O Liceu de Artes e Ofícios - sua história de 1856 a 1906

Alba Carneiro Bielinski *

BIELINSKI, Alba Carneiro. O Liceu de Artes e Ofícios - sua história de 1856 a 1906. 19&20, Rio de Janeiro, v. IV, n. 1, jan. 2009. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/ensino_artistico/liceu_alba.htm>.

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O homem que concebeu a idéia deste instituto criou para o seu país um mundo novo. Nos anais do progresso brasileiro a justiça lhe assegura um lugar entre os grandes descobridores, entre os antecipadores imortais do futuro.Vós conheceis a Odisséia desta loucura sublime ...

Rui Barbosa, O Desenho e a Arte Industrial, p.11

Em meados do século XIX, a Sociedade Propagadora das Belas Artes - SPBA criou a escola do povo - o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro -, e pioneiramente agregou à educação elementar a formação técnico-profissional e artística.

A SPBA, idealizada e organizada por Francisco Joaquim Bethencourt da Silva[1], foi fundada no dia 23 de novembro de 1856 em assembléia realizada numa sala do antigo Museu Nacional, então situado na Praça da Aclamação, atual Praça da República. Após a apresentação do projeto e dos estatutos, a ata foi assinada por todas as 99 pessoas presentes que se tornaram membros fundadores dessa associação cujo fim primordial seria o de intensificar as artes em todo Brasil ao promover a formação de mão-de-obra qualificada através de um Liceu de Artes e Ofícios[2].

Essa fundação foi noticiada pelo Jornal do Comércio de 24 de novembro de 1856, uma segunda feira, sob o título - Sociedade Propagadora das Bellas-Artes:

Hontem pelas 11 horas da manhã, na sala do conservatório de música no Museo Nacional, reunio-se grande número de pessoas a convite do Sr. Francisco Joaquim  Bittancourt da Silva, o qual fazendo sentir toda a conveniência da propagação das Bellas Artes no Brasil, apresentou a idéia da fundação de uma sociedade com o fim de obter o seu engradecimento, creando para isso um periódico essencialmente artístico, um lyceo de artes e officios e outros diversos meios necessários para inspirar na mocidade o amor das artes.

Uma grande difficuldade que teria de lutar a sociedade nascente seria por sem dúvida a falta de meios para remunerar os professores de lyceo. Essa difficuldade porém foi antecipadamente vencida. No seu discurso mencionou o Sr. Bittancourt os nomes dos artistas e mais professores que espontâneos e gratuitamente se comprometerão  a preencher as cadeiras do lyceo.

Em seguida o mesmo senhor apresentou um projeto de estatutos para ser discutido e approvado. A sessão foi presidida pelo Sr. Dr. Manoel de Oliveira Fausto, secretário da inspectoria da instrucção publica, servindo de secretario o Sr. Dr. Manoel Antonio de Almeida.

Dentre os 99 fundadores havia pintores, escultores, gravadores da Casa da Moeda, professores, médicos, advogados, funcionários públicos, militares, jornalistas, negociantes e artesãos. Vários destes fundadores foram diretores e conselheiros da Sociedade Propagadora das Belas Artes, e, também, os primeiros professores do Liceu. Podemos citar dentre outros: Antonio Ferreira Pinto (professor da Faculdade de Medicina), Antonio de Pádua e Castro (professor da Academia de Belas Artes, mestre de obras e carpinteiro), Agostinho José da Motta (pintor e professor da Academia de Belas Artes), Augusto Sisson (litógrafo), Cipriano de Souza (arquiteto, topógrafo e pintor de seges e letras), Dr. Domingos de Azeredo Coutinho Duque-Estrada (médico homeopata), Dr. Domingos Jacy Monteiro (médico e secretário da Sociedade Auxiliadora da Industria Nacional), Luiz Stallone (pintor e professor da Academia de Belas Artes), Manuel Antonio de Almeida (autor de Memórias de um Sargento de Milícias), Manoel Maria de Moraes e Vale (médico e lente de farmácia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro), Mariano José d’Almeida (desenhista da Inspeção das Obras Públicas), Poluceno Pereira da Silva Manoel (pintor retratista), Quirino Antonio Vieira (escultor e desenhista de ornatos), Severo Quaresma (escultor), José dos Reis Carvalho (mestre de desenho da Academia da Marinha), José Ruqué (dourador da Casa Imperial), Manoel de Frias e Vasconcelos (major), João Luiz da Costa (abridor de metal da Casa da Moeda), Quintino José de Faria (ajudante de abridor) e João J. da Cruz Cotrim (tipógrafo).

A pretensão da SPBA era quebrar a dicotomia: bacharelismo versus analfabetismo e implantar um segmento intermediário de estudo que permitisse o exercício profícuo e digno de uma profissão nos diversos ramos das chamadas artes industriais ou artes menores. Visava, também, estimular o talento e as habilidades dos alunos-operários através do ensino artístico aplicado às artes e ofícios, e aperfeiçoado como desenho industrial,. Assim sendo, as artes se propagariam, e, conseqüentemente, uma nova estética nos produtos brasileiros acabaria por alavancar a elementar indústria do país tornando-a competitiva no mercado em geral.

O Liceu de Artes e Ofícios, com 351 alunos matriculados (número considerado surpreendente na época), foi inaugurado solenemente em 9 de janeiro de 1858. Béthencourt da Silva, após muitas dificuldades para alugar um prédio para a escola, conseguiu que a administração da Irmandade da Matriz do Santíssimo Sacramento da Antiga Sé na Av. Passos cedesse o espaço do seu consistório para o início das aulas do Liceu, o que permitiu que efetivamente em 22 de março ocorresse a primeira aula, e que foi de desenho. A aprendizagem do desenho era a pedra angular da grade curricular e da ligação das artes aos ofício.

Para ser aluno bastava fazer matrícula, e não havia qualquer discriminação e/ou pretensão em relação à idade, credo, raça, nacionalidade, estado civil ou social. A única exigência era o querer aprender e se especializar num ramo das artes menores.

O corpo docente, como já citado, era formado por pessoas eminentes e por diversos artistas, como por exemplo: Agostinho da Mota, Pádua e Castro, Victor Meirelles, etc. Os professores não recebiam qualquer remuneração, pelas diversas aulas que ministravam ou pelos outros cargos que ocupavam no Liceu. Tradição que perdurou até cerca de 1930. O mesmo ocorria com os beneméritos da escola e sócios da SPBA que como paladinos do ideal da propagação das artes e da educação para todo o Império, conforme o estatuto, mantinham o ensino com suas contribuições pecuniárias[3] ou ofertas de recursos materiais para o adequado prosseguimento das aulas.

Em 27 de novembro de 1858, a Irmandade solicitou as salas ocupadas no prédio da igreja, e as aulas do Liceu foram então transferidas para a sacristia de outra igreja, a da Irmandade de São Joaquim[4], que pertencera ao antigo Seminário de São Joaquim, e onde estava instalado o Colégio D. Pedro II. O novo endereço situava-se na rua Larga, atual Av. Marechal Floriano. O Barão de Mauá forneceu o gás e instalou lampiões para iluminar as aulas noturnas do Liceu graciosamente durante anos.

Nessa Igreja de São Joaquim [Figura 1] realizou-se, em 9 de janeiro de 1859, a primeira exposição dos trabalhos dos alunos, e, no Salão de Colação de Grau do Imperial Colégio D. Pedro II - a primeira entrega de prêmios. O Liceu mantém essa tradição de expor os trabalhos dos alunos até os dias de hoje, geralmente no mês de novembro .

O Liceu ampliou-se rapidamente, tanto que de 1858 até 1868, inclusive, o total de alunos matriculados foi de 2.378.

Bethencourt da Silva, embora já exercesse o cargo de secretário da SPBA, além do de professor de desenho geométrico, desenho de máquinas e de arquitetura do Liceu, foi proclamado diretor do Liceu, por unanimidade em 2 de fevereiro de 1869. Victor Meirelles assumiu como 1º vice-diretor e Agostinho da Motta como 2º vice-diretor. Essa diretoria gerou um novo impulso e estabeleceu uma inovadora grade curricular. A apologia do conhecimento do desenho para a prática e o aprimoramento dos vários ofícios ligados à arte industrial foi reforçada.

Victor Meirelles, que era também professor de desenho de figuras no Liceu, foi quem coordenou a reforma dos programas das várias disciplinas vinculadas ao desenho, criando um método próprio de ensino para o Liceu.

O número de alunos, como também a freqüência às aulas, tornou-se excepcional perante a estatística de qualquer escola ou academia no Brasil (e mesmo diante dos liceus europeus), sendo que entre os anos de 1869 a 1871 as matrículas chegaram ao total de 3068.

Em 1851, a primeira Exposição Universal do século XIX havia demonstrado amplamente a importância do conhecimento do desenho para a funcionalidade e a beleza dos produtos industrializados, influenciando sobremaneira as artes industriais no mundo. O Brasil também sofreu esta influência e com a fundação do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro o desenho industrial efetiva e pioneiramente se implantou no pais

Em 1871, a instituição recebeu o título de Imperial, o que assinalou o reconhecimento da ação do Liceu em prol da educação popular e profissional pelo Imperador D. Pedro II, que muitas vezes aparecia de surpresa para visitar e assistir as aulas, além de contribuir com doações do próprio bolso para a escola.

Entre 1871 a 1880, 10.704 alunos de diferentes idades e nacionalidades freqüentaram as aulas, conforme os relatórios. Ser aluno do Liceu era motivo de orgulho e de reconhecimento, pois o ensino era considerado excepcional na formação técnica para diversas profissões na formação para os chamados “exames preparatórios” dos alunos que desejavam prosseguir nos estudos visando aos cursos superiores.

Estudar, antes da fundação do Liceu, era extremamente difícil, mesmo impossível, para os trabalhadores[5] de todas as idades, pois não conseguiam freqüentar as raras escolas, não só pela falta de vagas como pela ocupação diurna, que era o ganha-pão e o sustento da família. Muitos jovens eram arrimos de família e só poderiam estudar a noite e gratuitamente, assim como os operários adultos.

A SPBA, em 1876, obteve o antigo e arruinado edifício da Secretaria de Negócios do Estado na rua da Guarda Velha no 3, hoje Largo da Carioca para sede da escola.. O prédio foi cedido pelo empenho da Princesa Isabel[6], na ocasião regente do Império. Houve necessidade de obras e para a reforma colaboraram diversos beneméritos com doações. Graças a uma nova intervenção da Princesa Isabel, por ofício em 9 de novembro de 1878, foi posto à disposição da SPBA o edifício vizinho ao da Secretaria, onde esteve a Tipografia Nacional , que seria anexado ao Liceu. Os prédios foram cedidos para que o Liceu pudesse atender o crescente número de alunos.

O novo edifício do Liceu [Figura 2] foi inaugurado em 3 de setembro de 1878, com reabertura solene das aulas e a presença do Imperador D. Pedro II e de significativa assistência. Eram 19 aulas, ministradas por 48 abnegados professores, que continuavam sem qualquer remuneração a trabalhar voluntariamente para a educação popular, as vezes em dupla função na instituição. Como por exemplo: Vitor Meirelles que ocupou o cargo de vice-diretor do Liceu por onze anos, organizou o currículo de desenho e foi professor de 1867 até 1903. Muitos professores eram ex-alunos que retornavam para colaborar com a instituição que os havia ajudado. Há vários casos de professores que lecionaram por 25 / 35 anos continuamente, eram figuras de projeção no meio educacional e social e trabalhavam no Liceu sem salário algum.

Na década de 1880 o Liceu de Artes e Ofícios já havia se tornado e era considerado o mais importante estabelecimento de ensino técnico-profissional do país, sem rival, também, na América Latina. Semelhante aos poucos existentes nos Estados Unidos e na Europa, mas com uma notável e significativa diferença a favor do Liceu: os preconceitos e as distinções raciais e sociais não existiam para impedir o ingresso dos alunos e a educação popular.

Os cursos do Liceu inicialmente se subdividiam em Profissional e Livre, e compreendiam cerca de 50 ou mais profissões, sendo que na década de 1880 foram acrescentados os cursos Profissional Feminino (1881) e o Comercial Noturno de 4 anos (1882)[7], ambos também pioneiros e com número elevado de matrículas.

O curso feminino causou polêmica e sofreu severas críticas da sociedade da época, mas foi defendido pelos intelectuais, em campanha nos jornais, que justificaram a necessidade de estudo para a mulher e argumentaram que se a mulher trabalhava nas fábricas durante o dia podia também estudar a noite. A diretoria do Liceu até abriu uma sala para que os responsáveis tivessem um lugar para aguardar o término das aulas e acompanhar as moças na volta ao lar. Esta medida serenou a maledicência e a preocupação quanto à seriedade do curso, e as matrículas chegaram ao total de 664 alunas.

Convém reforçar que o Liceu pioneiro como escola gratuita, noturna e de ensino elementar, técnico-profissional e artístico para o povo no Brasil, foi, também, único durante muitos anos. Mas, a Sociedade Propagadora das Belas Artes junto com o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro serviram de modelo e colaboraram para a criação de outros liceus: Bahia (1872), de São Paulo (1873), de Uberaba (1880), de Pernambuco (1881), de Juiz de Fora (1882), Santa Catarina (1883), do Amazonas (1884), de Alagoas (1884), de Petrópolis (1892), Fortaleza (1894), do Pará (s/d), do Paraná (s/d), Mato Grosso (s/d) e outros. Interessante notar que todos esses liceus foram fundados tendo uma sociedade mantenedora, e Bethencourt da Silva, por conta do apoio prestado, foi patrono de vários deles. Esses outros liceus surgiram após o do Rio de Janeiro ter recebido o título de Imperial, o que representava o reconhecimento e o aval do Imperador à instituição.

As diretorias da SPBA e do Liceu promoviam sempre ao final de cada ano, por ocasião do aniversário de fundação, uma exposição, aberta ao público, com os trabalhos dos alunos e dos professores. Os alunos que se destacavam recebiam premiações, medalhas e diplomas. Eliseu Visconti foi um desses alunos e pela quantidade de prêmios ficou conhecido como “Papa-Medalhas”. A SPBA também apoiava e patrocinava exposições individuais de artistas em suas salas, e ao término de cada mostra, recebia do expositor, como agradecimento pela cessão do espaço da escola, a doação de um quadro ou obra para o acervo da instituição, desta maneira foi que boa parte do acervo se constituiu.

Esse persistente apoio aos artistas culminou na Exposição Geral de Belas Artes, em 1882, efetuada nas salas do Liceu e organizada totalmente às expensas da SPBA, quando foram expostos 408 quadros, sendo 286 de pintura a óleo, além de trabalhos em guache, desenho, gravura, arquitetura, escultura e fotografias. Participaram professores e membros da Sociedade, além de artistas conceituados como por exemplo: Almeida Reis, Angelo Agostini, Augusto Off, Augusto Petit, Belmiro de Almeida, Chaves Pinheiro, Décio Villares, Georg Grimm, José Maria de Medeiros, Marcos Ferrez, Pedro Peres, Thomaz Driendl, Victor Meirelles, e também várias instituições de ensino.

Essa exposição foi um sucesso e contou com a visita do Imperador D. Pedro II e de sua comitiva. A SPBA tornou-se a primeira instituição particular que efetivamente montou uma Exposição Geral de Belas Artes, no século XIX, fora do recinto da Academia de Belas Artes, quebrando com isso a hegemonia das exposições gerais de arte que ocorriam apenas na Academia. Precipitou também a formação, posteriormente, do grupo liderado por Grimm que intensificou a prática da pintura ao ar livre e de paisagens. Esse patrocínio da Sociedade a uma exposição geral de Belas Artes é um outro aspecto do seu vanguardismo.

Em 23 de novembro de 1882, a comemoração do 26o aniversário da instituição foi marcada pelo célebre discurso de Rui Barbosa intitulado O Desenho e a Arte Industrial, onde glorificou a atuação e o ensino pioneiro do desenho industrial no Liceu, justificando seus benefícios para a educação integral e para a indústria. É um documento precioso onde o grande estadista testemunha que o desenho industrial no Brasil teve inicio e impulso no Liceu. Esse louvor feito por Rui Barbosa à instituição foi corroborado, no ano de 1885, na Exposição Internacional de Londres, quando Liceu foi distinguido com o Diploma de Honra por unanimidade de votos, e também nas exposições posteriores de Chicago, Filadélfia, Buenos Aires, e Valparaíso onde obteve a mesma honraria.

Mas, um incêndio no Liceu, no dia 26 de fevereiro de 1893, destruiu parte do prédio, do arquivo e das pinturas, e, totalmente a biblioteca, as oficinas e as instalações do Museu de Arte Retrospectiva existente, desde a década de 1880. A chamada Biblioteca Popular contava, na época, com mais de 10 mil volumes, sendo a maioria de livros ligados à arte industrial. Era a única no gênero no Brasil. Bethencourt da Silva não esmoreceu[8], e junto com a diretoria e os alunos organizou festivais, benefícios e bandos precatórios, pediu auxílio aos amigos do Liceu e a sociedade em geral. Os jornais colaboravam solicitando apoio e divulgando os donativos recebidos de todas as classes sociais para o restabelecimento das aulas.

O Presidente da República, o Marechal Floriano Peixoto reconhecendo a importância da escola e a necessidade de sua continuidade para a educação popular concedeu à Sociedade Propagadora das Belas Artes o domínio útil, por meio de aforamento perpétuo do terreno em 30 de setembro de 1893 pela Lei n. 191 B (artigo 15, no. IV). A Sociedade tornou-se detentora do terreno na Rua 13 de Maio, pertencente à União, onde anteriormente se achava situado o Liceu, embora o prédio da antiga Secretaria de Estado dos Negócios do Império, onde o mesmo funcionava desde 1878, estivesse destruído pelo incêndio. Esse prédio foi reconstruído posteriormente às expensas da Sociedade e de vários de seus beneméritos. O Liceu também contava com o antigo e contíguo edifício da Tipografia Nacional [9], e que não foi tão atingido pelo fogo. Assim, as classes femininas puderam voltar a funcionar em 11 de abril de 1893, pois a suas salas foram rapidamente recuperadas, porém os outros cursos retornaram paulatinamente, após a reconstrução das salas afetadas.

A SPBA promoveu, também pioneiramente, uma excepcional e grande mostra para a celebração do IV Centenário do Descobrimento do Brasil - a Exposição Artístico-Industrial Fluminense-, que se distribuiu pelos vários salões, pátios e galerias do Liceu com produtos de diversos ramos, divididos por grupos: Belas Artes; Artes Liberais e Mecânicas; Produtos Químicos e Farmacêuticos; Indústria Fabril e Manual e Substâncias Alimentícias, num total de 162 expositores. Essa exposição durou sete meses, tendo sido inaugurada pelo Presidente da República Dr. Campos Sales e demais autoridades. Foi visitada por 80.228 pessoas. Essa mostra comemorativa foi amplamente divulgada pelos jornais da época, e se distinguiu como a única e grande exposição no conjunto dos outros eventos do IV Centenário do Brasil.

Desde a fundação em 1856 até 1901 foram matriculados 39.146 menores, 39.918 adultos e 18.479 mulheres[10]. Esses dados estatísticos foram extraídos dos livros anuais de matrícula e freqüência da instituição. Era realmente uma “Escola do Povo- termo como o  Liceu era citado nos jornais.

Nos primeiros anos do século XX, quando do planejamento da Avenida Central[11], a Sociedade Propagadora das Belas Artes recebeu, em escritura pública, a posse da área restante no entorno do antigo prédio do Liceu (na Rua Treze de Maio). Esta área foi concedida através de permuta dos prédios e dos terrenos que a Sociedade possuía na Rua da Ajuda e que foi cedida ao Governo para a abertura da nova avenida e alargamento das ruas hoje conhecidas como Almirante Barroso e Bethencourt da Silva. A transação foi feita pela comissão chefiada pelo engenheiro Paulo de Frontin. A área total para a construção de um novo e necessário prédio que pudesse abrigar o crescente número de alunos do Liceu, ocupava todo um quarteirão situado entre os atuais Largo da Carioca, Av. Almirante Barroso, Av. Rio Branco e Rua Bethencourt da Silva (saída do Metrô da Carioca).

Precisamente em 23 de novembro de 1906, nos cinqüenta anos de fundação, na presença do Presidente da República Dr. Affonso Penna e de altas autoridades do país, foi realizada a cerimônia de lançamento da pedra fundamental do novo edifício[12] do Liceu, conforme notícia no Jornal do Comércio[13]:

Lyceu de Artes e Officios

Realizou-se hontem o lançamento da pedra fundamental do novo edifício do Lyceu de Artes e Officios, no ângulo da Avenida Central.

Esse acto, que foi presidido pelo Sr. Presidente. da República e assistido por milhares de pessoas, teve a mais imponente solemnidade. Eram 5 horas da tarde quando da Igreja de Nossa Senhora do Parto, sahiu processionalmente, embaixo de pallio, o Sr. Arcebispo Cardeal Arcoverde, acompanhado dos directores e membros do Conselho da Associação Propagadora e número avultado de pessoas do povo, dirigindo-se para o ponto onde vai ser levantado o edifício.

Alli chegado, a Sua Eminência deu começo a benção do terreno, seguindo a leitura do respectivo termo, que ao terminar, foi assignado pelo Sr. Presidente da República, Ministros da Justiça, Indústria e Viação, Marinha, altas autoridades civis e militares e mais pessoas gradas.

Antes, porém, o Sr. Deputado Serzedelo Correa, em vibrante discurso, fez o histórico do Lyceu de Artes e Officios, exaltou os relevantes serviços prestados pela Associação Propagadora, e terminou por offerecer ao Sr. Presidente da República a penna de ouro com a qual devia S.Ex. assignar o termo de encerramento.

O Sr. Presidente da República, recebendo-a, disse que se sentia feliz em assistir àquella solemnidade por ser a primeira no seu governo, conhecia bem e admirava aquella instituição, e que tudo por ela fará ao seu alcance.

Procedendo-se o encerramento da caixa, fora alli depositados moedas brasileiras de ouro, prata e cobre, cópia da representação dirigida pela Propagadora ao Dr. Rodrigues Alves, quando governo, folheto com os nomes dos directores e membros do Conselho da Associação, cartões de matrícula dos alumnos do Lyceu, uma collecção dos novos sellos postos em circulação no corrente mês e cartões e bilhetes postaes.

Lançada a pedra fundamental do edifício, o Sr. Arcebispo deu-lhe a benção e retirou-se com o término da cerimônia.

Finda a solemnidade o Sr. Presidente da República dirigio-se para o velho edifício do Lyceu, visitando todas as suas dependências, admirando por esta occasião uma bella exposição de trabalhos.

Entre vivas e aclamações do povo que ocupava a grande área fronteira do edifício, retirou-se o Chefe da Nação, sendo-lhe prestadas as devidas continências pelo 23o Batalhão de Infantaria.

No Lyceu a festa continuou até à s 9 ½ horas da noite, tocando no saguão a banda de música do Corpo de Infantaria da Marinha[14].

Por esta occasião os alumnos e alumnas offereceram ao Sr. Comendador Bittencourt da Silva, uma coroa de louros e ramilhetes de flores naturaes.

O novo prédio da escola [Figura 3], com entrada principal pela Avenida Central 174, foi projetado por Bethencourt da Silva e previa lojas para aluguel no andar térreo, com a finalidade de angariar meios para sustentar os cursos que  teriam suas salas nos outros dois pavimentos superiores. A construção do novo prédio só começou efetivamente em 1910 e terminou em 1926.

O Liceu de Artes e Ofícios, ao dar oportunidade de estudar as pessoas sem recursos e de variadas idades, “combateu a ignorância” (o analfabetismo), formou profissionais que contribuíram para dar uma outra visão das artes menores, e defendeu a liberdade desses alunos para construir novas metas para si, incluindo se socialmente, tanto que muitos, após continuarem estudos em outros campos do fazer ou do saber, tornaram-se pessoas representativas e notáveis no Brasil, como, por exemplo, o presidente Hermes da Fonseca. Entre os artistas, ex-alunos da escola, e que cursaram depois a Academia de Belas Artes, podemos citar dentre outros: Eliseu Visconti, José Maria de Medeiros, Oswaldo Teixeira, Armando Viana, Paulo Mazzuchelli, Modestino Kanto, Pedro José Pinto Peres, Belmiro de Almeida, Rodolfo Amoedo, entre outros. Notável é que a maioria dos ex-alunos retornava como professor ou como benemérito, perpetuando o vínculo afetivo à escola.

A trajetória histórica do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro nesses primeiros cinqüenta anos foi singular, pioneira nas várias áreas de atuação já citadas, principalmente como cerne do desenho industrial, e correspondeu sempre ao ideal proposto por Bethencourt da Silva aos 99 fundadores.

Ainda há muitas histórias para se contar sobre o Liceu, pois, afinal, são quase 152 anos de existência!

Bibliografia

BARBOSA, Rui. O desenho e a arte industrial. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda, 1949. Disponivel em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/> Acesso em 1 jan. 2009.

BIELINSKI, Alba Carneiro. Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro - dos pressupostos aos reflexos de sua criação - de 1856 a 1900. Rio de Janeiro: dissertação de Mestrado em Artes Visuais da EBA-UFRJ, 2003.

_____. Educação Profissional no Século XIX - Curso Comercial do Liceu de Artes e Ofícios - um estudo de caso. Menção Honrosa / Prêmio Senac de Educação Profissionalizante. Boletim Técnico do SENAC. V. 26, no 3, set / dez 2000. Disponivel em: <http://www.senac.br/BTS/263/boltec263e.htm> Acesso em 1 jan. 2009.

_____. Curso Comercial do Liceu de Artes e Ofícios, um marco do ensino - arqueologia histórica. Rio de Janeiro: Monografia / FABES, 1996.

_____. Fragmentos de uma trajetória - Síntese histórica dos 138 anos do Liceu de Artes e Ofícios. Rio de Janeiro: Monografia / UNI-RIO, 1995.


* Mestre em Estudos de História e Crítica da Arte / EBA-UFRJ; pós-graduada em História da Arte e da Arquitetura no Brasil / PUC e Docência Superior / FABES; graduada em Educação Artística-História da Arte / UERJ e Museologia / UNI-RIO. Professora de Educação Artística / Colégio Estadual Pedro Álvares Cabral e historiadora e membro da Diretoria da Sociedade Propagadora das Belas Artes.

[1] Bethencourt da Silva, que se tornaria conhecido posteriormente como “O Homem do Liceu, naquela época trabalhava na Inspeção Geral das Obras Públicas no setor de Desenhos, na Companhia da Praça da Glória como arquiteto responsável, e  em arquitetura e topografia particularmente.

[2] Estatutos da Sociedade Propagadora das Belas Artes, capítulo I, artigo 1º e 2º. In BIELINSKI, Alba Carneiro. Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro - dos pressupostos aos reflexos de sua criação - de 1856 a 1900, 2003, p.187.

[3] BIELINSKI (2003), p.188. Estatutos da Sociedade Propagadora das Belas Artes, capítulo II.

[4] Esta igreja estava desativada, pois estava condenada à demolição para dar passagem a Estrada de Ferro D. Pedro II, mas só na época de Pereira Passos foi demolida para ampliação da Rua Estreita de S. Joaquim até o Largo de Santa Rita.

[5] Também conhecidos como deserdados da sorte, classes populares ou classe operária.

[6] A Princesa Isabel, que foi regente do Brasil em três períodos, fazia doações particulares, solicitava ajuda  e freqüentava todos  os eventos promovidos pelo Liceu. Grande incentivadora,  em especial do curso feminino.

[7] Equivalente a um curso de ensino médio mais o técnico em comércio. Não havia, na época, faculdade nessa área. Foi o Liceu que pioneiramente estabeleceu o ensino comercial num curso mais amplo de 4 anos, o que equivalia, guardadas as devidas proporções, a um atual bacharelado.

[8] Apesar de ter perdido bens pessoais, inclusive trabalhos, textos, plantas e desenhos seus, pois como diretor morava no prédio da escola, como era hábito naquele tempo.

[9] Que havia se transferido para um novo prédio situado do outro lado da rua 13 de Maio.

[10] Relatórios do Lycêo de Artes e Officios. Apresentados à Sociedade Propagadora de Bellas-Artes pelas Diretorias de 1882 a 1884. Rio de Janeiro: Typ de J. P. Hildebrandt, 1884.

[11] Hoje Avenida  Rio Branco.

[12] Parte do edifício, com frente para avenida, foi inaugurada em 1915. Atualmente no mesmo  local - Av. Rio  Branco, 174 - encontra-se o prédio da Caixa Econômica Federal.

[13] Jornal do Comércio. Rio de Janeiro: 24/11/1906, página 2.

[14] Corpo de Infantaria de Marinha é o atual Corpo de Fuzileiros Navais.