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THEODORO BRAGA (Belém, PA,1872 - São Paulo, SP, 1953) Pintor, educador, historiador, geógrafo e advogado, Theodoro José da Silva Braga foi aluno da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) na década final do século XIX, tendo conquistado, em 1899, o Premio de Viagem ao Estrangeiro, oferecido pela instituição aos seus alunos regularmente inscritos. Passou a maior parte de sua estadia européia em Paris, onde foi aluno, na Academia Julian, de Jean-Paul Laurens, vinculação que se evidencia no perene interesse de Theodoro pela pintura de temas históricos e literários. Theodoro Braga foi personagem de grande importância no panorama artístico do Pará, como intelectual que se empenhou em atividades relacionadas com o ensino e a crítica de arte. Dedicou-se à pesquisa de temas da cultura regional, em particular da chamada arte marajoara, transpondo-os para a pintura, para as artes decorativas e para a arquitetura. Também teve uma destacada atuação em São Paulo, onde chegou a lecionar na Escola de Belas Artes local. * Veja mais sobre Theodoro Braga em DezenoveVinte Termos de julgamento das provas dos Concursos ao Prêmio de Viagem em pintura durante a 1a República, Seção Documentos. Victor Vianna: Escola de Bellas Artes - Os Premios de Viagem, seção Artigos na Imprensa. André Cozzi. “Fascinação de Iara” - o nacional e o feminino na pintura de Theodoro Braga, seção Obras. André Cozzi. “Fascinação de Iara” - o nacional e o feminino na pintura de Theodoro Braga (identidades culturais e misoginia no discurso intelectual da década de 1920), seção Dissertações e Teses. * Obras de Theodoro Braga nas Exposições Gerais de Belas Artes EXPOSIÇÃO GERAL DE 1905 - Seção Pintura EXPOSIÇÃO GERAL DE 1922 - Seção Pintura “Em 1659 consegue reduzir as tribos de Marajó. O feito é extraordinário e quase milagroso. O que não tinha alcançado a força das armas, obtém-no a doçura do evangelizador, a fama repercutida de suas virtudes, a sublime confiança com que vai meter-se entre os canibais, tal Anchieta entre os Tamoios. Era a conquista de suma importância para a colônia; por ela as portas do Amazonas ficam definitivamente cerradas ao holandês” (J. Lúcio de Azevedo. Os jesuítas no Grão-Pará) EXPOSIÇÃO GERAL DE 1927 - Seção Pintura A lenda: “Perto das cabeceiras do rio Nhamundá (município de Faro, estado do Pará), pátria misteriosa das amazonas ou icaniabas, nação de mulheres guerreiras existe um lago formosíssimo, a que davam o nome de jaci-uaruá, que quer dizer espelho da lua, a cuja divindade era consagrado, com um magnífico templo da própria natureza. Árvores gigantescas e de formas esquisitas sombreavam com as ramagens florescidas de várias cores as bordas daquela superfície azul e calma, como os pensamentos dos crentes que ali vinham. O anoel de areias brancas, que o circundavam totalmente, era o argênteo genuflexório das sedutoras penitentes. Dizem que, em certa época do ano, quando a lua cheia refletia-se com a sua primaveril magnificência sobre as águas tranqüilas do lago que, pela crença indígena, era a moradia da mãe da muiraquitã, sacerdotisa da deusa, as amazonas ou icaniabas, mulheres sem maridos, depois de longa peregrinação dos caminhos que para lá seguiam, vinham prostrar-se sobre o prateado areal, que marginava o lago, entre súplicas, lágrimas e hinos, e pediam a remissão de culpas, a que se tinham sujeitado pelo grito irrequieto da natureza ou pela dura necessidade de não deixar perecer a tribo pela esterilidade. Após muitos dias de vigílias, uma das crentes, confiada da sua regeneração, mergulhava, em horas mortas da noite, no fundo daquele abismo, onde recebia, das mãos da mãe da muira-k-itã, a pedra preciosa com a forma e desenho que desejava, e reverentemente trazia-a para a praia, onde suas companheiras, desgrenhadas e belas, a esperavam, de joelhos, entre hinos de louvor e votos de graças. Umas após outras repetiam a mesma devoção. Quando voltavam à taba, rara era aquela que, por mais impertinente, não levasse consigo a esverdeada jóia, destinada a servir de mimo aos cúmplices das futuras culpas e das próximas reparações poéticas. Eram assim, as muiraquitãs uma amorosa lembrança que as amazonas entregavam aos seus amantes, no tempo em que elas se entregavam aos ardores passionais. E a muiraquitã ficou, através do tempo e de espaço um fetiche de felicidade para quem a traz consigo” (Inácio Moura e Estefânio Silva. Vultos e descobrimentos). EXPOSIÇÃO GERAL DE 1928 - Seção Pintura O périplo maximo do bandeirante paulista Antônio Raposo Tavares (triptico) 1º) “...Esta terra é da Coroa de Portugal e do senhor conde de Monsanto”, afirmação categórica do Mestre de Campo Antônio Raposo Tavares, cabo de tropa da bandeira, em resposta aos padres jesuítas espanhóis do Paraguai que lhe verberavam assolar terras e povos sujeitos à Coroa de Castela. 2º) Tendo partido, em 1648, de São Paulo, chega, em princípios de 1651, Antônio Raposo Tavares, comandando sessenta homens da sua audaciosa bandeira, de que era Lugar-Tenente Antônio Pereira, à fortaleza de Gurupá, à margem direita do rio Amazonas, na Capitania-Mór do Grão-Pará, onde desembarcam e são recebidos com generosa hospitalidade pelo Sargento-Mor Antônio Lameira da França, Capitão da fortaleza e sua guarnição. 3º) A São Paulo tão desfigurado chegou a que a família e os amigos não o reconheceram. EXPOSIÇÃO GERAL DE BELAS ARTES DE 1929 - Seção Pintura “Deitada sobre a branca areia da fonte do igarapé, brincando com os matupiris que lhe passam sobre o corpo meio oculto pela corrente, que se dirige para o igapó, uma linda tapuia canta à sombra dos jauris, sacudindo os longos e negros cabelos, tão negros como os seus grandes olhos. As flores lilases do mururé formam uma grinalda sobre a sua fronte que faz sobressair o sorriso provocador que ondulam os lábios finos e rosados. Canta cantando o exílio, que os ecos repetem pela floresta, e que, quando chega a noite, ressoam nas águas do gigante dos rios. Cai a noite; as rosas, e os jasmins saem dos cornos dourados e se espalham pelo horizonte, e ela canta e canta e canta sempre; porém o moço tapuio que passa não se anima a procurar a fonte do igarapé. Ela canta e ele ouve, porém, comovido, foge repetindo: é bela, porém, é a morte..., é a Iara. Uma vez a piracema arrastou-o para longe; a noite o surpreendeu... o lago é grande, os igarapés se cruzam, ele os segue, ora manejando o apucuilau com a mão firme, ora impelindo a montaria, apoiando-se nos troncos das árvores; e assim atravessa a floresta, o igapó e o murizal. De repente um canto o surpreende, uma cabeça sai fora d'água, seu sorriso e sua beleza o ofuscam. Ele a contempla, deixa cair o iacumá e esquece assim também o tejupar; não presta atenção senão ao bater do seu coração e, engolfado em seus pensamentos, deixa a montaria ir de bubuia, não despertando senão quando sentiu sobre a fronte a brisa fresca do Amazonas. Despertou muito tarde; a tristeza apoderou-se da sua alegria; o tejupar faz seu martírio; a família é uma opressão; as águas, só; as águas o chamam, só a solidão dos igarapés o encanta. -Yara hu pycicau! - foi pegado pela Iara. Todos os dias, quando a aurora com suas vestes roçagantes percorre o nascente, saudada pelos yapis que cantam nas sumaumeiras, encontra sempre uma montaria com sua vela escura tinta de muruchi, que se dirige para o igarapé, conduzindo o pescador tapuio desejoso de ouvir o canto do arancuã. Para passar o tempo procura o boiadeiro de iurará, porém a sararaca lhe cai da mão e o muirapára se encosta. Às horas passam-se entregue aos seus pensares, enquanto a montaria vai de bubuia. O akaréquissaua está branco, porém o arancuã ainda não cantou. A tristeza desaparece a alegria volta porque o sol já se encobre atrás das embaubeiras da longínqua margem do Amazonas; é a hora da Iara. Vai remando docemente; a capiuára que sai da canarana o sobressalta; a jassanã que voa do periantã lhe dá esperanças, e o pirarucu que sobrenada o engana. De repente um canto o perturba; é a Iara que se queixa da frieza do tapuio. Deixa cair o remo; a Iara apareceu-lhe encantadora como nunca o esteve. O coração salta-lhe no peito, porém a recomendação de sua mãe veio-lhe à memória: ‘Tayra, não te deixes seduzir pela Iara, foges de seus braços, ela é munusaua.’ O arancuã não cantava mais e do fundo da floresta saía a risada estrídula do jurutaí. A noite cobre o espaço, e mais triste do que nunca volta o tapuio em luta com o coração e com os conselhos maternos. Assim passam-se os dias, já fugindo dos amigos e deixando a pesca em abandono. Uma vez viram descer uma montaria de bubuia pelo Amazonas, solitária, porque o pirassara tinha-se deixado seduzir pela Iara. Mais tarde apareceu num matupá um teonguéra tendo nos lábios sinais recentes dos beijos da Iara. Estavam dilacerados pelos dentes das piranhas” (José Coutinho de Oliveira. Lendas amazônicas, Pará). EXPOSIÇÃO GERAL DE 1930 - Seção Pintura Época seiscentista. O período irrequieto das formidáveis incursões pelo mundo sul americano atinge o seu auge. Os sertanistas da capitania de São Paulo, raça indomável e afoita, raça de mamelucos do cruzamento luso-ameríndio, não encontra barreiras a todas as suas audácias nas entradas pelos sertões. Ao período da escravatura sucede o do ouro e das esmeraldas. Bartolomeu Bueno da Silva, em 1682, já sonhando com a riqueza das pedras preciosas e do metal valioso, organiza uma bandeira, transpõe serras, vadeia rios e chega às margens do Vermelho, nas vizinhanças de um sítio que mais tarde se transformara em Vila-Boa e atualmente na cidade de Goiás. Ele vê, em torno, os índios goiazes trazendo enfeites de folhetas de ouro, magníficas e pesadas, o que nele suscitou a certeza da existência deste metal de superior quilate; a ambição do ouro domina em Bueno a ambição de escravos. “Forte, valente, com um olho furado (Contribuição para a história da Capitania de São Paulo, por Washington Luiz), a fisionomia terrível, conhecedor da língua e dos costumes bárbaros dos indígenas, ele domava por farsas aqueles que suas armas não venciam. Em uma feita, para subjugar os índios que resistiam tenazmente a seus ataques, gritou-lhe que os mataria a sede, se quisesse, pois tinha o poder de queimar as águas, acabando com os rios”. “Por mais que fossem interrogados os índios sobre a existência dessas jazidas (Diz J. M. Pereira de Alencastre nos seus Anais de Goiás, citado por A. de E. Taunay na História Geral das Bandeiras Paulistas), donde tão facilmente colhiam seus preciosos ornatos, nenhum esclarecimento obtinha. Todos os meios foram empregados para o descobrimento do reservado tesouro, mas embalde. Bueno, a quem não faltavam recursos nas ocasiões precisas, lembrou-se afinal de um expediente, que surtiu o desejado efeito. Um dia que viu reunido na margem de um córrego grande número de índios, aproximou-se deles trazendo em um vaso uma porção de aguardente. Interrogou-os de novo sobre as minas que procurava, e, como não obtivesse, ainda mais desta vez, resposta satisfatória, deitou fogo ao álcool, que imediatamente se inflamou. Ao espetáculo dessa porção de água em chamas os índios se mostraram temerosos; e quando Bueno, com aspecto carregado, lhes disse que lançaria fogo aos rios e às fontes se não descobrissem os depósitos auríferos, os goiás se prostraram aterrados na posição de suplicantes como se estivessem na presença do demônio das chamas”. E os goiazes apavorados gritaram: Anhaguera!... Anhanguera!... |