Trechos das Atas das sessões do Corpo Acadêmico da Academia Imperial de Belas Artes entre 1883 e 1885

organização de Ana Maria Tavares Cavalcanti

CAVALCANTI, Ana Maria Tavares. Trechos das Atas das sessões do Corpo Acadêmico da Academia Imperial de Belas Artes entre 1883 e 1885. 19&20, Rio de Janeiro, v. XI, n. 2, jul.-dez. 2016. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/documentos/Atas_de_1883_a_1885.htm>.

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Esta é uma transcrição de trechos das Atas das sessões do Corpo Acadêmico da Academia Imperial de Belas Artes entre 1883 e 1885. Foi feita a partir dos documentos originais do acervo do Museu D. João VI da Escola de Belas Artes da UFRJ. As reticências entre parênteses indicam trechos que não foram transcritos.  As observações entre colchetes são de autoria da pesquisadora. Alguns assuntos se destacam: (1) Ofício do Barão de Javary relatando sua visita ao ateliê de Rodolpho Bernardelli na Itália em 19 de dezembro de 1882; (2) § Parecer da Seção de Pintura sobre os envios do então pensionista Rodolpho Amoêdo; (3) Parecer da comissão incumbida de julgar as obras da Exposição Geral de 1884; (4) Lista de quadros a serem comprados (fevereiro de 1885); (5) D.Pedro II visita a Academia e “examina” os trabalhos que Rodolpho Bernardelli realizou na Europa; (6) A nomeação de Rodolpho Bernardelli como professor da Academia em 24 de outubro de 1885.

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Atas - Sessões da Presidência do Diretor - 1882 - 1890

Há de este livro servir para nele se lançarem as atas das sessões do Corpo Acadêmico [...] Academia das Belas Artes, 22 de Dezembro de 1882

(assinatura) A. N. Tolentino

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(p.1 - verso)

[...] Ata da Sessão em 15 de Fevereiro de 1883 [...] Consta o expediente de um aviso [...]; e outro de 30 de janeiro, remetendo cópia do seguinte ofício do Barão de Javary: = “Legação Imperial do Brasil na Itália - Roma, 19 de Dezembro de 1882. Illmo Exmo Snr. - Por convite do pensionista da Academia das Belas Artes Sr. Rodolpho Bernardelli, concorri ao seu atelier para ver a reprodução que ele concluiu e vai remeter para o Rio de Janeiro, da Vênus Calipígea do Museu de Nápoles [Imagem]. Quanto me é possível julgar, o jovem escultor brasileiro reproduziu com muito bom êxito essa magnífica estátua, tão admirável pela beleza estética das formas, como pela harmonia artística da roupagem. - Nesta minha visita ao atelier do (p.2) Sr. Bernardelli, também vi o modelo primitivo que ele fez em greda, para esculpir o grupo de mármore destinado à nossa Academia das Belas Artes: - Jesus Cristo amparando a mulher adúltera contra os que a queriam lapidar [Imagem]. Este assunto, apto sem dúvida a inspirar o artista, já por vezes tem sido magistralmente tratado em pintura, mas não me consta que o tenha sido pela escultura. - Incompetente como sou para formular  juízo sobre este trabalho artístico de grandiosas proporções, limitar-me-ei a dar conta da impressão que ele me produziu - a impressão que o belo absoluto sói produzir ainda nos menos iniciados nos segredos da arte. - O Sr. Bernardelli, a par do mérito especial da iniciativa da composição, soube comunicar a essa sua obra o belo absoluto de que falo, e que a todos impressiona. A cabeça de Cristo pareceu-me mui bem modelada. Na atitude da figura e na majestade do gesto ressumbra essa expressão de soberana preeminência, qual devera ser a do Divino Mestre ao fulminar a turba dos agressores com as famosas palavras, que são uma maravilhosa síntese e alta filosofia moral e de caridade evangélica. - Completa o grupo a bela figura da mulher adúltera, prostrada aos pés do Redentor, e, temerosa e pudibunda, acoitando o rosto por entre as largas pregas da túnica de Jesus Cristo; o que dá ao grupo um conjunto que impressiona a vista, e define bem a situação. - Não posso furtar-me ao desejo de referir a V. Excia [sic] o que então a um distinto escultor italiano que presente estava e que, depois de analisar esta produção do Sr. Bernardelli como eu não posso fazê-lo, disse-me que esse grupo fazia muita honra ao artista brasileiro e à sua pátria, e que era digno de figurar nas melhores Academias europeias. - Como se vê o estudioso pensionista da nossa Academia tem-se iniciado com proveito na fase de progresso em que a escultura atualmente se acha neste país; pois, como V. Excia sabe, os escultores italianos tem constantemente tido a primazia mas recentes Exposições artísticas. - Não encerrarei este ofício sem confirmar o que por vezes tenho dito relativamente ao Sr. Rodolpho Bernardelli, isto é, que por suas boas qualidades, e pelos hábitos modestos de sua vida toda consagrada ao trabalho, ele tem granjeado a estima dos seus colegas; (p.2 – verso) e que pelo seu excelente procedimento, bem como pelo constante esmero com que se aplica ao estudo da arte a que se dedicou e na qual já tem dado bastantes provas de aptidão, ele se torna digno de inspirar interesse ao Ilustre Instituto do qual é pensionista. - Deus guarde a V. ExciaIllmo Exmo Snr. Conselheiro Pedro Leão Velloso. - Ministro e Secretário de Estado dos negócios do Império – Barão de Javary.” - Fica a Congregação inteirada - Sobre os últimos trabalhos remetidos pelo pensionista Rodolpho Amoêdo, é lido o seguinte – Parecer da Seção de Pintura: - “Tendo a Seção de Pintura examinado os trabalhos do 3o ano do Pensionista do Estado Rodolpho Amoêdo, que se acha em Paris, constantes de 3 quadros, sendo: - Uma figura de mulher, tamanho natural, intitulada - Marabá  [Imagem] - Um tronco também de mulher e um meio-corpo de menina (costume de camponesa italiana) [Imagem], é de parecer: - Quanto à Marabá -, ser uma figura bem composta, largamente feita e de colorido agradável, mas, quanto ao desenho, deixa ainda alguma coisa a desejar; pois sendo esta qualidade estudada com cuidado desde a cabeça até a região peitoral, não acontece o mesmo desta região até às pernas , que é um tanto descurada. - No estudo do tronco de mulher (de costas) foi o Sr. Amoêdo mais feliz, tanto no desenho, como no modelado. - Quanto ao 3o e último - meio corpo de menina, (costume de camponesa italiana) - é este um estudo inteiramente diferente dos dois primeiros; enquanto que aqueles são largamente feitos, este é minucioso e escrupulosamente desenhado. Isto porém só prova que o pensionista, ou ainda não fixou uma maneira, ou é capaz de executar os seus trabalhos por mais de um modo. - Em conclusão; julgando-se estes trabalhos de confronto com os da anterior remessa, é incontestável que o Sr. Amoêdo vai satisfatoriamente progredindo nos seus estudos e por consequência, tornando-se cada vez mais digno de louvores, e da proteção da nossa Academia e do Governo Imperial. - Rio de Janeiro, 15 de Fevereiro de 1883. (assinado) J. Zeferino da Costa - José M. de Medeiros.”[...] Academia das Belas Artes, 15 de Fevereiro de 1883.

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(p.3) Ata da Sessão em 22 de Dezembro de 1883 [...] Consta o expediente dos seguintes avisos da Secretaria d’Estado dos Negócios do Império: [...] (p.3 - verso) [...]; de 15 de Dezembro: prorrogando por 18 meses o prazo do aprendizado do pensionista desta Academia Rodolpho Bernardelli, que se acha em Roma, afim de que possa concluir o trabalho que está executando, e visitar na Europa, os museus e galerias existentes nos países ricos de monumentos d’arte; [...].

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(p.4 - verso) [...] Ata da Sessão em 15 de Fevereiro de 1884. [...] Consta o expediente de dois avisos da Secretaria d’Estado dos Negócios do Império, a saber: de 5 de janeiro declarando que logo que sejam concluídas as obras a que se está procedendo no edifício desta Academia, pode efetuar-se uma exposição geral de Belas-Artes, contanto (p.5) que esta se realize sem prejuízo das aulas; e de 23 de janeiro comunicando haver-se providenciado afim de que pela Delegacia do Tesouro Nacional em Londres, seja posta à disposição do pensionista Rodolpho Bernardelli a quantia de seis mil francos, a fim de ocorrer as despesas com a execução de uma cópia em mármore da estátua da “Vênus de Medicis” [Imagem]. [...], é lida e aprovada, depois e discutida a seguinte “tabela das horas das aulas” [...]. “Desenho Figurado; - Paisagem, flores e animais; - Pintura histórica; - e Estatuária; todos os dias das 9 às 11 horas; - Arquitetura todos os dias da 11 horas às 1; Modelo vivo todos os dias da 1 às 3 horas; 4 Desenho Geométrico - às 2as , 4as e 6as feiras de meio-dia à 1 ½ hora; Matemáticas aplicadas nos mesmos dias da 1 ½ às 2 ½ horas; Anatomia e Fisiologia das paixões às 3as feiras e sábados do meio-dia à 1 hora; e História das Belas Artes, Estética e Arqueologia às 2as e 6as feiras às mesmas horas. O professor de Desenho figurado deverá comparecer na aula todos os dias, os de Pintura histórica, e Paisagem, flores e animais, obrigatoriamente, só às 2as , 4as e 6as feiras; e os de Estatuária, Desenho de Ornatos, e Arquitetura, pela mesma forma, só às 3as , 5as feiras e sábados.” [...] Academia das Belas Artes, 15 de Fevereiro de 1884.

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(p.7 - verso) - Ata da Sessão em 5 de Agosto de 1884 [...]. Consta o expediente de 9 avisos da Secretaria d’Estado dos Negócios do Império, a saber: [...] de 28 de junho comunicando haver-se mandado adiantar ao aluno desta Academia Rodolpho Amoêdo, na qualidade de pensionista do Estado, a quantia de 575$000$, correspondente à importância de um trimestre contado de 15 de Maio a 14 de Agosto do corrente ano, da pensão anual de 2:300$000; que percebia, devendo ser levado em conta este tempo na prorrogação por dois anos, se for concedida ao mesmo aluno, do prazo de seu aprendizado [...].

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(p.9 - verso) [...] Ata da sessão em 13 de Setembro de 1884. [...] É lido um requerimento do pensionista Rodolpho Amoêdo pedindo prorrogação do seu prazo por mais dois anos conforme o permitem as Instruções dos pensionistas: este requerimento foi acompanhado do esboceto do quadro de grande máquina que se propõe ele executar, (p.10) e representa = Jesus Cristo em Cafarnaum =, com este vieram mais três trabalhos que se acham expostos. Este requerimento é deferido depois de ouvido o “parecer” da Seção de Pintura. [...] “A Comissão encarregada de dar parecer sobre os trabalhos do pensionista Rodolpho Amoêdo, tendo examinado as quatro telas, que constituem a nova remessa, vê nesses estudos que representam: 1o - A partida de Jacob [Imagem]. 2o - Esboceto do seu quadro - Cristo em Cafarnaum. [Imagem]. 3o - Uma cópia - Esboceto de Tiepolo (existente no Louvre). 4o - grande estudo de mulher - figura nua vista de dorso [Imagem]. Que estes trabalhos revelam grande aproveitamento, deixando antever o resultado final de seus esforços, que por certo atingirão; libertando-se mais tarde, da situação transitória e dependente, que o estudo, a prática e os preceitos da Escola francesa contemporânea, tanto influem e o induzem a sentir desse modo. - O esboceto representando Jesus Cristo em Cafarnaum é uma boa composição que para executá-lo requer o dito pensionista - prorrogação por dois anos do prazo de sua pensão - na forma do art.o 9o das Instruções dos pensionistas. Esse quadro devendo ser bem executado e de modo que a figura do protagonista adquira mais importância nessa composição, constituirá certamente um dos trabalhos mais valiosos do jovem artista. Por isso parece à Comissão ser justo o pedido a que ele tem direito: - Academia Imperial das Belas Artes - 3 de Setembro de 1884”- Victor Meirelles - José Maria de Medeiros.” [...] Academia das Belas Artes, 13 de Setembro de 1884.

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(p. 10 - verso) Ata da Sessão em 6 de Novembro de 1884 [...] tendo o Sr. Dr. Américo, em sua volta da Europa, assumido no dia 20 de Setembro o exercício de sua cadeira, Sua Excia o designou para fazer parte da Comissão incumbida de julgar os trabalhos da atual Exposição geral, e propor as respectivas recompensas. [...]

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 (p.11) [...] Ata da Sessão em 17 de Dezembro de 1884 [...] convida a Comissão nomeada a apresentar o “parecer” sobre os trabalhos da Exposição, e correspondente proposta de prêmios. O secretário lê então o seguinte: - “A Comissão incumbida de julgar do merecimento das obras exibidas na Exposição Geral das Belas Artes, que se inaugurou no dia 23 de Agosto do corrente ano, (p.11 – verso) e propor os prêmios que devem ser conferidos a seus autores, tem a honra de submeter ao juízo da Congregação dos professores o seguinte = Parecer = A presente exposição geral é, sem nenhuma dúvida, a mais abundante, mais variada, e talvez mesmo mais importante de quantas se tem feito na Academia das Belas Artes. Setenta e cinco artistas concorreram a ela, expondo 399 trabalhos, dos quais, 368 constam do catálogo impresso, e 31 foram admitidos depois da publicação dele. Além destes 399 trabalhos próprios só da exposição anual, havia na galeria ocidental, também em exposição 98 produções da nossa Escola. [...]. Folga a Comissão em reconhecer que os expositores em geral são dignos de louvor; porque não é sem grande esforço, sem sacrifício de tempo e de dinheiro, sem abnegação mesmo, que se trabalha para uma Exposição de Belas Artes, a que infelizmente não corresponde o apreço do público. E com efeito, com mágoa aqui ficará consignado o fato incrível da mesquinha concorrência de visitantes à atual exposição; a qual durante cem dias, em uma cidade capital, ponto terminal de importante estrada de ferro, e porto de mar onde entram diariamente muitos navios 6 procedentes de todo o mundo, com uma população de mais de trezentos mil habitantes, apenas foi visitada por 20154 pessoas que pagaram entrada, não se exigindo por esta senão uma mais que módica retribuição, cujo produto, como era público e notório se destinava à aquisição das obras expostas, que fossem mais dignas desta distinção [...]. Este incentivo de animação, pois, esta recompensa ao merecimento dos trabalhos superiores foi negada pelo público aos artistas; porque só ao pagamento da entrada se pode atribuir uma tal deserção, considerando que a última exposição geral, em 1879, que não foi mais interessante que a atual, mas cuja entrada era de todo gratuita, foi concorrida em 62 dias que esteve aberta por 292.296 visitantes. [...] [nota de Ana Cavalcanti: a seguir são citados em ordem alfabética alguns expositores e faz-se a crítica dos quadros. Observo que a “paisagem” é reconhecida em pé de igualdade com a pintura de história. São citados: Garcia y Vasquez; (p.12-verso) “O Snr. Domingos Garcia y Vasquez expôs cinco paisagens bem desenhadas e pintadas com talento e observação conscienciosa do natural [...] = Restinga em Niterói =, e a segunda = Pesca = tem merecimento superior às outras três: é seu autor um aluno da Academia, que deve continuar a cultivar a pintura de paisagem, para a qual tem reconhecida aptidão, aprendendo a escolher o melhor na observação do natural, e estudando a composição, que é a parte mais difícil da arte, e que lhe dá toda a superioridade, pois que do contrário, ela ficaria suplantada pela fotografia. [...]”; França Junior: (p.13) “O Snr. Dr. França Junior é um ilustre amador que estreou na atual Exposição com seis pequenos estudos do natural, que revelam em seu autor felizes disposições para a pintura de paisagem; talento cuja cultura não deve desprezar.” [Também se elogia a pintura histórica:] (p.13) Aurélio Figueiredo – “a sua obra porém mais importante é a = Francisca de Rimini =, quadro histórico de figura de grandeza natural, marcado no catálogo com o no. 122. Nesta composição revela-se o Sr. Aurélio de Figueiredo artista capaz de produzir obras valiosas na dificuldade da pintura histórica.” = “A composição deste quadro está bem ordenada, o colorido vigoroso e cheio de harmonia, e os acessórios sofrivelmente estudados: seu autor merece certamente encômios pela coragem de haver empreendido tão colossal trabalho, num país onde quase tudo falta ao artista = bons modelos, atelier, conselhos de mestres, e principalmente = o apreço e a animação do público. =” [...] “Apresenta-se agora o Sr. Henrique Bernardelli, aluno da Academia, estudando atualmente em Roma, sem auxílio (p.13-verso) algum da parte de seu país, e que pelos trabalhos expostos se torna digno de especial menção, e credor da produção da 7 Academia das Belas Artes, e do Governo Imperial. A sua aquarela no 174 = Depois do sahimento = é um quadro cheio de sentimento, bem composto, e corretamente desenhado. As duas = Vistas de Roma = recebidas muito tempo depois da abertura da Exposição, são duas paisagens bem desenhadas, pintadas sem hesitação, com mão firme, toque franco, e gracioso, pincel fácil, e colorido verdadeiro e cheio de harmonia. A obra, porém, mais importante deste jovem artista é a grande cópia à encáustica moderna da = Missa de Bolsena = de Raphael d’Urbino; importante e valiosa não só pelas suas dimensões, e correspondente labor e despesas; mas também pela fidelidade com que traduz aquele afamado = a fresco = do príncipe dos pintores.” [Ainda sobre paisagem:] “O Sr. Hippolyto Boaventura Caron é um distinto aluno da Academia que expôs quatro paisagens, merecendo especial menção as de n. 176 e 177; e ao qual se aplica inteiramente o juízo emitido sobre o seu colega Domingos Garcia y Vasquez. Os Srs. João Baptista Castagnetto, e João Baptista Pagani são dois filhos da Academia que honram a escola em que estudaram. O primeiro expôs quatro marinhas, gênero para que mostra pronunciada vocação, e que não deve deixar de cultivar; [...]. O Sr. Jorge Grimm expôs quatro vistas tomadas do natural, em que se nota como qualidade principal – grande correção de desenho, e facilidade de execução, a de n. 194, intitulada = Vista do Cavalão – que àquelas qualidades reúne a de um colorido mais harmonioso, tem superior merecimento.” “Do Sr. José Ferraz d’Almeida Junior, ex-aluno da Academia, se admiram quatro quadros históricos; em todos os quais se revela o talento com que nasceu aquele jovem artista, e a aplicação com que estudou, não só na nossa (p.14) Academia durante o tempo de pensionista da Província de S. Paulo, que lhe deu o berço; mas também durante aquele em que, a expensas do Imperial Bolsinho, esteve em Paris sob as lições do professor Alexandre Cabanel. Os quatro quadros expostos pertencem todos à Academia, tendo sido o n. 126 = Fugida da Sacra Família para o Egito = magnanimamente oferecido por Sua Majestade o Imperador, a quem o artista o dedicara, e os outros três comprados pelo governo Imperial [...]. Destes 4 quadros, o primeiro já citado, que pertence à escola idealista, e o de n. 197, denominado = Descanso da modelo = , que se aproxima da moderna escola francesa, tem superior merecimento, e colocam seu autor no número dos nossos melhores pintores. – Sem que seja movida pela natural simpatia entre colegas que se estimam, não pode a Comissão deixar de assinalar o quadro do Sr. professor José Maria de Medeiros, intitulado = Iracema = , como um dos melhores da atual exposição, não tanto pela protagonista do 8 drama, como principalmente pelo teatro em que se passa aquela cena que com tanto talento descreveu José de Alencar. É uma paisagem pintada por mão de mestre: desenho correto, colorido brilhante e harmonioso, perfeita observação dos efeitos de perspectiva aérea dão a essa paisagem, verdadeiramente tropical, um céu luminoso e profundo, uma vegetação luxuriosa e cheia de vida, e águas da mais límpida transparência, especialmente naquela onda que arrebenta no primeiro plano do quadro. [...] (p.14- verso) [...]. Não tendo a comissão de consignar neste julgamento, as produções enviadas da Europa (p.15) pelos pensionistas da Academia, deixa de falar nos quinze trabalhos do Snr. Rodolpho Amoêdo. [...] O Sr. Pedro Weingartner, pensionista de Sua Majestade o Imperador, em Roma, que expôs alguns estudos, nos quais se nota talento e aplicação. [...] Passando à Escultura sente a comissão ter de consignar a escassez de trabalhos neste ramo das belas-artes, que entretanto nada teria que invejar à pintura, se neste julgamento pudessem ser compreendidos os trabalhos enviados de Roma pelo talentoso pensionista Rodolpho Bernardelli. [...] (p.16) Terminando esta resumida análise da Exposição geral das belas-artes de 1884, a Comissão propõe: = 1o – Que sejam levados à presença do Governo Imperial, como merecedores de recompensas superiores pelas suas produções da atual Exposição os nomes dos Srs. José Maria de Medeiros, José Ferraz d’Almeida Junior, Pedro José Pinto Peres, Augusto Rodrigues Duarte, Antonio Firmino Monteiro, Francisco Aurélio de Figueiredo e Mello, Leopoldo Heck e Marco Ferrez; = 2o = Que sejam premiados com as medalhas seguintes: Primeira de ouro = os Snrs. Thomas Driendl, João Baptista Castagnetto, D. Abigail d’Andrade, e Jorge Grimm” = Segunda de ouro = Os Snrs. Henrique Bernardelli, Oscar Pereira da Silva, Hippolyto Boaventura Caron, Domingos Garcia e Vasquez, Estevão Roberto da Silva, Antonio Alves do Valle Souza Pinto, Francisco da Cruz Antunes, Modesto Ribeiro e Carneiro Tavares = Medalha de prata = os Srs. Belmiro Barbosa de Almeida Junior, (p.16-verso) João Pagani, ... = 3o – Que sejam concedidas menções honrosas aos Snrs. Dr. França Junior, [etc.]”. Academia das Belas Artes, 13 de Dezembro de 1884. (assinados) – João Maximiniano Mafra - Victor Meirelles de Lima - Pedro Américo de Figueiredo.” – “Vencido quanto aos prêmios – F. J. Bethencourt da Silva.” O Sr. Conselheiro Dr. Vice-Diretor manda então ler o seguinte ofício do Sr. professor Bethencourt da Silva: - “Rio de Janeiro 17 de Dezembro de 1884.” Il.mo Exmo Snr. = Assinei vencido a proposta para prêmios aos artistas que concorreram à última Exposição Geral de Belas Artes, e o fiz embora a meu pesar, convencido de injusta condescendência e bonomia com que foram julgados algumas obras e os seus autores. – 9 Na arte, sempre me pareceu que é cousa de somenos importância e valor, a cópia de uma estampa gravada ou litografada, e que ainda menos valor tinha a ampliação de uma fotografia muitas vezes realizada pela máquina solar. – A originalidade, a composição são quase tudo; e esse poderoso contingente da arte é a melhor revelação do gênio e da instrução do artista. – A Congregação ilustrada como é, me dispensará comentários talvez mal cabidos, direi, mesmo inúteis, e por isso desprezando o que ora faço por desencargo de consciência, substituirá os erros de minha ignorância pelo acerto de suas resoluções. – Julgando com benevolência no intuito de animar, de dar valor à classe artística, parecia-me, peço desculpa aos mestres, que já era muito benigno e complacente a concessão de prêmios que indico e que teria a honra de apresentar à competência da Ilustrada Comissão se motivos superiores me não tivessem impedido de o fazer. Deus guarde a V. Excia. Il.mo Exmo. Snr. Diretor da Academia das Belas Artes (assinado) “O professor Francisco Joaquim Bethencourt da Silva. “Exposição Geral de Belas Artes – Distinção a José Maria de Medeiros, Ferraz d’Almeida Jr., Pedro José Pinto Peres, Augusto Duarte e Thomas Driendl: - 1a medalha de ouro a Jorge Grimm, Henrique Bernardelli, Aurélio de Figueiredo, (p.17) Firmino Monteiro e J. B. Castagnetto - “2a medalha de ouro a Da Abigail d’Andrade, Garcia y Vasquez, Caron, Oscar Pereira da Silva, Estevão, Generoso Frate e Alexandre Siglieri” – “Medalha de prata a Valle, Belmiro, Antunes, Pagani, Petit, Hilarião e Dotte – Menção honrosa a Dr. França, Pereira de Carvalho, Novak e Sá [..., etc.] = F. J. Bethencourt da Silva.” Postos em discussão o “parecer” da Comissão, e o voto divergente do membro dela o Sr. Professor Bethencourt da Silva, falam discutindo os Srs. Conso Vice-Diretor, Conso Dr. Luiz Carlos, Conso Dr. Domingos, Dr. Américo, Victor Meirelles, e o Secretário. Encerrada a discussão é o “parecer” unanimemente aprovado; votando-se sobre o voto divergente do Sr. Bethencourt, a proposta substitutiva de prêmios por ele enviada, é ela unanimemente rejeitada. O Secretário [...] apresenta à Congregação o resultado do pagamento das entradas na Exposição geral, e da venda dos catálogos, e bem assim as despesas feitas por ordem do Snr. Conso Diretor, ficando um saldo de cinco contos duzentos e oitenta e nove mil duzentos e oitenta e oito reis (5:289$288r) [...]. (p.17- verso) [...] Tratando-se da escolha dos trabalhos de que se deve fazer a aquisição pelo seu merecimento, ou como incentivo de animação, e reconhecendo-se a dificuldade de resolver com justiça à vista da exiguidade da soma arrecadada (5:289$288r) delibera a Congregação que se escolham os trabalhos que devem ser comprados sem ter-se em conta a soma disponível, e que seja essa escolha levada ao conhecimento do Governo 10 para que resolva como for justo. [...]. É lido então o requerimento do Snr. Cândido Caetano d’Almeida Reis pedindo para ser nomeado, sem concurso, professor d’Estatuária, e resolve unanimemente a Congregação dos professores: primo = que se informe ao Governo que o peticionário não está no caso de ser nomeado [...] sem exibir novas provas satisfatórias da sua aptidão; pois que os prêmios que obteve não provam mérito absoluto; mas sim relativo, e que o principal e mais importante desses prêmios, que o foi o de “pensionista” longe de o recomendar, tornou-se em seu descrédito, por ter-lhe sido cassado pelo Governo Imperial por aviso de 29 de Agosto de 1868, em conseqüência de sua falta de aplicação aos estudos, do pouco caso que fazia dos trabalhos que enviava à Academia, e do nenhum mérito deles; = secundo = que seja nomeado professor d’Estatuária o pensionista Rodolpho Bernardelli; fazendo o Snr. Conselheiro Diretor, em nome da Congregação, a respectiva proposta, a qual plenamente justificam os valiosos estudos que tem mandado de Roma, e as informações sempre muito lisonjeiras que por diversas vezes tem a Academia recebido sobre ele quer de seu mestre o talentoso professor Giulio Achilles Monteverde, que é um dos primeiros estatuários italianos, quer da Legação Imperial. [...].

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(p.19-verso) Ata da Sessão em 7 de Fevereiro de 1885 [compra de quadros] [...] O Snr. Diretor expõe que [...] para haver uma base para discussão, nomeou uma Comissão composta dos professores Victor, Dr. Américo, e Mafra, afim de que ela indicasse quais os quadros que deveriam comprar; mas que informado que a Comissão não podia chegar a acordo, ele Diretor convidava cada um [Diretor é Tolentino] dos membros dela a dar “parecer” separado, [...]: é lido, primeiro, o “parecer” do professor Mafra, o qual conclui dizendo que, não se podendo comprar com a quantia de (p.20) oito contos duzentos e oitenta e nove mil duzentos e oitenta e oito reis (8:289$288 r) os quadros mais dignos pelo seu merecimento, incluindo os dos Srs. professores Victor Meirelles e Américo, é de parecer que, ou se represente ao Governo neste sentido, ou resolva a Congregação que não sejam compreendidos na escolha os trabalhos daqueles Srs. professores; o Sr. Dr. Américo diz que não lavrou “parecer” porque entende que com a pequena quantia concedida pelo Governo, não se pode fazer uma escolha justa [...]; é lido então o “parecer” do Sr. professor Victor, o qual, depois de indicar os motivos da divergência entre os membros da Comissão, conclui oferecendo a seguinte “Relação dos quadros que podem ser comprados pela quantia de 8:289$288r = Artistas Assunto Avaliação 11 Abigail Cesto de compras 300$000 Bandeira Paisagem 150$000 Bernardelli Vista de Roma 300$000 Caron Praia da Boa Viagem 250$000 Castagnetto Porto do Rio de Janeiro 470$000 Driendl Cena da Baviera 700$000 Duarte Atala 1:000$000 Estevão R. da Silva Quadro de frutas ou pequena paisagem 160$000 Fachinetti Lagoa Rodrigo de Freitas 500$000 Frati “Do Céu à terra” – Pintura a fumaça 189$288 Grimm Vista do Cavalão 500$000 Hilarião Enxoval de boneca 160$000 Medeiros Iracema 2:000$000 Monteiro Pedreira 300$000 Pagani Parasita 160$000 Peres Fugida para o Egito 900$000 Vasquez Pesca 250$000 Total: 8:289$288 Depois de longa discussão [...] declararam os Snrs. Professores Victor, e Dr. Américo que, para superar a perplexidade em que se vê embaraçada a Congregação, não sejam considerados na ordenada aquisição os trabalhos que haviam eles exposto. Recebida esta declaração é aprovada sem mais discussão, a relação de (p.20-verso) quadros que, com seu parecer, apresentara o Sr. Victor. [...] Academia das Belas Artes, 7 de Fevereiro de 1885.

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 (p.23) Ata da Sessão em 18 de julho de 1885 [...] Consta o expediente dos seguintes avisos da Secretaria de Estado dos negócios do Império, a saber: [...]; de 17 de junho, concedendo ao pensionista Rodolpho Amoêdo a quantia de 6523$000,50, como auxílio para ocorrer às despesas extraordinárias com (p.23-verso) a execução do quadro representando “Jesus Cristo em Cafarnaum”; [...]; e de 23 de junho determinando que o Sr. Conso Diretor ouvindo a Congregação ou uma Comissão especial de professores indique o = quantum = do prêmio pecuniário a que tem direito o pensionista Rodolpho Bernardelli pelo seu grupo em mármore representando “Jesus Cristo e a mulher adúltera” [...]. (p.24) [...]. Em cumprimento do aviso da Secretaria d’Estado dos Negócios do Império de 23 de junho passado, há pouco lido, consulta o Sr. Conso Diretor a Congregação sobre o “quantum” do prêmio pecuniário a que tem direito o pensionista Rodolpho (p.24-verso) Bernardelli; e resolve ela por unanimidade de votos, e sob proposta dos Snrs. Conselheiro Dr. Vice-Diretor, e Dr. Motta Maia, que se indique ao Governo a quantia 12 de dous contos de réis (2:000$000). Sobre a compra da cópia da “Missa de Bolsena” feita em Roma pelo aluno Henrique Bernardelli, cuja resolução a respeito de preço ficara adiada na sessão passada, resolve a Congregação por unanimidade de votos, sob proposta do Sr. Conso Dr. Vice-Diretor que, se merecer a aprovação do Governo se pague a quantia de dous contos de réis (2:000$000); sendo um conto cento e sessenta mil réis (1:600$000) com a sobra do produto das entradas na Exposição Geral, e oitocentos e quarenta mil réis pelo Tesouro Nacional. [...]. Academia das Belas-Artes 18 de julho de 1885.

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(p.25) Ata da Sessão de 13 de Outubro de 1885 [Presidência de Tolentino] [Achando-se reunidos os Conselheiro, à uma hora] o Snr. Conso Diretor abre a sessão. Anunciando-se a chegada de Sua Majestade o Imperador à Academia, suspendese a sessão, e a Congregação desce a receber o mesmo Augusto Senhor, o qual se dirige à sala onde se acham os últimos trabalhos em mármore do ex-pensionista Rodolpho Bernardelli; que são a cópia da “Vênus de Medicis”, e o grupo “Jesus Cristo e a adúltera”, e depois de as examinar detidamente conversando com o mesmo Sr. Bernardelli, retira-se, prometendo voltar à Academia. A Congregação torna à sala superior [...].

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(p.26-verso) Ata da Sessão em 24 de Outubro de 1885 [Presidência – Sr. Conselheiro Diretor (Tolentino), Professores presentes – Maia, Pedro Américo, Victor Meirelles, José Maria de Medeiros.] [...] O Snr. Conselheiro Diretor diz que a presente sessão tem por único fim dar posse ao ex-pensionista Rodolpho Bernardelli da Cadeira de Estatuária de que foi nomeado professor por Decreto de 17 do corrente, [...] [é introduzido na sala o novo professor]. (p.27) [...] O Snr. Conselheiro Diretor manifesta ao novo professor o sincero e cordial júbilo de que se acha possuída toda a Congregação recebendo em seu seio o dileto aluno que sempre honrou a Academia não só pela sua excelente e exemplar conduta, mas também pelos seus constantes progressos no estudo da difícil arte estatuária a que atingiu um talento notável [...]; termina dando-lhe um abraço fraternal em que é acompanhado por todos os professores presentes. Então o Sr. Conselheiro Diretor declara encerrada a sessão e desce com todos os Snrs. Professores à sala onde se acham expostos os trabalhos do Sr. Bernardelli; e aí apresenta aos alunos o jovem professor, que é recebido em estrondosa ovação, com música, flores e palmas por todos os alunos da Academia e do Conservatório de Música; e obtida permissão do Snr. 13