Adalberto Mattos: “Rapins de hontem, artistas de hoje”

organização de João Victor Rossetti Brancato e Arthur Valle

BRANCATO, João Victor Rossetti, VALLE, Arthur (org.). Adalberto Mattos: “Rapins de hontem, artistas de hoje”. 19&20, Rio de Janeiro, v. XV, n. 1, jan.-jun. 2020. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/txt_artistas/rapins.htm

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Entre janeiro e abril de 1921, o artista e crítico de arte Adalberto Pinto de Mattos (1888-1966) publicou na revista Illustração Brasileira quatro crônicas sob o título Rapins de hontem, artistas de hoje.” A série descreve casos do período em que Mattos estudou na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), no início do século XX, quando aprendeu a arte da gravura de medalhas e pedras preciosas. O termo “rapin” no título remete aos jovens aprendizes de artista das academias e ateliês privados franceses do século XIX, como apontam tanto a historiografia internacional quanto os dicionários e impressos franceses do Oitocentos e início do Novecentos.

Bastante original em seu conteúdo, as crônicas de Rapins de hontem são uma rica fonte de informações acerca do cotidiano da ENBA em sua fase inicial. Elas nos permitem conhecer e/ou imaginar um pouco do dia-a-dia dos alunos, a personalidade dos professores, os modos de sociabilidade e, até mesmo, os modelos e funcionários da Escola - algo bastante raro na literatura artística brasileira. Uma leitura a contrapelo dos textos de Mattos revela, porém, as diferenças sociais, étnicas e de gênero herdadas e mantidas pela Primeira República brasileira.

Uma advertência ao leitor: Mattos escreve cerca de vinte anos após os acontecimentos que relata, sendo natural certos deslizes em relação às datas fornecidas por ele em algumas passagens. Também não é possível afirmar que as crônicas narrem fatos em alguma cronologia coerente. Nesse sentido, inserimos já aqui algumas notas a fim de orientar a leitura. A grafia de todas as crônicas foi atualizada. Mas a grafia e diagramações originais das publicações podem ser consultadas em fac-símiles abaixo disponibilizados, cuja fonte é a Hemeroteca Digital da site da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro (link).

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MATTOS, Adalberto. Rapins de hontem artistas de hoje. Illustração Brazileira, ano II, n. 5, jan. 1921, sem paginação [fac-símile]

Quem há vinte anos aproximadamente visitava a Escola de Belas Artes, ali no Beco do mesmo nome[1], sentia qualquer coisa de estranho; a situação, o ambiente, os rapazes daquele tempo, enfim tudo contribuía para deixar, no espírito de quem lá ia, um sentimento de bem estar duradouro e confortante.

O ambiente, de austeridade monacal, impressionava. Dentro da penumbra dos corredores, vivia o mistério que penetrava no ânimo dos artistas moços, em busca do ideal sonhado. À entrada, o “Gladiador Borghese”, majestoso na sua atitude, músculo retesados, empolgava. As frisas de Fídias, que em torno ao saguão, como sentinelas avançadas, faziam com que a juventude retrocedesse ao tempo de Péricles, Ictinos e Calícrates, impulsionados pelo respeito dos grandes mestres.

A mocidade daquele tempo trazia a cabeça descoberta diante de tanta magnificência e tinha um objetivo que era sublime: ser artista. Esse sentimento em todos era calcado no respeito dos mestres; gente simples e sonhadora sem o egoísmo enraizado e a mania do foot-ball...

Não havia ainda a praga dos almofadinhas, e daí reunir a Escola de Belas Artes uma série de predicados que calavam no ânimo dos rapazes que realmente desejavam ser mais alguma coisa do que cabeleiras; o respeito que um novo nutria pelo adiantado era digno de registro.

Quando algum deles passava era como se um ente sobrenatural aparecesse!... O respeito mesclado com o desejo de um dia ser como eles, adiantados, poder andar com uma caixa de pintura; ir ao atelier do mestre! Oh! ventura!

Como iniciador da mocidade na carreira das Artes, estava o mestre Daniel Berard, um velho desempenado, de porte marcial, que sistematicamente usava guarda-chuva e calças brancas nos dias de chuva, e faltava no dia 2 de cada mês...

Mestre Berard era um ardoroso entusiasta da França, tinha-lhe um entranhado amor, tão grande como o que tinha pela pátria; era monarquista; a sua veneração por Pedro II era tão grande, a ponto de descobrir-se ou levantar-se todas as vezes que ao velho monarca se referia.

Nunca tinha uma frase amarga para os desafetos. Amigo dos discípulos que trabalhavam, que estudavam, ao passo que intransigente para com os vadios, a sua intransigência chegava ao ponto de usar de aspereza para com eles, não obstante a sua proverbial delicadeza.

Havia no primeiro ano de desenho do curso daquele saudoso tempo[2], um rapaz um tanto vadio, que, levado pelos companheiros, não cumpria muito regularmente as suas obrigações de estudante. Mestre Berard não o olhava com bons olhos. Um dia, afinal, foi a ele, e, em plena aula perguntou-lhe em voz alta: - “O Sr. Pretende ser artista? - “Sim,” respondeu o discípulo. - “Pintor?” - “Talvez,” retrucou o aluno - “Então, é muito rico? - “Pelo contrário, paupérrimo...” - “Nesse caso, meu amigo, desista, pois do contrário o seu fim será aquele”, e apontou para um pobre diabo, uma sombra humana, que, pendurado em uma escada, brochava as paredes da Escola em obras. “Quem quer ser artista, estuda muito, prepara o espírito para a luta!”

Passaram-se os anos, o vadio tornara-se um estudante aplicado, pelo sermão do mestre.

Em diversos Salões de Belas Artes, conquistou o prêmio, inclusive o de viagem à Europa. Mestre Berard, não obstante o seu voto favorável, dado no Conselho Superior de Belas Artes, foi em busca do antigo discípulo que se achava rodeado de colegas, e, em plena galeria de pintura da Escola, e, com lágrimas caindo pelas faces, pediu perdão das palavras duras, pronunciadas 7 anos antes!

Por esta simples, mas tocante narrativa, é fácil verificar o seu caráter reto e a sua grandiosa alma, feita para a Arte, incapaz de causar mágoa a quem quer que fosse.

Como homem, mestre Berard era um exemplo. Como artista, impecável, de uma honestidade sem par. Nos seus retratos, ele procurava dar mais que a simples semelhança, rebuscava no recôndito do modelo, dentro da própria alma, a psicologia que os pincéis traduziam para a tela, como uma página aberta aos seus olhos penetrantes de observador.

Certo dia, foi encarregado de pintar o retrato do saudoso Barão Homem de Mello, que, pela idade e pelo estado de saúde, não podia ir ao atelier do pintor, situado em um segundo andar da Rua dos Ourives. A perspectiva do emprego da fotografia era um suplício para o mestre! Durante muitos dias andou preocupado, triste, sem coragem de dizer aos que desejavam o retrato do venerando Barão, que precisava de uma fotografia em que o futuro retratado estivesse far- [quebra de página] dado de Ministro do Império; recorreu ao discípulo Armando Magalhães Corrêa, para obter o que desejava. Magalhães Corrêa procurou-nos para que déssemos desempenho cabal ao desejo do mestre. Em dia e hora previamente combinados, partimos em demanda da residência do saudoso professor de História das Artes, na Praça da República, onde hoje se encontra a garagem da Assistência Pública Municipal.

Fomos encontrar o velho mestre já fardado, à nossa espera, no meio de uma balbúrdia de papeis, recortes de jornais e livros de toda a espécie. Depois de uma curta palestra, começou o mestre Berard a procurar uma luz que lhe conviesse para a fotografia, que foi feita em poucos momentos, ficando a seu contento.

Tempos depois, fomos ver o retrato e lá encontramos o venerando Barão em parte restabelecido, que, com grande sacrifício subira os dois lances de escada para dar uma pose ao artista. A nossa admiração pelo trabalho do mestre foi incalculável. Do espectro fotográfico nada existia.

A efígie do venerando professor, cheia de vida, refulgia com a sua barba branca de prata, contrastando com o ouro do fardão glorioso, o olhar azul do velho mestre refletia os fastos da sua vida de estadista insigne. Com satisfação incontida, mestre Berard manifestava a sua gratidão ao venerando Barão, pelo sacrifício, que fizera, de subir a escadaria para ir em seu auxílio, pois pela fotografia não sabia fazer coisa alguma; tinha necessidade de ter diante de si a natureza palpitante de vida, fonte perene de todas as grandezas da Arte. Era mestre Berard tão rigoroso nas suas produções que pagou com a vida esse mesmo rigor. Tendo recebido do Estado do Paraná a encomenda do retrato do então governador, preferiu seguir para o Estado a lançar mão de recursos fotográficos. Executou o trabalho diante da verdade; a mudança de clima, porém, ativou a sua morte, até hoje sentida por todos os que dele se aproximaram e receberam ensinamentos de Arte. Na Escola de Belas Artes, onde, durante tantos anos, o mestre transmitiu os seus conhecimentos a uma legião de moços, não existe entretanto uma obra dele que perpetue o seu valor como pintor, a sua individualidade estética, emotiva é grande.

O que a Escola possui é a prova do concurso feito para professor, um extraordinário desenho da estátua famosa conhecida por “Idolino”, da autoria de Lykios, cujo original se encontra em Florença.

Na galeria Jorge, encontra-se presentemente um belo espécimen, onde o valor do artista pode ser medido, quer como desenhador, quer como pintor. Em poder do escultor Magalhães Corrêa existe também um retrato, pintado justamente na mesma época em que o mestre pintou o retrato do saudoso Barão Homem de Mello e o do poeta Ignacio Raposo.

No tempo em que o mestre Daniel Berard lecionava na Escola de Belas Artes, pontificavam também os irmãos Bernardelli [Rodolpho e Henrique], Amoêdo e o mestre dos mestres João Zeferino da Costa, glorioso por todos os títulos, o maior artista brasileiro que até hoje temos possuído.

Na classe de Henrique Bernardelli, o ambiente era agradável. O mestre amigo tinha sempre uma pilhéria para o discípulo que “boiava”. Era comum os alunos irem em sua companhia para o campo e para as praias, onde a par de estudos realizavam convescotes, sem que, entretanto, a camaradagem diminuísse o respeito devido. Os alunos aprendiam com prazer; guiados por mão sábia, produziam com vantagem. Entre os que frequentavam a aula do professor Bernardelli, contavam-se elementos de valor que hoje se encontram na vida prática, honrando as Artes patrícias: Lucílio e Georgina de Albuquerque, Trajano, Arthur Timotheo da Costa, Eduardo Bevilacqua, Maria José, Oscar Boeira, Francisco Manna, [José] Amarante, Gaspar Magalhães e Julieta H. Ribeiro, uma gentil figurinha de mulher em corpo de criança, a “Julietinha”, como os colegas com carinho lhe chamavam, pela sua bondade e simplicidade; de todos era amiga, o anjo da paz quando surgia uma rusga. Era comum vê-la sentada no meio da roda a palestrar com os rapazes, alegre, despreocupada nos seus 20 anos... De todos os rapazes havia um que não tomava parte nas pilhérias. Era Eduardo Bevilacqua, o “malhar eterno que ‘morria’ em cima de um joelho durante uma semana inteira”...

Em compensação, outros havia que permanentemente estavam às voltas com as descomposturas do mestre.

Entre esses, ocupava sempre o primeiro lugar o Manna, um tipo curioso a Mürger[3], de chapéu à banda e guloso a ponto de comer o miolo das frutas que serviam de modelo, deixando-lhes as cascas pacientemente armadas no mesmo lugar, com grande desespero de Arthur Timotheo, eterno rabugento, que possuía uma caixa de tintas formidável, comprada num saldo do Cavalier, já bichada e maior do que a sua figura. Com Francisco Manna fazia boa pena o José Amarante, o “Cavallaro” da Escola[4], atarracado, de cartolinha menor do que a cabeça, e charuto bichado, com tantos buracos que os dez dedos não bastavam para tapá-los: era nas horas vagas o porteiro da Associação Comercial. Apesar da grotesca figura, foi o maior talento que passou pela Escola no seu tempo. Era músico, poeta e... mineiro de Itabira de Mato Dentro. Era enfim uma completa organização artística, infelizmente desaparecida da roda por loucura furiosa que o levou ao Hospício. Gaspar Magalhães, o “menino do balão”, barulhento; eterno preocupado com amores que duravam um dia e às vezes horas apenas. Soares Cunha, namorador terrível, também dono de uma colossal caixa de pintura, verdadeiro arsenal; tudo ali dentro se encontravam, menos dinheiro, coisa que aliás não o preocupava em absoluto, desde que os companheiros conseguissem arranjá-lo. Certo dia, resolveu Soares da Cunha montar um Cenáculo. Convidou dois ou três colegas, e alugaram uma grande sala no pardieiro que era a Vila Ruy Barbosa. E. Bevilacqua fazia parte do grupo e pagava em geral os aluguéis por inteiro, pois era o “rico” da Escola... Ali, naquele recanto, executou Bevilacqua o quadro com que conquistou o prêmio de viagem, o retrato da “Julietinha”, que figura na Pinacoteca da Escola de Belas Artes, sendo um dos melhores trabalhos premiados com a viagem à Europa.

Entretanto, Eduardo Bevilacqua não gozou o prêmio. A morte de seu pai, Eugenio Bevilacqua, obrigou-o a assumir a direção da casa comercial, onde ainda hoje se encontra. Poucos meses depois, nova desgraça feriu Bevilacqua: a morte da “Julietinha”, o modelo do seu quadro; pertinaz tuberculose roubou-a à amizade dos colegas e a Arte que tinha nela uma cultora digna de apreço. Muitas lágrimas foram derramadas, lágrimas sinceras de amizade pura. A dor repercutiu na Escola, no ânimo dos mestres; Zeferino da Costa, o mais querido dos professores, com as faces lavadas pelo pranto, homenageou a memória da morta com sentidas palavras, repassadas de grande saudade... Para Zeferino da Costa a obrigação de discursar constituía o maior dos sacrifícios; não sabia como começar nem como acabar, uma verdadeira tortura.

Entretanto, naquela noite, a dor deu-lhe coragem e inspiração. O velho mestre se transformou e comoveu os que lhe estavam em torno, pendentes da sua palavra que então vibrava como as suas telas, como as decorações da Candelária! Foi uma noite triste para a rapaziada tão irrequieta das outras noites.

Dias depois, quando a impressão já era menor, a classe foi sacudida por pitoresco incidente. Mestre Bernardelli havia armado uma verdadeira arapuca de tabiques com panos coloridos para a nova pose do modelo, o “Javary”, um velhinho siciliano, que usava brincos e era um modelo quase que pré-histórico. Pousava [sic] desde o tempo de Corrêa Lima!...

Uma vez pronta a arapuca e o modelo na posição, foram os trabalhos iniciados. No dia seguinte, todos a postos, mestre Bernardelli entrou na aula, de cabeça baixa, sem dizer palavra. A rapaziada percebeu que o mestre não estava em água de santidade, um formidável escândalo havia estourado no Júri do Salão de Belas Artes.[5]

O júri havia sido anulado e o mestre estava metido em tal assunto. Sem cumprimentar ninguém, começou as correções, não encontrando nada bom...

O silêncio era profundo, quando um ronco formidável reboou pela galeria. Outro ronco ainda maior fez tremer os planejamentos... Os alunos entreolharam-se sem atinar com a coisa, loucos por uma risada.

Mas o mestre estava ali, e de mau humor, segurando o queixo e de olhar fixo no ponto de onde os roncos continuavam assustadoramente saindo, sem interrupção. A vontade de rir cedera lugar à apreensão. Os roncos continuavam, continuavam agora precedidos de trancos nas armações onde estavam os panos que serviam de fundo ao modelo. Bernardelli ordenou ao “menino do balão” que fosse buscar o servente encarregado da limpeza da sala, continuando a segurar o queixo.

O Lucio, antigo “Guaiamum”, chegou gingando o corpo cansado, para receber as ordens do mestre Bernardelli, que, incontinente ordenou que verificasse qual a causa do barulho. Lucio marchou sobre o ponto, mas outro ronco o deteve, indeciso. Olhou para todos, raspou a cabeça e avançou firme para o perigo. Com precauções inauditas, apanhou uma das pontas do planejamento. Ergueu-o, aos poucos. A rapaziada que havia feito roda para melhor verificar a causa de tão estranho rumor, estourou em formidável gargalhada ante o hilariante espetáculo oferecido tão inesperadamente. Francisco Manna era o roncador irreverente. Viera bem cedo. Passara uma noitada patusca em um bailado no Itapirú. Ao entrar na aula, não resistiu à tentação e deixou-se dormir calmamente atrás dos tabiques, enrolado em uns panos vermelhos pertencentes aos modelos.

Mestre Bernardelli não pronunciou palavra. Retirou-se. Momentos depois, o secretário notificava ao irreverente dorminhoco que estava suspenso por oito dias!

Adalberto Mattos

(Continua no próximo número)

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Imagens

Uma visita ao Museu Nacional em 1904 - o Barão Homem de Mello e os seus discípulos Henrique Costa, escultor falecido em Paris; M. Leão, arquiteto; Mlle Arinda Sobral, arqueiteta; Mlle Dinorah de Azevedo, gravadora laureada com o prêmio de viagem à Europa e Mlle Adelaide Gonçalves, pintora laureada nos "Salons" de Belas Artes. [imagem]

OS IRMÃOS BERNADELLI EM 1903. FOTOGRAFIA NO ANTIGO ATELIER DA RUA DA RELAÇÃO. [imagem]

MESTRE ZEFERINO DA COSTA. FOTOGRAFIA TIRADA EM 1903. [imagem]

Aula do mestre H. Bernardelli em 1904 (Pintura) - 1. José Cordeiro, falecido em 1912; 2. Maria José; 2 Bemvinda de Assis, filha da escultora Nicolina Pinto do Couto; J. Amarante, "O Cavallaro"; 4. Gaspar Magalhães, "O menino do balão"; 6. Angelina Agostini, filha de Angelo Agostini, atualmente em Londres, onde pratica o retrato com sucesso; 7. Soares da Cunha, "O namorador", falecido na Suiça; 8. Angenor de Barros, "O fachada". [imagem]

JOSÉ AMARANTE DE OLIVEIRA - "O CAVALLARO" - O PINTOR DE MAIOR TALENTO DA SUA GERAÇÃO (1902) FALECIDO. [imagem]

"A JULETINHA", QUADRO DE EDUARDO BEVILACQUA EXISTENTE NA PINACOTHECA DA ESCOLA DE BELAS ARTES (PRÊMIO DE VIAGEM). [imagem]

FRANCISCO MANNA, - O "RONCADOR" [imagem]

 

 

MATTOS, Adalberto. Rapins de hontem artistas de hoje. Illustração Brazileira, ano II, n. 6, fev. 1921, sem paginação [fac-símile]

Depois da desagradável nova que dava a mestre Manna um repouso forçado de oito dias, muito desolado, ele arrumou a tralha e retirou-se debaixo da galhofa dos companheiros. Rumou para o seu atelier, onde uma grande tela o esperava, trepada em uma tripeça que pretendia ser um cavalete de pintor. Não perdeu tempo. Atirou-se ao trabalho com alma. Dentre de poucos dias convidava os colegas a irem ver o trabalho já vem esboçado. Representava o quadro um contraste doloroso. No primeiro plano, um homem, de aspecto miserável, descalço, pés nodosos, roupas estraçalhadas pelo uso demasiado. Ao fundo, o reboliço do luxo de uma grande avenida. “Claro escuro social”, intitulava-se o trabalho, que foi enviado ao Salão de Setembro, causando verdadeiro sucesso, merecendo as honras de um sóbrio soneto da autoria da arquiteta Arinda Sobral e publicado na “Renascença”, pelo saudoso mestre Araujo Vianna. Ao mesmo salão enviaram trabalhos de real valor os “rapins” Arthur Timotheo, Bevilacqua, [Rodolpho] Chambelland, [Eugenio] Latour, Evencio Nunes, Soares Cunha, e outros. Arthur Timotheo, quebrando a monotonia dos envios usuais, mandou um quadro de nu, irreverente, mas bem resolvido, que, atrevidamente, intitulou “Livre de preconceitos”. Enviou também uma cabeça de negro, para a qual servira de modelo o velho Lucio, antigo “guaimum”, de andar ondulante, trazendo sempre no canto da boca grossa uma “barata” prestes a queimar-lhe a beiçola.

Bevilacqua mandou “Orpheu”, Chambelland a “Noite de espetáculos”, Latour a “Escolha difícil”, Evencio Nunes a “Morte de Anchieta”, e Soares Cunha o retrato de um colega. A luta para a conquista do prêmio de viagem foi renhida, saindo vencedor Eugenio Latour, com a “Escolha difícil”, um quadrinho de gênero, que reproduzia uma cena caseira, uma figura de mulher a escolher entre duas galinhas a mais gorda para o sacrifício...[6]

Na seção de escultura, Honorio da Cunha Mello expôs um busto que lhe valeu por muito tempo a alcunha de “Coalhada”, pela razão seguinte: alguém, por perversidade, aconselhou ao inexperiente “comedor de barro” que o leite dava uma boa pátina ao gesso; Cunha Mello, sem mais aquela, dá um banho de leite ao trabalho ainda molhado e manda-o para o Salão; o efeito não se fez esperar; uma fedentina terrível infeccionava o ambiente, o busto tresandava a leite podre! Devido a esse pouco cheiroso acontecimento, Cunha Mello foi promovido de “Brontolone” a “Coalhada”; chamavam-no “Brontolone” por ter copiado o busto daquele ilustre senhor, feio, horrendo, cheio de rugas. Era companheiro de “Brontolone” o Moreira Junior, que tinha um apelido tão feio que não pode ser dito aqui. Certo dia estavam todos na portaria da antiga Escola, atazanando o velho Travassos, quando apareceu na porta da Escola, carregando uma caixa de pintura, o Galdino Bicho. Moreira murmura uma palavra que fere a dignidade artística de Galdino, Bicho de nome e de fato, pois frequentava a Escola pela primeira vez. Galdino, que ouvira a palavra, retrucou, prometendo vingar-se. A ousadia do calouro, que se insurgia contra um veterano querido por todos, foi bastante para causar reboliço em toda a Escola. Em um momento, foi resolvido que o atrevido fosse julgado com todas as regras do estilo. Constituiu-se um júri, com todos os requisitos, em uma sala da Escola. Tomou a presidência dos trabalhos um dos veteranos mais temíveis para um “trote”, o Soares Cunha. A acusação ficou a cargo de Ernani Bilac, que, em brilhante bestialógico, salientou as qualidades criminosas do acusado, que se remoía de raiva, no “banco dos réus”. Em seguida, teve a palavra a defesa, representada por Antonio Pitanga, que, além de calouro, era surdo-mudo” Antonio Pitanga, depois de muitos berros e gestos desordenados, deu por finda a “defesa”. Os jurados recolheram-se à “sala secreta” e deliberaram que o acusado fosse condenado a atravessar a “zona chic” que circundava a Escola, com o casaco do avesso e o balde e a vassoura de lixo às costas, tendo por acompanhamento todos os veteranos e bichos. Inútil é dizer-se que dentro de poucos momentos o que havia de mais “elegante” na redondeza fazia parte do acompanhamento. Puxava o préstito o “Marufi”, um turco engraxate, muito sem vergonha, que engraxava as botas dos “rapins” à razão de três um tostão, e às vezes fiado!

“Marufi” era um tipo curioso e amigo da rapaziada; não cobrava nunca os níqueis que lhe deviam. Tão identificado ficou com o ambiente que acabou modelo. Pouco trabalhou, coitado. A peste bubônica levou-o em poucos dias, e, com grande saudade, foi recebida a notícia da sua morte, na Jurujuba, abandonado de todos e da família.

Não demorou muito tempo vago o lugar do “Marufi” nas grades da estátua de João Caetano. Substituiu-o José, um mulato doceiro, que, dentro de muito pouco tempo, estava amigo de todos, e, impreterivelmente, comparecia ao meio dia em frente à Escola, comungando com a sentinela postada na porta do edifício. Certo dia, foi a Escola abalada com a triste notícia de que José tinha sido preso por um dos ventrudos guardas fiscais e que seguia a caminho da Agência, na rua da Carioca. A notícia impressionou seriamente os rapazes, que deixavam as aulas como estavam, uns em mangas de camisa, outros de longas blusas sujas de tinta e gesso, e, em grupos, empunhando palhetas, tentos, desbastadores, seguiram em grande berreiro pelas ruas, invadindo o sobrado em que estava instalada a Agência. Ninguém se entendia. Todos gritavam a um tempo. O agente não sabia o que fazer; por fim, prometeu não punir o doceiro e mandá-lo em paz, logo que evacuassem a sala. O agente cumpriu religiosamente o prometido. Mi- [quebra de página] nutos depois o José surgia, lampeiro, no Beco das Belas Artes. Nesse dia, ninguém pagou os doces comidos, porque o coitado do doceiro, por agradecimento, não quis absolutamente receber dinheiro. À noite, um espetáculo pouco comum sacudiu a aula de modelo vivo. Mestre Zeferino havia chegado de mau humor, sentara-se à sua mesa sem dirigir a palavra aos alunos, o que no velho mestre representava um termômetro de precisão. O silêncio era completo. Quando menor se esperava, quebrou o silêncio uma melodia irritante, um acorde repetido de caixa de música ordinária: tlim, tlim, tão, blim, dim dão, tlim...tlim...

Mestre Zeferino pigarreou forte, levantou-se arrastando o seu reumatismo e foi colocar-se de observação no alto do anfiteatro. A música parou para dar lugar ao pipocar de um “espanta-coió”, partido da bancada onde o irreverente “rapin” Francesco Manna tinha assento. Mestre Zeferino dirigiu-se vagarosamente para lá e, radiante, soltou a sua frase favorita: “Peguei um!” De fato, havia pegado um com a boca na botija. O Francesco Manna, depois de soltar o “espanta-coió”, divertia-se em atacar à parede uma enorme caricatura do mestre. Representava a caricatura, feita pelo J. Arthur, um grande perfil do mestre, desenhado em uma folha de papel “Ingres”, tendo a entrar-lhe pelo crânio um enorme parafuso. “Peguei um” Peguei um!” Exclamava o velho mestre, enquanto a caixa de música gemia irritante: tlim, tlim, tão, bli dim dão, tlim...

...

Acabou a festa pelo fechamento da aula naquela noite e por novas férias forçadas para o Francesco Manna, que, àquelas horas, não tinha outro remédio senão ir perambular pelo Café Paris, onde a boemia da época se reunia, tendo à frente o saudoso Chacon, canalhamente assassinado em seu Estado natal pela politicagem desenfreada!

No Café Paris, no largo da Carioca, reuniam-se todos eles à noite, a discutir Arte, Ciência... e a vida alheia. Naquele tumulto de ideias incendiárias nasceu o pensamento da primeira publicação exclusivamente de Arte. Do pensamento à execução nada custou. A “Atheneida” surgiu, gloriosa, pregando ideias novas e a matracar aos quatro ventos o talento do Helios Seelinger e os desenhos de Heitor Malagutti.

Tomavam parte diária nas reuniões do Paris os irmãos Timotheo, irmãos Chambelland, Correia Lima, Helios, Malagutti, Chacon, Luiz Edmundo, Bastos Tigre, Emilio de Menezes, alguns dos atuais imortais da Academia, médicos, advogados e engenheiros, hoje notabilidades.

Nesse meio tempo, encerram-se as aulas da Escola. Começam as férias. Os ricos foram fazer estações de água e os pobres cavar a vida dentro das próprias habilidades e conhecimentos. João Timotheo, os irmãos Chambelland, Carlos e Rodolpho retocavam fotografias no Zaramella e Bastos Dias; Arthur Timotheo fazia cenografia. J. Arthur fazia desenhos para “O Malho” do tempo de Chrispim do Amaral e Raul Pederneiras. Enfim, cada um “cavava” a vida como podia...

Depois de prolongadas férias volveram todos às aulas, rumorosos, cheios de novas energias. Os calouros andavam pelos cantos, medrosos dos “trotes” e dos batizados”. Consistia o “batizado” em um completo banho, que servia para purificar a alma e o sentimento artístico ainda nascente. Essa operação tinha lugar invariavelmente em uma área existente ao fundo da velha Escola. No fim da operação, a vítima era mandada em paz, com a intimação de pagar, no dia seguinte, a “patente”, para poder cumprimentar os veteranos... As “patentes” variavam, conforme as posses de cada um, tendo o valor mínimo de dez mil réis.

Com o produto das “patentes” eram organizados laudos banquetes, em que só tomavam parte os veteranos. Aos bichos era permitido assistir à festa, sem direito, porém, de tomar parte nela... O próprio mestre Zeferino era o primeiro a indagar dos bichos de já haviam pago tal obrigação. Uma vez passado o período das troças, atiravam-se todos ao estudo com ardor. Após as aulas, cada qual procurava o seu ganha pão, pois naquele tempo os que frequentavam as Belas Artes eram na maioria paupérrimos. Não obstante essa circunstância, o salão anual era fértil de coisas de Arte saídas das mãos dos “rapins”.

Na pintura brilhavam: Latour, Macedo, Evencio, De Agostini, Bolato, que tinha a propriedade de pintar sem tinta, Puga Garcia, Lucilio, Rodolpho Chambelland, Carlos Chambelland, J. Arthur, João Timotheo, o bacharel, Eudoxio Trajano, Amarante, o Cavallaro, a Julietinha, Arthur Timotheo, Eduardo Bevilacqua, Francisco Manna, Maria José, Georgina Albuquerque, Angeline [sic] Agostini, Soares Cunha, e mais tarde: Moraes Silva, Raul Bevilacqua, [Augusto] Bracet, Eustorgio Wanderley, Annibal Mattos, Manoel Domenek, Argemiro Cunha, Angenor Barros, [Henrique] Cavalleiro, Marques Junior - o homem do guarda-chuva - Gaspar - o menino do balão - Oscar Boeira, Fedora Monteiro, Isolina Machado, Guttman Bicho. Na escultura, Nicolina Vaz de Assis, Bonifacio, Moreira Junior e Cunha Mello. Na gravura de medalhas, o Armindo Francisconi, que nas horas vagas era manipulador de pílulas no Laboratório Militar, Eduardo de Barros, o guarda civil, e o rabiscador destas linhas cavavam o aço ao som do zurzido do “ordegno” de mestre [Augusto] Girardet, sempre escondido atrás de uns tabiques complicados. Representava a aula de gravura o maior mistério para a rapaziada, pois era a única aula em que ninguém penetrava, porque as ordens eram severas. Mestre Girardet não dava

(Termina no fim desse número) [quebra de página]

uma folga, sempre enfurnado lá dentro da manhã à noite; tal procedimento provocava o humor da rapaziada, que propalava por toda a Escola que o mestre cozinhava na aula os gatos da vizinhança, e daí o seu gênio impertinente. A classe que mais se prestava às troças era a do saudoso barão Homem de Mello. O venerando mestre havia sofrido uma operação de catarata, estando, por consequência, com a vista muito fraca. Certo dia, resolveu ele dar a aula de história das Belas Artes diante dos belíssimos modelos existentes na Escola, na sala em que o restaurador João José trabalhava. Em grupo alegre, todos rodeavam o bondoso mestre, que, depois de muito olhar uma estátua, apalpar-lhe as formas, começou, com voz clara, a explicar como fora encontrada a Vênus de Medicis. Falou com entusiasmo da estatuária antiga. A sua voz assumia expressões apaixonadas; as suas mãos trêmulas acariciavam as formas da estátua: “Vejam, meus amigos, quanta mocidade, como o artista exprimiu a virgindade no modelo desta soberba Vênus!” E as mãos subiam, fazendo sentir as nuances, o modelo suave da estátua. Os rapazes entreolhavam-se, apertando os lábios, contendo o riso. O mestre continuava sempre, cantando as formas de Vênus. Calou-se, de repente. Retirou as mãos da estátua. Ela não representava Vênus e sim Apolo... Uma gargalhada estourou e duas lágrimas borbulhantes caíram dos olhos quase mortos do grande mestre, e, lentamente, por entre as rugas, deslizaram, até desaparecer no emaranhado das longas barbas brancas...

ADALBERTO MATTOS

(Continua no próximo número.)

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Imagens

NICOLINA DE ASSIS - ESCULTORA, DISCÍPULA DE BERNARDELLI, 1905. [imagem]

O "RAPIN" ARTHUR TIMOTHEO FINGINDO DE IMPORTANTE - 1905. [imagem]

O BATISMO DE UM "BICHO." - 1, LUIZ CORDEIRO (FALECIDO); 2, ANGENOR BARROS "O FACHADA"; MANOEL HENRIQUE; 4, JOAQUIM SOARES CUNHA (FALECIDO); 5, MANOELA (MODELO); 6, JOSÉ AMARANTE DE OLIVEIRA ("O CAVALLARO"); 7, GASPAR MAGALHAES ("O MENINO DO BALÃO"); 8, [ADALBERTO] MATTOS (O FRANGO D'AGUA"). - 1904. [imagem]

"O MARUFI". [imagem]

"UMA AULA DE ANATOMIA: OS 'RAPINS" RAUL BEVILACQUA E OS IRMÃOS MATTOS, 1905. [imagem]

UMA EXPOSIÇÃO ESCOLAR - 1905. [imagem]

UMA AULA DE PINTURA AO LIVRE NO MORRO DE SANTO ANTONIO - 1906 [sic][7]. [imagem]

 

 

MATTOS, Adalberto. Rapins de hontem artistas de hoje. Illustração Brazileira, ano II, n. 7, mar. 1921, sem paginação [fac-símile]

Em seguida ao incidente tão doloroso para o velho mestre veio a reação. As lágrimas, provocadas pela irreverência da rapaziada, puseram termo às troças, continuando a aula debaixo de uma impressão de tristeza. Os provocadores de tão grotesca brincadeira nunca poderiam calcular que a sensibilidade do bondoso mestre se sentisse tão profundamente ferida. Dos professores daquele tempo, fora de qualquer contestação, era o barão Homem de Mello um dos melhores corações e o mais ilustrado. As questões de Arte, eles as conhecia com segurança. O seu sentimento atingia o exagero em uma insignificante representação. Uma figurinha recortada de um jornal era motivo para que a sua emotividade vibrasse profundamente. Espírito de esteta, não obstante a idade avançadíssima. Através do seu encarquilhado semblante o entusiasmo pela vida e pela natureza era encantador. Em todas as troças dos rapazes, passado o primeiro instante, encontrava motivo para uma prosa, que deixava transparecer a bondade e a cultura. Dono de uma memória prodigiosa, prendia com as suas narrações de viagens. O Egito representava o ponto sensível do velho mestre. Quando as aulas recaíam sobre os principais episódios do antigo povo, era um gozo ver como se transformava a fisionomia do Barão. Entrava pela hora regimental, sendo preciso que o guarda lhe chamasse a atenção.

Quando um estudante entrava em exame de história da Arte, e o ponto sorteado era completamente estranho aos seus conhecimentos, logo se agarrava, como tábua de salvação, ao Egito, e estava salvo. Os olhos do velho mestre brilhavam de satisfação, os seus colegas de banca compreendiam a manobra do examinado, fingiam que não percebiam, deixando que o colega preenchesse a hora destinada ao estudante para responder sobre o ponto sorteado. O resultado da esperteza era uma simplesmente muito ordinária, mas que, em todo o caso, servia para mandar o coitado ao ano seguinte.

Curiosos era ver-se a zanga do saudoso Dr. Araujo Vianna, quando o barão Homem de Mello a ele se dirigia. Nunca o tratava pelo próprio nome, e sim de venerando college! Era fatal, que, antes de iniciar as suas aulas de Mitologia, comentasse o Dr. Araujo Vianna tal tratamento, e isso ele o fazia com revolta mal disfarçada. É que ambos queriam ser jovens, embora já tivessem passado da casa dos sessenta...

Nesse mesmo ano, muitos episódios interessantes se passaram entre os professores e alunos.

Entre eles, tivemos um que custou a perda de alguns dentes a um calouro, muito guloso e intrometido. Não havia caixa de tintas em que ele não mexesse, nem modelos de natureza morta (frutos, etc.) que ele não comesse... Coitado, andava atrasado...

Certo dia, os colegas do comilão arranjaram com os rapazes da aula de escultura uns suspiros de gesso, bem feitos e ocos, para que não ficassem pesados. Depois, arrumaram um canto pitoresco, onde os suspiros ficavam bem à vista. Deram início ao trabalho com a maior calma deste mundo. No espírito de N. ficou logo estabelecido que daria cabo das guloseimas; disfarçou, como hábil comediante, deixou-se ficar por último e, zás! trincou um dos suspiros com valentia... Nisso, a rapaziada, que espreitava, aparece repentinamente, apanhando em flagrante o pobre coitado, que se maldizia e lastimava pela perda dos dentes...

Precisamente nessa época sacudia a Escola uma questão de rivalidade, que perturbou seriamente os ânimos dos estudantes. Havia na Escola duas espécies de alunos, os matriculados e os livres; os matriculados eram os que tinham preparatórios feitos no Pedro II e os livres os que faziam apenas um pequeno exame na Secretaria da Escola; os primeiros acusavam os segundos de serem ignorantes e de frequentarem as aulas por favor. Daí a grande discórdia que perturbou o andamento dos estudos e da boa camaradagem existentes.[8] Dias depois desses incidentes, comemorava-se a morte de Floriano, e a Escola fora convidada a comparecer, tendo a respectiva comissão posto à disposição dos alunos um landau. Muito se discutiu quais os que deveriam representá-la, surgindo novamente a questão anterior. Uns diziam que os alunos livres não podiam comparecer em caráter representativo, outros que podiam. Enfim, houve tal barulho que foi preciso a nomeação de um árbitro, sendo escolhido o velho Zeferino da Costa, professor de modelo vivo. Foi ele de parecer que os alunos livres deviam ter representação, pois, como os matriculados, também pagavam matrícula.

Terminado o incidente foi eleita uma comissão de cinco membros, sendo dois alunos livres e três matriculados. Como prova de consideração foi o estandarte da Escola confiado a um dos alunos livres, que muito cônscio do papel que representava, compareceu no dia designado para a comemoração com a melhor roupa e os cabelos mais ou menos penteados. Formado o préstito, no antigo largo da Mãe do Bispo, seguiram todos rumo do cemitério de S. João Baptista, e, uma vez ali chegados, saltaram e caminharam a pé até o túmulo do grande brasileiro. Os discursos faiscavam mais do que o sol ardente em cima dos mármores dos mausoléus; muito entusiasmo, muito patriotismo e frenéticos aplausos ao orador, general Gomes de Castro, então major.

(Continua no próximo número.)

A. MATTOS

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Imagens

HENRIQUE CAVALLEIRO, PRÊMIO DE VIAGEM; ATALMENTE EM PARIS. [imagem]

"LUCIO", PINTADO PELO RAPIN ARTHUR TIMOTHEO, EM 1906. [imagem]

[JOÃO] BAPTISTA DA COSTA, QUANDO NOMEADO PROFESSOR DA ESCOLA DE BELAS ARTES. [imagem]

"INFÂNCIA DE ORFEU, QUADRO DE EDUARDO BEVILACQUA, PREMIADO COM MEDALHA DE PRATA, EM 1906. [imagem]

 

 

MATTOS, Adalberto. Rapins de hontem artistas de hoje. Illustração Brazileira, ano II, n. 8, abr. 1921, sem paginação [fac-símile]

Ora, os três patifes matriculados haviam combinado uma trapaça aos dois outros e principalmente ao porta-estandarte, que suava em bicas, no cumprimento do dever. A trapaça combinada foi a de dar o fora, deixando sem condução os dois coitados e mais o estandarte. Terminada a romaria, voltaram as comissões em busca dos carros. Todos desfilavam e os dois pobres diabos continuavam firmes, à espera do landau. Esperava... O landau... era uma vez... Desesperados, meteram o estandarte dentro do primeiro bagageiro que passou, despachando-o para o antigo largo da Carioca, onde permaneceu por muito tempo, até que um funcionário da Escola o foi retirar.

Dessa pilhéria resultou grande sarilho no primeiro dia de aula, tornando-se novamente os ânimos bastante azedos.

Enquanto a maioria dos alunos se digladiava, discutindo sobre o assunto, a minoria estudava, procurando dar relevo às obras que poucos meses mais tarde deveriam apresentar ao Salão do ano.

Um acontecimento notável teve grande influência no ânimo de todos: a visita que os congressistas latino-americanos anunciaram; iriam visitar a Escola dentro de pouco tempo.[9] Foi o bastante para ativar a produção: cada qual queria ser o melhor representado; de tudo isso resultaram magníficas impressões para os ilustres visitantes, impressões que foram externadas publicamente em entrevistas concedidas à imprensa diária, não só daqui como também das Repúblicas vizinhas.

No dia em que os congressistas visitaram a Escola, deu-se um fato altamente cômico, que teve por protagonista o “rapin” J. Arthur Bevilacqua.

Poucos minutos antes das 8 horas da noite, quando se encerrava a aula de modelo vivo, J. Arthur, sentindo necessidade de ir a certo sítio, foi... e pegou no sono... Às tantas da madrugada, acordando, deu fé que estava trancado na Escola. Apavorado, arranjou meios de sair. Forçou os trincos internos da grande porta que dava para o beco das Belas Artes e foi saindo; doeu-lhe, porém, a consciência de deixar a porta aberta. Voltando sobre os calcanhares, foi comunicá-lo à sentinela. Deu-se um verdadeiro estardalhaço! A guarda do Tesouro fez cerco ao edifício, julgando tratar-se de um provável assalto de malfeitores. Veio a polícia. Fizeram barulho, atacaram as estátuas impassíveis na eterna imobilidade, e ninguém soube como a porta se abrira... O espírito de coleguismo foi mais forte do que a situação. A polícia retirou-se, naturalmente julgando que o culpado fora o Manoel do Gasômetro, como se chamava o servente da aula de modelo vivo, e a rapaziada ria a bom rir do estômago de J. Arthur, da sua resistência, que lhe permitiu dormir em um local tão pouco higiênico...

Este foi o último caso que presenciamos na velha Escola.

Os causadores das gaffes e dos distúrbios aos poucos foram deixando os cursos, para tratar praticamente da vida, e aí estão, cheios de lembranças de um passado risonho, salpicado de peripécias, que, em vez de trazerem desânimo, davam alento, encorajando-os a seguirem a estrada da Arte gloriosa que hoje praticam nobremente. Estamos certos de que muitos sentirão as saudades que sentimos do tempo da irresponsabilidade escolar, e que, se dado fosse, voltariam a borboletear, a tomar parte nas pilhérias que os de hoje naturalmente fazem, alheios a tudo que os cerca, irresponsáveis e irreverentes como todo o rapin que se preza...

Essas recordações do bom tempo da esperança e da inexperiência consolam, depois, quando a vida já não tem segredos que esconder... E elas são, talvez, na biografia dos artistas, como na história de todos os homens, os melhores instantes...

Mas, viver não é só recordar... Já recordamos bastante. E o trabalho aí está, que nos chama. Felizes enganos dos dias velhos, adeus. Adeus, ilusões amadas, que nunca se realizaram.

Adeus, mocidade!...

ADALBERTO MATTOS

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Imagens

UM GRUPO DE "RAPINS" EM 1907 [sic][10] [imagem]

O "RAPIN" BEVILACQUA, EM 1906. [imagem]

UMA AULA DO PROFSSOR BAPTISTA DA COSTA, EM 1907. [imagem]

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[1] Trata-se do antigo edifício da ENBA, ocupado anteriormente pela Academia Imperial de Belas Artes. Sobre o histórico de construção da edificação ocupada posteriormente na Avenida Central – hoje Avenida Rio Branco – confira: RICCI, Claudia Thurler. A Escola Nacional de Belas Artes - Arte e técnica na construção de um espaço simbólico. 19&20, Rio de Janeiro, v. VI, n. 4, out./dez. 2011. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/arte decorativa/ctricci_enba.htm

[2] O curso de Desenho Figurado era uma das primeiras disciplinas cursadas pelos alunos, conforme previsto no Estatuto da Escola de 1901. Cfr.: VALLE, Arthur Gomes. A pintura da Escola Nacional de Belas Artes na 1ª República (1890-1930): da formação do artista aos seus modos estilísticos. Tese (Doutorado em História e Crítica de Arte) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, 2007, p. 55-65 [link].

[3] Referência ao célebre romance de Henry Mürger (1822-1861), Scenes de la vie de bohème, de 1851. A obra mais tarde inspirou óperas como a de Giacomo Puccini, La bohème.

[4] O apelido reportava-se a um outro professor de Amarante de Oliveira no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, Stefano Cavallaro. Assinando com seu pseudônimo “Ercole Cremona,” Mattos aborda melhor a questão no artigo: O pintor José Amarante de Oliveira. O Malho, Rio de Janeiro, ano XXI, n. 1009, 14 jan. 1922.

[5] O escândalo em questão pode ter sido aquele ocorrido na Exposição Geral de Belas Artes de 1906, quando a comissão do júri foi acusada de “preconceito de cor”, o que teria influenciado no resultado do Prêmio de Viagem daquele ano, no qual venceu Eduardo Bevilacqua. Bueno Amador se ocupou da questão no Jornal do Brasil entre 21 de setembro e 8 de outubro. Cfr.: http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=1906_-_Jornal_do_Brasil

[6] Essa passagem é um exemplo de confusão com as datas. As obras citadas não foram de fato exibidas na mesmo Exposição. Listamos a seguir as obras, indicando entre parênteses o ano correto em que foram exibidas: Escolha difícil, de E. Latour (1902); Morte de Anchieta, de E. Nunes (1902); Uma noite de espetáculos, de R. Chambelland (1904); Claro-escuro social, de F. Manna (1906); Livre de preconceitos e Retrato de Lucio, de A. Timotheo (1906); e Infância de Orfeu, de E. Bevilacqua (1906). Cfr.: LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições Gerais da Academia Imperial e da Escola Nacional de Belas Artes. Período Republicano Catálogo de artistas e obras entre 1890 e 1933. Rio de Janeiro: Publicação ArteData, 2003.

[7] Aqui há outro engano com as datas. O Projeto Eliseu Visconti guarda uma fotografia da mesma reunião de “rapins,” onde Visconti aparece entre os alunos. Ocorre que Visconti só chegou ao Brasil, vindo de Paris, em março de 1908 e atuou como professor de pintura da ENBA até junho de 1913, quando retornou à capital francesa. Logo, a imagem não pode ser de 1906 como afirma a legenda. Cfr.: SERAPHIM, Miriam Nogueira. A catalogação das pinturas a óleo de Eliseu d’Angelo Visconti: o estado da questão. Tese (Doutorado em História) - Universidade Estadual de Campinas, Programa de Pós-Graduação em História, 2010, p. 98-99. A fotografia citada pode ser vista em: https://eliseuvisconti.com.br/cronologia/ 

[8] Sobre a questão dos alunos de livre frequência na ENBA, cfr.: VALLE, op. cit., p. 54; BRANCATO, João Victor Rossetti. Crítica de arte e modernidade no Rio de Janeiro: intertextualidade na imprensa carioca dos anos 20 a partir de Adalberto Mattos (1888-1966). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal de Juiz de Fora, Programa de Pós-Graduação em História, 2018, p. 36.

[9] É possível que Mattos se referisse ao 5º Congresso Científico Latino-Americano, realizado no Rio de Janeiro em 1905. Cfr.: ALMEIDA, Marta de. Circuito aberto: idéias e intercâmbios médico-científicos na América Latina nos primórdios do século XX. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, p. 733-757, set. 2006.   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702006000300010&lng=en&nrm=iso  Acesso em:  25 mar. 2020.

[10] Outro engano com as datas. Confira a nota 7.