Theodoro Braga: Nacionalização da arte brasileira

transcrição de Natália Scheiner

BRAGA, Theodoro. Nacionalização da arte brasileira. 19&20, Rio de Janeiro, v. V, n. 1, jan. 2010. Originalmente publicado em Ilustração Brasileira, Rio de Janeiro, ano X, set. 1922, n.p. [Texto com grafia atualizada]. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artigos_imprensa/ilustacao_brasileira/ib_1922_09_tb.htm>. [Fac-simile PDF 0,7 MB link]

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Passou a rajada sanguinolenta que retrogradou a Europa civilizada, envolvendo o mundo inteiro no luto e na dor. Passou. Voltamos a paz novamente como vitoriosos, daquela dolorosa luta. Cumpre agora que vitórias, muito mais importantes e vitais para nós, não sejam permitidas a estranhos, dentro do nosso país. Entre os inúmeros campos de ação, ainda pouco cuidado entre nós é para o qual deveremos, a todo transe, aproveitar esse abençoado delírio patriótico que tão rapidamente nos sacudiu e despertou, existe um onde com os magníficos colaboradores, que possuímos, poderíamos obter incessantes vitórias pacificas e nobilíssimas - na ARTE BRASILEIRA.

Para nacionalizá-la, como se faz mister quanto antes, preciso é, primeiramente, educar e instruir o nosso operariado, desde o início de seu aprendizado. Nenhum outro país possui, como o nosso, dois grandes e poderosos elementos com os quais poderemos alcançar a vitória almejada: a inteligência dúctil do operário brasileiro e a riqueza inaudita e inesgotável dos motivos sobre os quais deve ser expandida essa inteligência.

Para a consecução desse ambicionado desideratum - produzir arte nacional por artistas nacionais - basta que se orientem os institutos profissionais, de que o país está cheio, no rumo único e por cujo motivo foram eles criados. Devem eles, antes de tudo, ser encarados e regulamentados como uma escola superior de ensino artístico - técnico.

Para esse alto fim, de fácil resultado, mas de enérgico e incessante trabalho ascensional, diário e intenso, é preciso pôr-se de parte a anemia moral que infelizmente cerca a vontade de quem trabalha, vencendo-a mesmo, às vezes. A vida atual pertence aos fortes de espírito. O indeciso quer pela ignorância, quer pelo ativismo, tem de ser, forçosamente, posto à margem, afim de não demorar a marcha dos que querem vencer. A escola profissional não é nem um manicômio, nem uma correção. Para educar o espírito no exercício nobre de uma profissão liberal faz-se mister abstrair de todo o pieguismo e do afilhadismo. O Estado deve procurar, escrupulizando, entre os que querem, aqueles que são fortes de corpo e instruídos de espírito. A primeira condição para poder matricular-se na plêiade desses novos operários que formarão amanhã a independência das nossas obras artístico-profissionais é ter o diploma de estudos primários, em seguida, ter a idade de 11 anos, gozando boa saúde. Nestas condições as despesas feitas pelo Estado será fatalmente e largamente recompensada pelo resultado obtido, formando um operário digno desse nome.

E justificam-se estas condições básicas e indispensáveis. Com efeitos, uma escola profissional não é um jardim de infância em que se aceitem crianças analfabetas e tenras; perde-se não só o tempo em ensinar o que eles deviam saber ao entrar, como lhes faltam força, vigor e iniciativa para ajudar ao mestre no momento da aprendizagem do ofício escolhido. Como ensinar-se o ofício de tipógrafo a educandos analfabetos?

O Instituto Profissional é um curso superior de artes aplicadas. Para que essas condições básicas sejam inatacáveis faz-se necessária muita energia, afim de impedir, categoricamente, que a clássica compaixão entibie o ânimo de quem o dirige.

Já é tempo de cuidar do operário nacional; educá-lo afim de sua obra e que esta represente alguma coisa de sua pátria; que ele execute o que o seu espírito inventou e que a habilidade de suas mãos responda a delicadeza desse espírito criador. O Instituto será uma escola de vida intensa de luta, de trabalho e de preocupação espiritual, única forja onde se temperam a alma, o cérebro e o corpo.

Em cada oficina deverá haver uma escola de desenho especializado para cada ofício, impondo-se portanto como base fundamental das mesmas oficinas o desenho aplicado. Nessa idade (11 anos) é guiado pelo mestre técnico, não com essa maneira fria, e quase inconsciente de quem é obrigado a cumprir um dever de funcionário vitalício, mas com o interesse de ver o seu pupilo produzir, o educando não tardará em querer trabalhar, querer fazer aquilo que o seu espírito viu e que embora titubeante, grafou no papel em suas proporções e detalhes. É preciso que dessa imensa e rumorosa colmeia saia cada operário, senhor de seu ofício, levando no seu cérebro um mundo infinito de coisas a produzir e umas mãos doces e ágeis a desenhar e a formar as mil coisas desse mundo espiritual. Viciados e escravizados pela sua própria ignorância, os operários, em sua maioria, anda produzem porque se lhes não ensinaram nem a LER e nem a pensar, dando assim o melhor lugar ao estrangeiro; daí a vida nula do grilheta acorrentado ao cérebro deste a que eles chamam: - CATALOGO, - por onde vivem a vida artificial da copia de modelos que reproduzem sem espírito, sem inteligência, e por isso mesmo, sem o mínimo valor de arte. E, entretanto, já era tempo de tê-la nossa, muito nossa, a arte brasileira, inspirada na nossa flora esplendidamente bela e luxuriante e na nossa fauna exótica e desconhecida, típica e extravagante, sem precisar ir buscar, no infinito campo das combinações geométricas, novidades inesgotáveis e originais.

O diretor de uma escola profissional tem que ser um técnico, um conhecedor de desenho que, estudando o caráter dos educandos possa guiá-los nas oficinas, explicando suas dúvidas. A ele compete ensinar, dirigindo os principiantes, aperfeiçoando os adiantados, não permitindo senão a originalidade de concepção nos esboços das obras a executar, apurando o gosto de cada um, aproveitando as idiossincrasias pessoais; só assim, expurgada a invasão do terrível mal que nos tem atrofiado o cérebro até agora - as cópias de ruins catálogos estrangeiros - só assim poderemos iniciar a procura o nosso estilo nacional que os nossos silvícolas descobriram e que nós civilizados desconhecemos. Compete ao diretor guiar os educandos na execução dos seus trabalhos, ao lado dos mestres, executar com eles, indicar como se deve VER uma obra acabada, senti-la e discuti-la em conjunto.

Não deixar essa idade de juventude se amolecer no ócio, sentada horas e horas, a cochichar, a dormir, a enganar, enquanto o precioso tempo das oficinas passa rápido e insubstituível. Quando conseguirmos fazer do próprio trabalho o recreio dos educandos, teremos então chegado ao começo do fim intelectual a que devem dedicar-se os institutos.

Outra magna questão, não menos capital e de difícil consecução, junta-se ao aprendizado - o comércio. A generalidade entende, erradissimamente, que o Instituto Profissional deve ser uma fonte de renda, julgando-se do seu merecimento, progresso e direção pela renda que dá, desviando-se assim do seu nobre destino, essencial e intelectual, acoroçando a sua lenta transformação num mero ajuntamento de oficiais diversas, visando somente o lucro; disso resulta que não será nem uma escola nem m estabelecimento comercial-industrial. Que se faça em cada ano, antes da época dos exames, executados em concurso ou premiados, uma exposição de todos esses trabalhos, produto intelectual dos novos operários, separando os melhores, que farão parte do museu escolar. O restante, então poderá ser posto à venda, cuja importância, retiradas as despesas, será oportunamente distribuída entre os alunos que os executarem. Nada pois de encomendas que mercantilizem o espírito, que o prende, embotando-o para as delicadezas e características da Arte.

Um ou dois anos antes de terminar o seu curso, o mestre do ensino técnico, que será o diretor, deverá ilustrar o espírito dos educandos, quase homens, com tudo que se relacione com a história da arte. Esta terá como corolário obrigatório a composição decorativa. Conhecer os estilos não basta para se ter um estilo. Para se chegar a este estado de perfeição, ao qual temos o direito e o dever de aspirar, faz-se preciso sacudir desde já o pó das épocas atrasadas, é necessário que cada um seja SI PRÓPRIO.

A grande Arte Nacional está entregue a Mocidade Brasileira, que tem sabido e saberá elevá-la ao apogeu da Verdade, do Sentimento e da Originalidade. Falta-nos, porém, a nossa Arte Aplicada; aos nossos operários compete nacionalizá-la.