Gênero e impermanência nas artes visuais de Pernambuco: Fedora do Rego Monteiro

Madalena Zaccara[1] e José Lucas Vila Nova[2]

ZACCARA, Madalena; NOVA, José Lucas Vila. Gênero e impermanência nas artes visuais de Pernambuco: Fedora do Rego Monteiro. 19&20, Rio de Janeiro, v. XII, n. 2, jul./dez. 2017. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artistas/mz_fedora.htm>.

* * *

1.       Pernambuco traz consigo a marca de ter gerado inúmeros artistas com produção relevante para o país e para o mundo. Mas é também um dos espaços brasileiros aonde, pedagogicamente, a mulher foi mais marcantemente condicionada pelo sistema patriarcal, por várias gerações, a uma existência e uma educação voltadas para o lar e suas afinidades. Uma boneca ancestralmente amestrada para a servidão e que, nas palavras de Gilberto Freyre foi programada para ser “um ser artificial, mórbido. Uma doente deformada no corpo para ser serva e boneca de carne do marido.”[3]

2.       O Nordeste brasileiro “floresceu em famílias rurais ou semi-rurais, patriarcais, latifundiárias, escravocratas e, essencialmente, falocráticas.”[4] Essa condição ancestral parece perdurar no inconsciente da região e talvez justifique a ainda reduzida quantidade e variedade de estudos desenvolvidos aqui sobre gênero em suas múltiplas abordagens. O apagamento da mulher artista na região é só mais um olhar entre tantos em desenvolvimento por historiadoras feministas após a década de setenta do século XX.

3.       Escrita por homens, a narrativa histórica se absteve de incorporar às suas preocupações o sujeito feminino. Este fato não foi uma prerrogativa da historiografia brasileira ou  latino-americana, ou mesmo da realidade pernambucana, mas uma atitude constante, inclusive em países hegemônicos onde a preocupação com os direitos femininos e o reconhecimento da condição subalterna da mulher cronologicamente se processou mais cedo.

4.       No universo sócio-cultural pernambucano, o ideal feminino esteve historicamente ligado a uma instrução que tinha como objetivo principal a transformação da mulher em boa esposa e boa mãe de família. Pensar não era importante. Criar, menos ainda. Essa certeza da inaptidão intelectual feminina está no cerne da sociedade patriarcal brasileira (e pernambucana) da época. Chegou com os conquistadores portugueses e foi sancionada pela Igreja Católica.

5.       Nessa América portuguesa, herdeira da mentalidade misógina ibérica, sob normas ditadas pelos eclesiásticos, a mulher letrada era considerada um perigo, principalmente se seus conhecimentos excedessem os masculinos. A educação feminina era, portanto, direcionada a aprendizados tais como costura, bordado e doutrina cristã, que demandavam um baixo nível de alfabetização.

6.       Através dos relatos de Henry Koster sobre a mulher nordestina branca a partir de seu livro Viagens ao Nordeste do Brasil, publicado em Londres pela primeira vez em 1816, podemos vislumbrar a vida das mulheres oitocentistas reclusas em Pernambuco. Diz o aventureiro:

7.                                             Não se veem as mulheres além das escravas negras, o que dá um aspecto sombrio às ruas. As mulheres portuguesas e as brasileiras, e mesmo as mulatas de classe média, não chegam à porta de casa durante todo o dia. Ouvem a Missa pela madrugada, e não saem senão em palanquins, ou à tarde, a pé, quando, ocasionalmente, a família faz um passeio.[5]

8.       Koster, que desembarcou no Recife em 1809 (um ano depois da chegada da família real e da corte portuguesa fugitivas das tropas de Junot, marechal de Bonaparte), traça assim o perfil da posição ocupada pela mulher branca no Recife oitocentista. As modificações introduzidas com a vinda da corte para o Brasil vão, muito lentamente, se refletir em um Recife distante e, consequentemente, na vida de suas mulheres. Em relação às artes visuais, o seu ensino, enquanto ofício vai ser iniciado na Província de Pernambuco pelo exército que passou a juntar o aprendizado das primeiras letras ao desenho. Ele voltava-se para “os filhos de pais pobres, ou seja, da camada mais humilde da população.”[6] Segundo Melo e Silva,[7] também visando esse público alvo, o Liceu de Artes e Ofícios vai ser inaugurado em Recife no ano de 1880 em uma situação local de analfabetismo e de pouca industrialização. Esse quadro não era diferente no que se refere ao status social do alunado da Academia Imperial de Belas Artes, em uma nação escravagista de base rural, sem economia urbana sólida e com uma classe artesanal pouco significativa, a carreira artística destinava-se às classes pobres urbanas.[8]

9.       Para as mulheres, a primeira oportunidade de educação artística aparece na década de 20 do século XX com a criação pelo governo do Estado de Pernambuco das Escolas Profissionais, masculina e feminina. Entretanto, a masculina (hoje, Escola Técnica Professor Agamenon Magalhães) ministrava “cursos de trabalhos em metal, em madeira, artes gráficas, artes aplicadas e desenho enquanto a Escola Profissional Feminina, inaugurada em 1929, ministrava artes domésticas em geral.”[9] Antes dessas iniciativas anteriormente descritas, o ensino era literalmente passado de pai para filho.

10.    Em relação às artes visuais a ideia dominante já em pleno século XX era a de que a arte para as mulheres nada mais era do que um passatempo a mais para as moças de famílias abastadas, consolidando uma formação voltada principalmente para o casamento.  Essa concepção foi bem mais contundente no Nordeste do que na região Sudeste aonde informações (e consequentes mudanças) chegavam mais facilmente. Além disso, se naquela região a mulher só participou, com restrições, dos ensinamentos da Academia Imperial de Belas Artes a partir de fins do século XIX, em Pernambuco só em 1932 o ensino das Artes Visuais foi sistematizado pela fundação da Escola de Belas Artes em Recife. Essa realidade reflete-se no seu reconhecimento como profissional e na sua inserção no mercado de trabalho.

11.    Mas, apesar de todas essas dificuldades temos notícias de uma artista mulher trabalhando como pintora em Pernambuco nos primórdios do Brasil colônia. Rita Joana de Sousa, nascida em Olinda em 1595 e falecida na mesma cidade em 1618 foi pintora e escritora. Tornou-se conhecida através do livro Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, de Domingos do Loureto Couto,[10] beneditino pernambucano, inédito até ao início do século XX e editado em 1904. O cronista da ordem de São Bento se refere a ela no contexto das mulheres que se destacaram nas letras e nas armas em Pernambuco. Isso, entretanto,  bem depois e em menos linhas do que as empregadas para enaltecer as virtudes de mulheres pernambucanas que se recolheram ao claustro, morreram assassinadas por seus maridos e filhos em nome da honra ou se converteram após vida “desonrosa” e, mesmo, depois de destacar o mérito das índias convertidas.

12.    Rita Joana de Sousa é, portanto, a primeira mulher artista da qual se tem notícia no Brasil e cujo nome nos chega através das poucas linhas sobre ela escritas pelo monge beneditino no século XVII e só descobertas no XX. Também temos notícias esparsas sobre as filhas de João de Deus Sepúlveda[11] - Tereza, Lucinda e Verônica de Sepúlveda - que aprenderam o ofício com o pai e que com ele trabalharam, mas que sobre as quais quase nada se conhece.[12]

13.    Há uma lacuna posterior que vai dos holandeses até a geração de Telles Júnior,[13] de quem se sabe que pelo menos duas de suas filhas foram pintoras como ele. Segundo Bianor de Medeiros, citado por José Claudio em seu livro Tratos da Arte de Pernambuco: “Dona Ester pinta flores admiravelmente.”[14] Outra irmã (e sexta filha de Telles Junior), Raquel Telles, pintora e poetisa, ensinou pintura a vários artistas de uma geração em Pernambuco e por eles é citada como mestra.[15] Ainda constam no texto de Medeiros algumas alunas do próprio Telles Junior: as senhoras donas Maria Cândida de Figueiredo Santos, Amélia Cândida de Oliveira e Silva, Beatriz Montenegro, Maria Amália Moscoso Bandeira, Cristina F. Bittencourt, Celecina Rodrigues Saraiva e Julieta Carneiro da Cunha.  Sobre elas assim se pronuncia Bianor Medeiros em 1906:

14.                                         A lista dos nomes de suas discípulas talentosas, amabilíssimas senhoras de elevada educação que apesar de contrariadas em sua modéstia, me facilitaram os retratos que aparecerão mais adiante, constituindo a simpática e brilhante falange das Amadoras.[16]

15.    Muitos desses nomes ainda permanecem esquecidos no tempo, com artistas talentosas permanecendo relegadas à categoria de amadoras. Provavelmente, sem sequer poderem sonhar “em sua modéstia” com uma condição profissional enquanto artistas. Como as alunas de outro artista pernambucano, Rodolfo Lima, que foi professor durante muitos anos em vários colégios do Recife.[17] Entre elas constam Dona Maria Rosa e Silva e Dona Ester e Dona Diná Maia. A profissão (de artista) não recomendava. Principalmente para as mulheres. Era, portanto, na condição de “sinhás donas amadoras” que elas eram identificadas, mesmo no início do século XX, quando ousavam assinar uma tela.

16.    A alternativa para a realidade local feita de exclusão, amadorismo e esquecimento foi um caminho percorrido por muito poucas. Ele significava uma formação a ser feita no sudeste do país ou na Europa: uma situação rara para a realidade pernambucana e a qual pouquíssimas mulheres tiveram acesso. Depois dessa geração de pálidas e esquecidas sinhás artistas um nome se destaca no cenário da presença da mulher nas artes visuais em Pernambuco: Fedora do Rego Monteiro.

Fedora do Rego Monteiro: de sinhá prendada a artista visual

17.    Fedora do Rego Monteiro Fernandes nasceu em Recife em 3 de fevereiro de 1889 e faleceu na mesma cidade em  1975. Era filha de Ildefonso do Rego Monteiro, um representante comercial da Havendich & Co, empresa inglesa do ramo de tecidos, e de Elisa Cândida Figueiredo Melo do Rego Monteiro, professora normalista que era prima em terceiro grau dos também pintores Pedro Américo de Figueiredo e Mello[18]  e Aurélio de Figueiredo. Fedora tinha mais quatro irmãos. Todos se dedicaram às artes: José foi arquiteto; Débora, formada pela Faculdade de Direito de Recife, tornou-se escritora; Vicente e Joaquim foram, como ela, pintores.

18.    De família abastada e com padrões intelectuais e de comportamento diferentes de seus conterrâneos e contemporâneos, Fedora do Rego Monteiro pode seguir para o Rio de Janeiro em 1908, apenas quatro anos depois da publicação do livro de Bianor de Medeiros, onde estudou pintura na Escola de Belas Artes, “tendo como mestres os pintores conceituados: Modesto Brocos, Zeferino da Costa e Eliseu Visconti.”[19] De lá, em 1911, seguiu para Paris onde foi estudar na Académie Julian que, no século anterior (extremamente radical em relação à participação feminina no estudo das artes), passou a aceitar mulheres em seus cursos. Entre 1911 e 1915, recebeu aulas de vários professores, entre eles o pintor toulousano Paul Gervais que era um dos principais mestres da Academie Julien. Seus biógrafos citam frequentemente o pintor Désiré-Lucas como outro mestre de Fedora no período parisiense. Acreditamos tratar-se de Désiré-Lucas Louis, aluno de Bouguereau e especialista em retratos e paisagens. Em Paris, segundo afirma A. Austregesilo em 1924[20], ela expôs no Salão dos Independentes, no Salão do Outono, no Salão dos Artistas Franceses. Fedora volta ao Brasil, com a iminência da Primeira Guerra Mundial e passa algum tempo no Rio de Janeiro antes de regressar ao Nordeste. É sobre esse momento de sua trajetória que nos fala João Ribeiro no Diário de Pernambuco de 6 de março de 1917 :

19.                                         Para os lados do pitoresco arrabalde de Copacabana vive uma jovem artista de quem o Brasil espera a realização. Cercada do carinho dos seus pais, a senhorita Fedora do Rego Monteiro dedica-se a sua arte com o mais vivo e intenso culto. Começou a sua educação artística na nossa Escola de Bellas Artes, onde teve como mestres Zefferino, Visconti e Brocos, de cujas lições se aproveitou durante 4 anos. Não era, porém, o Rio o ambiente mais propício para o complemento de sua educação estética. Como todos os artistas, sentiu a fascinação de Paris, o grande meio em que se definem as verdadeiras vocações de arte. E lá viveu outros 4 anos, recebendo a inspiração de novos mestres: Guetin, Gervais e Desiré Lucas.

20.    De volta ao Rio e Janeiro, Fedora expõe com elogios da crítica que a compara a uma das artistas mais destacadas naquele cenário, Georgina de Albuquerque. De acordo com a Revista do Brasil em 1916 (cfr. link):

21.                                         A sra. Georgina de Albuquerque não é, neste Salon, a única artista vitoriosa. Realmente, o belo sexo faz-se representar, com brilho e dignidade. A sra. Fedora do Rego Monteiro que, há pouco, nos chegou de Paris e fez uma exposição numerosíssima, onde não rareavam as belas obras, obteve a Pequena Medalha de Prata, com um retrato a pastel, aceito no Salon des Artistes Français.

22.    Após esta nova temporada no Rio de Janeiro, Fedora volta para Recife em fins de 1917. Em sua cidade natal faz uma exposição individual na Associação dos Empregados do Comércio e se casa com o intelectual pernambucano Aníbal Fernandes que entre outras funções foi professor, jornalista, deputado estadual, secretário de Justiça e Instrução, diretor da Inspetoria Estadual dos Monumentos Nacionais e conservador do Museu Histórico e de Arte Antiga do Estado de Pernambuco. De Recife ela manda trabalhos para a XXIII e XXIV Exposições Gerais de Belas Artes da ENBA. Em 1920, assim se manifesta sobre ela o conhecido sociólogo e intelectual pernambucano Gilberto Freyre:

23.                                         Outras mulheres sul-americanas têm triunfado nos centros artísticos da Europa - como musicistas, pintoras, escultoras e cantoras de ópera. Alguns dias antes de deixar minha cidade natal para New York tive o prazer de jantar com uma das mais brilhantes pintoras brasileiras, Fedora do Rego Monteiro, cujos trabalhos têm sido elogiados por críticos parisienses.[21]

Gênero e Impermanência nas artes visuais de Pernambuco

24.    A volta da artista para seu estado natal a levou ao encontro de outro espaço de vivência e atuação. No trânsito Paris-Pernambuco, ela teve que se adaptar à realidade da província que não permitia ousadias naqueles anos vinte. Como exemplo nós temos o fato de que, no início da década seguinte, em março de 1930, seu irmão Vicente do Rego Monteiro trouxe para o Recife uma exposição de obras dos principais representantes da chamada “Escola de Paris.”[22] Foi um fracasso em termos de público e vendas. A mostra também não foi compreendida por seus pares. Essa reação se deu principalmente por conta das diferenças de códigos culturais entre a capital pernambucana e Paris onde a liberdade de criação atraía artistas de todo o planeta.

25.    No que dizia respeito à sua produção artística Fedora, permanecia entre a linguagem acadêmica - aprovada, por exemplo, pelo Salão dos Artistas Franceses, do qual ela participou e cuja exposição anual remonta a 1881, sucedendo ao Salão da Academia de Belas Artes e organizada pela Sociedade dos Artistas Franceses - e o Impressionismo, que já tinha dado lugar na França a outras linguagens das vanguardas artísticas. Isso a colocava, no Brasil e principalmente em Pernambuco na vanguarda das transformações próprias de seu tempo, como situa Lucílio Varejão em 1924:

26.                                         A meio de todos esses - aparece ainda a figura de D.Fedora Monteiro Fernandes que se não enquadra entre eles - porque viajou durante muitos anos, pelos museus da Europa, e teve bons mestres e, com sua aguda percepção de lá trouxe uma maneira pessoal, pouco simpática aos profanos amigos do chromo, do “lambido”, mas perfeitamente satisfatória as “elites” conhecedoras das inflexões quase radicais por que passa agora, nos centros culturais, na arte pinturesca de depois da guerra…[23]

27.    Essa linguagem de vanguarda e os limites de gênero imposto à mulher em Pernambuco - que incluía a mulher artista profissional - a fez vivenciar um espaço limitante em relação a sua atuação em Recife apesar das relações políticas e sociais de seu marido.  A consequência mais visível é que apesar da artista, juntamente com Balthazar da Câmara, Henri Moser, Murilo La Greca, Bibiano Silva, Henrique Silva e Mario Tulio, estar à frente da organização do II Salão de Arte Oficial de Pernambuco, em 1930, e do fato de que esse mesmo grupo esteve articulado com a fundação da Escola de Belas Artes de Pernambuco em 1932, onde Fedora ensinará posteriormente (única mulher que foi professora deste período, dentre os 33 professores da instituição),  ela não consta no quadro de sua administração inicial ou posterior. Os primeiros dirigentes da EBAP foram: Bibiano Silva, diretor; Heitor Maia Filho, vice-diretor; Jaime Oliveira, secretário e Luiz Mateus Ferreira, tesoureiro. O fato nos convida à reflexão, pois, afinal, inegavelmente, ela é a presença que mais se destaca no contexto profissional das Artes Visuais em Pernambuco na década de 1930, com um currículo bem mais sólido e cosmopolita em relação aos seus companheiros da EBAP.

28.    A partir de 1942, através de um decreto estadual,[24] instituiu-se o Salão Anual de Pintura no Museu do Estado de Pernambuco, onde foram expostos apenas trabalhos de pintura à óleo e predominou a participação de alunos e professores da Escola de Belas Artes do Recife. Os Salões constituíam, então, o principal evento artístico realizado no Estado: um símbolo do desenvolvimento das Artes Visuais em Pernambuco e vitrine para o reconhecimento e validação da produção artística. Fedora do Rego Monteiro, uma das fundadoras da Escola de Belas Artes de Pernambuco, membro do seu corpo docente e personalidade atuante no universo das artes plásticas, parece também ser a exceção feminina neste cenário. Analisando as premiações dos Salões acontecidos entre 1942 até 1947, quando a própria Fedora ganha um segundo prêmio, só aparece seu nome como expressão do universo feminino nas artes visuais profissionais de Pernambuco No que diz respeito à comissão julgadora do Salão, só em 1950 vemos a presença de uma mulher: Lygia E. de Oliveira.

29.    É importante lembrar também que, quase paralelamente à implantação da Escola de Belas Artes, um grupo de jovens artistas rompia com seus ensinamentos e criava o “Grupo dos Independentes,” que praticava valores estéticos inovadores e trazia o vocabulário moderno para o cenário artístico pernambucano. Desenhistas, caricaturistas, pintores e escultores compunham o grupo e fundaram os primeiros Salões Independentes de Arte entre 1933 e 1936. ”Independência de tudo que fosse tradicional” era a regra.[25] O “Grupo dos Independentes” também não tinha, entre seus fundadores, nenhuma mulher. Entretanto, na mostra realizada no “I Salão dos Independentes” observarmos as presenças de Fedora Monteiro, Emília Marchesine e Crisolice Lima - em um universo de 22 artistas - o que demonstra que elas eram competentes, atuantes e se interessavam pela independência da tradição.

30.    Dentro de uma realidade social de hegemonia masculina, Fedora do Rego Monteiro destacou-se não só como pintora, mas como a única professora da Escola de Belas Artes do Recife, nos anos 1930. Trabalhou por anos a fio como professora de desenho e pintura e expôs mesmo após sua volta a Recife, em salões do Rio de Janeiro e da capital de Pernambuco. Tornou-se professora em 15 de julho de 1932, lecionando inicialmente a cadeira de natureza-morta [Figura 1].

31.    Sobre sua atuação enquanto mestra, a imprensa local se manifesta com louvores, o que, porém, não impediu o seu esquecimento posterior. Sobre ela assim se referiu o Jornal Pequeno, publicado no Recife em 22 de agosto de 1932:

32.                                         Merecem rasgados applausos os seus collaboradores, esforçados artistas, procurando levantar o nível cultural do Recife. Entre os professores figura uma pintora, nome bastante conhecido e a garantia de que a aula que tiver a seu cargo será conduzida com brilho: Fedora do Rego Monteiro Fernandes, já laureada e mais - consagrada pelo *Salon Officiel* de Paris, onde expoz um soberbo auto-retrato.[26]

33.    O fato é que. tanto como professora como quanto artista, Fedora se destacou. Enquanto criadora, teve  um currículo internacional, recebeu críticas de críticos parisienses - em uma Paris então centro hegemônico das artes visuais do Ocidente. Sobre seu trabalho escreveu, por exemplo, G. d’Escoyag:

34.                                         Mlle. Fedora est une coloriste á laquelle la nature a departi avec prodigalité tous les dons qu’une artiste peut envier; ses oeuvres ont des qualités d’envelloppe et de coloris três personnelles; j’en aime la franchise de touche, la couleur nuancée, delicate, harmonieuse.[27]

35.    Além de representar a pintura brasileira no mercado de arte francês, Fedora também atuou no processo de articulação e difusão das artes visuais brasileiras no contexto internacional não só como expositora em diversos salões, mas como membro fundador da Association des Artistes Brésiliens como nós podemos verificar através do jornal Le Radical de 21 de novembro de 1913:

36.                                         Le “Cercle des Artistes Brésiliens” tient aujourd’hui sa première réunion, ou sera décidée la date de l’exposition générale de ce groupe formée de l’élite de la jeunesse artistique brésilienne. […] Citons, parmi les membres du Cercle Mmes la vicomtesse de Sistello, la comtesse de Alto-Mearim, la baronne Hamoir de Rio Branco, Mlle Fedora do Rego Monteiro, Mme Clotilde de Rio-Branco, MM Julio Balla, Manoel Madruga, Marques Campar Correia e Castro, Vicente do Rego Monteiro, Jose Rodrigues, Jose do Rego Monteiro, Oscar Pereira da Silva, Helene Pereira da Silva, Gaspar Coelho de Magalhaes, etc. etc.[28]

37.    Esta artista atuante e engajada expôs até os últimos anos de sua vida, falecendo em 1975 aos 86 anos, na cidade de Recife. Mas, apesar do reconhecimento profissional e social de seus contemporâneos muito pouco se fez em relação à construção de sua memória. Como outras artistas que atuaram em Pernambuco, Fedora faz parte das lacunas memoriais de um número importante de mulheres que trabalharam e trabalham no estado desde Rita Joana de Sousa.

38.    Os estudos pioneiros sobre gênero no Brasil se iniciam, em sua maioria, no início do século XXI - algumas décadas atrasados, portanto, em relação aos países anglo-saxões e mesmo latinos.  Eles tiveram como objeto e cenário uma sociedade marcadamente desigual, católica e patriarcal e é necessário remarcar que as questões de gênero nas artes visuais não possuem a mesma dinâmica nas suas regiões não hegemônicas, nas quais se inclui o Nordeste brasileiro. 

39.    As pressões do movimento feminista, desde os anos 1970, apoiadas pela entrada maciça das mulheres na vida acadêmica e no mercado de trabalho provocaram uma quebra no silêncio histórico e historiográfico e novas produções intelectuais afirmam a presença da mulher nos mais diversos campos do conhecimento. Essa recente inclusão das mulheres tem revelado momentos inesperados da presença feminina nos acontecimentos históricos, bem como um alargamento do discurso, até então estritamente estruturado para pensar as ações individuais e as práticas coletivas como essencialmente masculinas.

40.    Fedora do Rego Monteiro se destacou profissionalmente entre seus contemporâneos no cenário nacional e internacional e hoje é praticamente esquecida na realidade que conjuga gênero e impermanência nas artes visuais. O objetivo deste texto é o de que ele funcione como parte de um resgate de uma artista que trilhou o difícil caminho de sinhá prendada a artista visual no início do século XX.

Referências bibliográficas

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[1] Doutora em História da Arte - Université Toulouse II, também em Toulouse, França, como bolsista Capes. Tem pós-doutorado pela Escola de Belas Artes da Universidade de Porto, Portugal, também como bolsista Capes e desenvolveu pesquisas junto a Université de Laval, Quebec Canadá e a Universidad de Murcia, Espanha.  Atualmente é professor Associado IV da Universidade Federal de Pernambuco. Ensina no Programa Associado de Pós Graduação em Artes Visuais UFPE-UFPB. Endereço eletrônico: madazaccara@gmail.com

[2] Graduando em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco, pesquisador do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC).

[3] FREYRE, Gilberto apud QUINTAS, Fatima. Sexo a moda patriarcal: o feminino e o masculino na obra de Gilberto Freyre. São Paulo: Globo, 2008, p. 67.

[4] QUINTAS, Fatima. Sexo a moda patriarcal: o feminino e o masculino na obra de Gilberto Freyre. São Paulo: Globo, 2008, p. 171.

[5] KOSTER, Henry Apud ALVES, Solange Mousinho; ROCHA, Solange Pereira. As mulheres na visão de um viajante inglês - século XIX. Anais do II Seminário Nacional Gênero e Práticas Culturais: culturas, leituras e representações. Disponível em: http://itaporanga.net/genero/gt1/500.pdf

[6] MELO E SILVA, Beatriz de Barros. A pedagogia da Escola de Belas Artes do Recife - Um olhar a mais. Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco como requisito parcial para a obtenção do grau de mestre em Historia. Recife, 1995.p.52.

[7] MELO E SILVA, op. cit., 1995, p. 53.

[8] DURAND, José Carlos. Arte privilégio e Distinção. Editora Universidade de São Paulo, Perspectivas. São Paulo: 1989.

[9] MELO E SILVA, op. cit., 1995, p. 53.

[10] COUTO, Domingos de Loreto. Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. Rio de Janeiro: Officina Typographica da Biblioteca Nacional, 1904.

[11] João de Deus Sepúlveda. (Recife PE 17-- - s.l. 17--). Pintor, dourador, músico e tenente. É considerado o mais importante pintor pernambucano do período colonial. Executa as pinturas dos painéis laterais e do forro da nave da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo (1760/1761) e do forro da nave da Igreja de São Pedro dos Clérigos (1764/1768), no Recife. (Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural).

[12] CLAUDIO, José. Tratos da Arte de Pernambuco. Recife: CEPE, 2012, p. 257.

[13] Jerônimo José Telles Júnior (Recife 1851 – Recife 1914). Pintor e professor, ele dedica-se especialmente a retratar a natureza da região nordeste do Brasil, principalmente a pernambucana.

[14] MEDEIROS, Bianor. Nossos quadros e nossos pintores. Recife: A cultura acadêmica, 1906, apud CLAUDIO, José. Tratos da Arte de Pernambuco. Recife: CEPE, 2012, p. 226.

[15] Arquivos particulares  da artista pernambucana Zélia Gouveia.

[16] MEDEIROS, Bianor apud CLAUDIO, José. Tratos da Arte de Pernambuco. Recife: CEPE, 2012, p. 226.

[17] Ibidem, p. 233.

[18] Pedro Américo e Aurélio de Figueiredo e Mello, irmãos, artistas paraibanos. O primeiro foi pintor, desenhista, professor, caricaturista, escritor. Muda-se para o Rio de Janeiro, onde estuda no Colégio Pedro II e no ano seguinte matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes - AIBA. Entre 1859 e 1864, com bolsa concedida pelo imperador dom Pedro II (1825 - 1891), estuda na École National Superiéure des Beaux-Arts [Escola Nacional Superior de Belas Artes] de Paris. Autor de trabalhos românticos importantes para a História da Arte brasileira como a Batalha de Avaí e a Batalha de Campo Grande. O segundo, pintor, caricaturista, desenhista, escultor, escritor. Freqüenta, ainda adolescente, a Academia Imperial de Belas Artes - AIBA, no Rio de Janeiro, sob a orientação de seu irmão Viaja para a Europa e reside em Florença, entre 1876 e 1878. Nessa época, trabalha no ateliê do irmão e estuda com Antônio Ciseri (1821 - 1891), Nicolò Barabino (1832 - 1891) e Stefano Ussi (1822 - 1901), todos pintores de história, gênero e retrato.

[19] A. Austregesilo. Ilustração Brasileira, 1924 p. 111.

[20] Idem.

[21] FREYRE, Gilberto. Diário de Pernambuco, 6 jan. 1920.

[22] “A relevância da exposição da Escola de Paris está, em primeiro lugar, no fato de alguns dos artistas ali representados terem sido os responsáveis por várias das grandes inovações nas artes plásticas nas primeiras décadas do século XX, tais como o fovismo, o cubismo e o surrealismo. Mas foi igualmente marcante por ter sido a primeira grande exposição de arte moderna europeia a desembarcar no Brasil e a única, de porte equivalente, de que se teria notícia nos dez anos seguintes” in  ANJOS,  Moacir dos; VENTURA Jorge Morais . Picasso 'visita' o Recife: a exposição da Escola de Paris em março de 1930. Estudos Avançados. vol.12 no.34 São Paulo Sept./Dec. 1998 Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141998000300027

[23] VAREJAO, Lucílio. Ilustração Brasileira. Rio de Janeiro, 1924, p. 45.

[24] Decreto Estadual 725 de 25 de abril de 1942  apud Kleumanery de Melo Barbosa, Dos Salões de Arte em Pernambuco. Monografia para conclusão do curso de Graduação em Licenciatura em Desenho e Plástica sob a orientação da Prof. Marilene Melo de Almeida. Universidade Federal de Pernambuco. 2002.

[25] RODRIGUES, Nise de Souza, O grupo dos independentes: arte moderna no Recife-1930. Recife; Editora da Aurora, 2008.

[26] Jornal Pequeno, Recife, 22 ago. 1932. Citado em: SANTOS, Niedja Ferreira. O ensino do desenho na Escola de Belas Artes e Pernambuco (1932 A 1946).  Dissertação de Mestrado. Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFPE-UFPB. 2015 p.91.

[27] d’ESCOVAG, G. d’ apud João Ribeiro. Diário de Pernambuco, 6 mar. de 1917.

[28] M. P. Nouvelle du Monde des Arts. Le Radical,  Paris, 21 nov. 1913. Citado em: CABRAL, Carlos Romeu. Fedora do Rego Monteiro, o marché d’art francês e a internacionalização da pintura brasileira no século XX. Anais da Anpap, 2016, Disponível em: http://anpap.org.br/anais/2016/comites/chtca/carlos_cabral.pdf