Celita Vaccani: Trabalho referente
aos cometários sôbre o Aleijadinho,
escritos por Henrique Bernardelli
contribuição de
Arthur Valle e Camila Dazzi
Originalmente publicado nos Arquivos da Escola Nacional de Belas
Artes. Rio de Janeiro: Universidade do Brasil, nº XI, agosto de 1965,
pp.170- 177, o trabalho de Celita
Vaccani aqui reproduzido atesta o pioneirismo de Henrique Bernardelli na
valorização de uma figura-chave da arte colonial brasileira, Antonio Francisco
Lisbôa, dito o Aleijadinho. Já na virada do século XIX para o XX, quando era
professor de pintura na Escola Nacional de Belas Artes, Bernardelli teria
comentado o artigo de José F. Brêtas sobre o célebre escultor e arquiteto de
Vila Rica e pintado uma composição em sua homenagem, antecipando em décadas o
entusiasmo dos partidários do estilo neo-colonial e dos modernistas paulistas,
que viam na obra do mestiço Aleijadinho os exemplos por excelência de uma arte tipicamente brasileira. Texto disponível no site: www.dezenovevinte.net/
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Trabalho de Celita Vaccani – 12-7-1957 referente aos cometários sôbre o
Aleijadinho, escritos por Henrique Bernardelli. Notas dos comentários de
Henrique Bernardelli sobre um artigo “O Aleijadinho”, de autoria de Rodrigo
José Ferreira Brêtas, publicado em 1858, no Correio
Official de Minas (ns. 169 e 170), por Lourenço Xavier da Veiga, e
reproduzido na Revista do Archivo Publico
Mineiro - Vol. I - 1896 - pp.
Análise do Documento
No Museu Nacional de Belas Artes, encontramos, ao efetuarmos pesquisas sobre Henrique Bernardelli, nas comemorações do seu centenário, [página 171] um documento muito interessante e importante para o conhecimento de sua completa personalidade.
Êsse documento faz parte do fundo documental
pertencente aos irmãos Bernardelli e entregue ao Museu Nacional de Belas Artes,
pelo executor testamentário dos irmãos Bernardelli, de quem era amigo e
secretário, Sr. Ubirajara de Azeredo Coutinho, após o falecimento de Henrique
Bernardelli. Trata-se de 8 (oito) fôlhas do Volume I da Revista do Archivo Publico Mineiro, ocupando as páginas
As folhas estão amarelecidas pelo tempo, dobradas em 3 (três) com as
margens esgarçadas e com o papel inteiramente quebradiço. Não há dúvida que
Henrique Bernardelli lhe atribuía importância especial.
a) assinalou a propriedade, assinando a lápis vermelho Henrique Bernardelli, no canto superior esquerdo da pág. 161;
b) anotou cuidadosamente a lápis o artigo, assinalando os trechos mais interessantes e escrevendo comentários nas margens que são largas, tendo sido utilizadas para este fim, tanto do lado direito, quanto do lado esquerdo;
c) assinou a lápis novamente, na pág. 174, ao terminar as suas notas como desejando frisar especialmente a autoria das mesmas;
d) prendeu com um grampo de metal
as referidas folhas e as conservou por mais de 30 anos, pois guardou
cuidadosamente o documento, dobrado em 3, dentro de um envelope de formato
“ofício”, timbrado com
as Armas da
República, a declaração
S. P. e a
indicação “Da Escola Nacional de Belas Artes”, escrevendo sobre o mesmo:
“História do Aleijadinho”
“20 de julho
“Henrique Bernardelli”
Dentro do mesmo envelope, encontrava-se, também, já muito esmaecida pelo tempo, a cópia positiva de um desenho representando a cabeça de um personagem do século XVIII, tendo a indicação hológrafa de Henrique Bernardelli, escrita a lápis na parte interior: “Mestre Aleijadinlo” e no verso, outra indicação hológrafa de Henrique Bernardelli “Aleijadinho” [Figura1].
No verso do envelope existe parte do rascunho hológrafo a lápis de um documento pertencente ao Arquivo do Museu Nacional de Belas Artes e pelo qual Henrique Bernardelli se dirige ao Ministro Washington Pires.
Comentários de Henrique Bernardelli
Alinhamos a seguir, em colunas
paralelas, a esquerda o que existe impresso no documento - e à direita os
comentários escritos por Henrique Bernardelli.
[página 172] Observações
Desejaríamos tecer ligeiros comentários sobre esse documento anotado por Henrique Bernardelli:
a) Nota-se preliminarmente o interesse com que Henrique Bernardelli viveu o artigo, associando-se às opiniões nele expressas, corrigindo-as, ironizando, discordando, mas sempre demonstrando o profundo interesse que a figura do Aleijadinho lhe despertava;
b) A preocupação de exaltar o artista, que na época em que escreveu, não encontrava ainda em nosso meio cultural, a repercussão que merecia (p. 166 - linhas 30 e 38; p. 171 - linhas 11 e 12, e 20);
c) A resposta cabal às críticas formuladas no artigo, dando com sua grande experiência, de pintor e esteta, as razões das falhas apontadas (vide comentários na p. 166, linhas 40 e 41; p. 167 linhas 5 e 6, 12 e 25);
d) A confirmação de sua estada
A este respeito procuramos indiretamente datar essa estada. Sabemos que o artigo do Arquivo Público Mineiro, foi publicado em 1896; é óbvio, portanto, que o comentário não pode ser anterior a essa data.
Por outro lado, o quadro intitulado “O Aleijadinho em Villa-Rica” [Figura 2], cujo paradeiro se ignora e que é o quadro ao qual se refere no seu comentário de p. 171 linhas 11 e 12, foi reproduzido e apreciado por Arthur Azevedo, no artigo “Um Artista Mineiro”, na revista Kosmos, Rio de Janeiro, ano I, no 2, Fevereiro de 1904. Esta data, portanto, marca o limite máximo da questão.
A estada de Henrique Bernardelli
Existe confirmação documental da determinação desses dois términos cronológicos. Trata-se de uma aquarela, estudo para o quadro “O Aleijadinho em Villa-Rica” de minha propriedade [Figura 3], e de um quadro a óleo pertencente a D. Regina Monteiro Real [Figura 4]. Ambos contêm a declaração "Ouro Preto", estando o segundo datado de 1898.
A aquarela foi pintada no interior da Igreja de S. Francisco, daquela cidade, e o óleo é um quadro de paisagem representando os fundos da residência ouropretana da Rua do Rosário, de propriedade de Antonio Gomes Monteiro, avô de D. Regina Monteiro Real.
Fica, assim, positivamente provado que, já em fins do século XIX, Henrique Bernardelli esteve
Não pode haver, portanto, a menor dúvida que Henrique Bernardelli pertence ao grupo dos precursores do movimento artístico de enaltecimento da obra do nosso genial escultor colonial. E, não há melhor prova desse seu sentimento do que as próprias palavras com que encerra os seus comentários sobre o Aleijadinho (p. 174, linhas 20 e 21): “O meu profundo respeito e admiração. Mando aos pósteros o meu tributo ao génio”.
(As.) Celita Vaccani — em
12-8-1957
