos Homens, acompanhados do padre, capitão- mór e povo, embarcavam-se, no Porto Geral, recebendo a solemne benção da partida.”
A grande dimensão do quadro do pintor paulista devia trazer-lhe, como realmente se deu, uma serie de difficuldades que nem sempre foram vencidas.
Artista intelligente, conseguiu muitas figuras que se tornam notaveis no seu quadro; o agrupamento é harmonioso, no meio daquella porção de gente, e o effeito da garôa bem apanhado – mas entre muitas bellezas nota-se, em primeiro logar, o tom de esboço na grande tela, além de muitas figuras que não foram estudadas com modelo vivo, servindo para isso o manequim, que dá durezas insupportaveis e ás vezes impossiveis!
Veja-se, por exemplo, o negro que no primeiro plano procura carregar uma canastra, que evidentemente está vasia, e indague-se se aquella é a posição que tomaria um homem em tal mister.
Não queremos entrar em pequenas minuciosidades, taes como o enorme chapéo do capitão-mór, capaz de abrigar uma familia inteira, ou o padre, em praça publica, sem o solideo – são coisas que passam, inda que se tornem essenciaes em quadro historico – mas ha figuras que se destacam e que não estão convenientemente dispostas.
Á prôa de uma das canôas, promptas a partir e em plano saliente, ha,
por exemplo, um sertanejo que procura avançar a sua embarcação espiada sobre
uma estaca. Achando-se a canoa em um remanso, bastava pequena tensão da
retenida para o deslocamento do corpo fluctuante, e no emtanto lá se vê um
sujeito em posição de quem procura, com o laço, estacar um animal
Quem ignorar o nome do autor desse quadro,
difficilmente descobrirá nelle o pintor do Negaceando.
É que o artista, além de querer contrariar o seu estylo, não tem,
São boas as suas duas telas Velha beata e Cabeça de estudo; o Futuro artista é bem desenhado e fórma um quadrinho sympathico, mas nenhuma impressão trouxemos das Lavadeiras.
Restam dois quadros: Água reprezada e S. Jeronymo (esboceto); no primeiro ha o defeito de estar deserta a paizagem, quando ali tudo se animaria com uma lavadeira e alguns animaes; no segundo, apezar de esboceto, exposto por 400$, erro de titulo – aquillo não é S. Jeronymo, e muito lucraria o quadro, se no catalogo se lesse – Velho maluco querendo apanhar uma mosca pousada no alfarrabio.
Porque, evidentemente, o supposto S. Jeronymo vai-se levantando cautelosamente de mão prompta, e a gente percebe-lhe a intenção...
Só falta a mosca.
OSCAR GUANABARINO
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O Paiz – Edição no 5087 – 8
de setembro de 1898 – página 2
ARTES E
ARTISTAS
Exposição
ESCOLA NACIONAL DE BELLAS ARTES
Seguindo sempre a ordem do catalogo, teremos hoje, em primeiro logar, os tres quadros do Sr. Rodolpho Amoedo, cujo talento se attesta com muitos trabalhos de valor que esse artista tem exposto.
Trata-se de um pintor que parece desconfiado de si mesmo e anda em busca de qualquer coisa que nos seus quadros revele uma qualidade sua, exclusivamente sua, e d’ahi a continua preoccupação de procurar effeitos exquisitos, verdadeiras gymnasticas entre as côres, sendo, ao que parece, fito seu vencer as difficuldades que elle proprio estabelece, de modo que ha uma especie de sacrificio da idéa á virtuosidade do pintor.
O resultado dessa preoccupação é contrario ás leis estheticas, e a prova é que o observador, diante de um desses quadros do Sr. Amoedo, deixa de se extasiar em presença de um producto de sua actividade artistica para admirar a habilidade com que resolveu o problema que elle proprio lançou no arranjo do ambiente em que collocou o seu modelo e nas roupagens deste.
Ha, porém, nos quadros deste artista muita suavidade, um tom geral de sympathia e muita variedade.
A Faceirinha está neste caso. Pertence ao Sr.
João Ribeiro, que o obteve em um concurso litterario com o seu conto
Com o título Fim da intriga, apresenta o Sr. Amoedo um quadro, em que um dominó amarelo desafivela a mascara e deixa ver a metade do rosto.
A difficuldade foi habilmente vencida e a intriga dá-se, porque o desejo da gente é puxar a mascara e ver por completo a boca do modelo, uma morena de olhos bregeiros.
O retrato do pintor Aurelio de Figueiredo é uma judiaria do digno sub-director da Escola Nacional de Bellas Artes. Tudo ali é bem feito, bem desenhado, bem disposto e bem pintado – mas a côr do artista retratado é exactamente a da laranja da China. Disseram-nos que havia nisso um epigramma malicioso do Sr. Amoedo, que não é novo entre collegas que pintam.
Deixemos, porém, o illustre artista, que daria para
muitas paginas de apreciação, e passemos ao expositor, cujos quadros receberam
os ns. de
Ninguem, parece-nos, chegará a comprehender os trabalhos deste senhor; e ao vermos o seu Crepusculo, chegámos a pensar que se tratasse de um homem infelicitado pela falta de juizo; mas não – é systema seu.
O quadro alludido póde ser feito com duas panelas de tinta e duas
brochas. Dá-se o vermelhão da China e por cima o verde-negro, fingindo arvores
de papelão recortado.
Os pintores, ás vezes, quando são interpellados a respeito da inverdade dos seus coloridos, impossiveis e exageradissimos, respondem: – Eu vejo assim e assim pinto.
Não é exacto.
Póde ser que a sensação de côr varie conforme o individuo; mas se o pintor em questão vê a natureza de um modo diverso, claro está que, pintando tal como sente, deve-nos dar um quadro em que o effeito seja, para nós, igual ou identico ao que vemos na natureza. Ou então temos uma aberração, isto é, um individuo que sente o colorido natural de modo diverso á sensação que recebe quando esse colorido se traduz na tela.
Se existe esse defeito, taes individuos, privados da perfeição do sentido visual, não são aptos para a arte da pintura, como não o são os cegos.
As arvores de papelão deste autor se reproduzem no quadro – Tarde, com as mesmas durezas da Tarde de verão, este com umas nuvens impossiveis, como as que vemos na Tarde depois da chuva.
Dos cinco quadros apresentados por este autor, em que o de n. 29 é
offerecido aos amadores por um conto de réis (1:000$), não ha nenhum que se
aproveite...
Ou tudo aquillo, quem sabe, será troça?
Talvez – pelo menos parece.
OSCAR GUANABARINO
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O Paiz – Edição no 5092 – 13
de setembro de 1898 – página 2
ARTES E
ARTISTAS
Exposição
ESCOLA
NACIONAL DE BELLAS ARTES
O pintor brazileiro Aurelio Figueiredo apresenta, na
actual exposição, duas paizagens, sob os ns. 31 e 32, Paizagem brazileira e
Sol da tarde.
Gostamos mais da segunda, onde se encontra um tom de poesia peculiar ás
nossas paizagens ao cair da tarde.
Esse quadro merecia no emtanto a animação de algumas figuras para accentuar a verdade do quadro.
Outro tanto não diremos da Paizagem brazileira. É certo que na natureza do Brazil tropical ha grande abundancia de gradações de varias cores, mas a tonalidade geral adoptada pelo artista em questão no quadro alludido é falsa, como exaggerado é aquelle céo, que não é nosso.
O pintor tratou todos os planos desse seu quadro com o mesmo vigor de
colorido, de modo que a perspectiva aérea se prejudica.
No primeiro plano as pedras brutas que ali se encontram exigiam, além de uma côr mais verdadeira, muito mais vigor de pincel, de modo a se perceber pelo toque a aspereza daquelle terreno.
Esse mesmo defeito notámos no coqueiro que ali está, um dendê pouco mareado e suave de mais para a situação do quadro, cujo ambiente é amplo e selvagem.
Pareceu-nos que o artista procurou a nota melodiosa para a sua composição, e é caso de se lhe dizer que ali é preciso menos Bellini e mais Wagner, muito Wagner.
Seguindo o programma estabelecido para estas linhas, encontramos logo depois do Sr. Aurelio Figueiredo o pintor Carlos Balliester[17], discipulo de Augusto Petit[18] e expositor dos quadros de ns. 33 e 37.
Pelo conjunto dos quadros vê-se ou desconfia-se que se trata de um amador que evita o desenho e que ainda tateia; tem no emtanto algumas telas que são muito sympathicas, e neste caso estão a Marinha e Effeito de manhã.
Este segundo é bem arejado e muito agradavel.
O quadro intitulado Ao sair da lua é pura fantasia, mas ainda assim mais acceitavel do que o de n. 36 – Almirante Barroso ancorado no porto do Rio de Janeiro, o que negamos, pois nada indica que esse navio esteja na nossa bahia, com um horizonte de alto mar, que não póde ser o da barra, pois nesse caso lá estariam as montanhas de pedra, que estreitam a passagem das águas do oceano.
A exposição desse amador lucraria com a retirada do quadro em discussão, pintado sem arte, lambido, acanhado e chato. Não parece trabalho do autor das duas marinhas que citamos como boas e aceitaveis.
Quizeramos prosseguir; mas encontramos as notas dos quadros do Sr. Henrique Bernardelli, que expõe nada menos que 23 trabalhos, o que tomaria muito espaço e alongaria demasiadamente esta simples apreciação.
Guardemo-nos para a primeira occasião.
OSCAR GUANABARINO.
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O Paiz – Edição no 5099 – 20 de
setembro de 1898 – página 2
ARTES E
ARTISTAS
Exposição
ESCOLA
NACIONAL DE BELLAS-ARTES
Os trabalhos de Henrique Bernardelli valem, por si
só, uma exposição, não tanto pelo valor, como pela quantidade de quadros
apresentados, pois occupam a numeração de
Duas são, portanto, as relatividades que se impõem no estudo da exposição desse talentoso artista – a que se nota em referencia á exposição em geral e a que não se evita dentro da sua própria collecção.
Qualquer dos seus trabalhos lhe daria logar saliente entre os expositores, inda mesmo as pequenas paizagens feitas com rapidez, com aquella febre que se manifesta no artista quando elle quer surprehender um momento da natureza, um effeito passageiro de luz que caprichosamente torna phantastico este ou aquelle ponto da paizagem tropical.
Henrique Bernardelli não teve preoccupação de produzir quadros para uma exposição publica; deu o que tinha, e isso traz á critica a grande vantagem de conhecer o artista, que sente, em qualquer recanto da natureza, a nota poetica da fórma agreste e o tom melodioso que se destaca das harmonias do colorido; sente e traduz com a calma do seu temperamento e pinta sempre de accôrdo com a sua indole artistica, sem visar a originalidade que ás vezes degenera em maluquices e sem outra filiação de escola que não seja a que lhe é inherente.
A relatividade intima dos seus quadros é manifesta por isso mesmo, e é assim que, no meio delles, tornam-se indifferentes O Dedo de Deus e o Fundão, que ali figuram modestamente sem que se lhes possa salientar boas nem más qualidades.
Tornam-se interessantes, porém, áqueles que conhecem o artista em questão e apreciam a delicadeza do seu trato, a sua modestia e ar bondoso, a descoberta de certos movimentos de impaciencia de pincel e verdadeiros arrebatamentos seus, prejudicando o quadro da mesma fórma pela qual o tempo prejudica, ás vezes, a harmonia a que estamos habituados em determinados panoramas. D’ahi o céo sujo que vemos no Tempo encoberto (60), na Garoa (51) e no Prenuncio de tempestade (54).
Repare-se na coincidencia desses defeitos sempre nas perturbações da natureza. Vê-se que ha phenomenos que alteram o bom humor do nosso Henrique, revoltoso com os revoltosos e brutal com os selvagens que lhe invadem o theatro de suas contemplações.
O n. 43, Caminho da senzala, é bello como paizagem; mas ha um ponto difficil, o negro, difficuldade que foi vencida, mas que deu em resultado ficar o preto como se fosse de pedra; ainda faremos reserva quanto ao Calhambola[19] bellissimo, mas deixando ver que um outro céo traria mais suavidade ao quadro.
Agrada-nos muito quando esse artista produz no genero da téla n. 44, Céo em cumulus, quadro excellente, rapido e bem tocado. A mesma impressão deixaram-nos os de ns. 52, Margens do Parahyba; 59, Solidão; 47, Enchente do Parahyba, e 46, Em pleno sol, com um canto por acabar, o que dá pouco vigor aos lyrios dos pantanos que ali estão.
É de mestre a aquarella n. 39, Baccho tabaco e Venere, valentemente desenhado com largueza e muita flexibilidade; e o mesmo se dirá da Beata, quadro que achou logo comprador de bom gosto.
Nos retratos, Henrique Bernardelli tem sempre a sua nota artistica, quer se trate de um trabalho de tamanho natural, como o do major Suckow, quer no de Mme. M..., de pequenas dimensões.
O auto retrato parece um condemnado e dizem que elle assim se pintou para fazer realçar o bello retrato de seu irmão Rodolpho Bernardelli, retrato esse que talvez seja o melhor quadro da exposição.
E effectivamente lá se vê o grande estatuario vivo no seu atelier e elevado pela idealisação de um artista superior que n’um retrato impõe a figura pela superioridade da arte, deixando o visitante na contemplação de uma obra prima em que tanto se admira a expressão de um ente vivo como os detalhes de todo o ambiente, a factura larga da roupagem e a quantidade de ar que circumda o vulto distincto do digno director da Escola Nacional de Bellas-Artes.
OSCAR GUANABARINO.
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O Paiz – Edição no 5103 – 24
de setembro de 1898 – página 2
ARTES E
ARTISTAS
Exposição
ESCOLA NACIONAL DE BELLAS-ARTES
Dentre os sete quadros expostos por Felix Bernardelli, o talentoso moço que actualmente se acha no Mexico, só um, o de n. 67[20], deixa de agradar immediatamente.
Nesses quadros, assignados Lix Bernardelli, não só se apreciam as qualidades thecnicas do pintor, sempre minucioso no desenho, bem detalhado e colorido sympathicamente, como tambem o assumpto, não vulgar e procurado.
Ha pintores que, por mero passa-tempo, fazem uns exercicios reproduzindo telhados velhos, paredes de fundo de quintaes, casas partidas ao meio e outras esquisitices, e que expõem essas coisas em que a arte foi excluida por um realismo impossivel e mesmo inadmissivel. Nem tudo quanto é verdadeiro e existente na natureza merece attenção do artista, que no seu trabalho tem de dar a parte mais nobre da sua alma – o sentimento artistico, a idealização de um facto.
Saber pintar é
uma questão thecnica; o resto depende da educação do artista, e este o que deve
procurar, quando se apresenta em publico, é justamente o seu modo de
interpretar e de exprimir.
Felix Bernardelli,
entretanto, pecca ás vezes, justamente por não ligar grande importância á
thecnica, procurando apenas a scena que o impressionou, como bem se deprehende
ao examinar attentamente o quadro n. 61 – A
cancella do sitio, em que ha tão pouca tinta que se chega a ver a téla; mas
o effeito desejado, esse não lhe escapou.
Ao vermos o n. 62, Aguas mortas, anotámos o catalogo com o adjectivo – bello, e cremos que isso acontecerá á maioria dos visitantes daquella exposição.
São muito apreciaveis as suas qualidades de paizagista, como na Rua principal do povoado, com um punga cansado, e no Lago da Chapada.
Trouxemos magnica impressão do quadro O filho de meu filho, uma scena
encantadora, bem disposta e digna de um artista.
Depois de Felix Bernardelli é difficil tratar do Sr. Bolato[21], com 16 quadros expostos.
Póde-se dar parabens ao pintor pela quantidade exhibida; mas quanto ao valor, é muito pouco, basta dizer que em tão grande collecção só nos satisfez o de n. 68 – A casa do cão. Os outros, ou são sujos com emplastro verde (Morro da Providencia), ou feios (Cancela), ou palidos (Fructas), ou máo assumpto (Quintal), ou pouco observados (Rancho), ou de côr falsa (Tronco de jaqueira).
Mas se ha ali um quadrinho bom, por que não virão outros?
O remedio será pintar menos, procurando produzir melhor.
Deixamos de citar outros quadros deste pintor, mas assim tem acontecido com outros, e para não irmos muito longe basta lembrar que, tratando da exposição de Henrique Bernardelli, não mencionámos o seu Estudo (n. 49), um cavallo e um asno de escorso.