Arte e literatura na pintura do século XIX: Algumas considerações

Márcia Valéria Teixeira Rosa (*)

ROSA, Márcia Valéria Teixeira. “Arte e literatura na pintura do século XIX: algumas considerações”. In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume I, n. 2, agosto de 2006. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/19e20/

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O programa de disciplinas da Academia Imperial de Belas Artes propunha oferecer aos alunos uma formação artística com qualidade e exigência, afim de atingir um grau de excelência no sistema de arte brasileiro. Para tanto, devemos considerar as sucessivas reformas propostas por seus diretores e professores, visando uma melhor organização do quadro de atividades.

A partir desta necessidade, a pintura histórica estava orientada para a tendência nacionalista romântica, valorizando portanto, os temas de inspirações literárias. Assim, percebemos ser constante por exemplo a representação do indígena morto nas obras realizadas pelos artistas da AIBA.

Nesta comunicação para este XII Encontro da Pós Graduação, pretendemos abordar duas obras de artistas brasileiros que utilizaram o mesmo texto literário de Reneé Chateaubriand (1768-1848) para suas composições, embora tenham registrado diferentes cenas.

Trata-se da obra do pintor Rodolpho Amoêdo (1857-1941), “Morte de Atalá”, datada de 1883[1] e a do pintor Augusto Duarte (1848 -1888) em “Exéquias de Atala”, de 1878[2]. Na verdade, esta narrativa foi anteriormente registrada pelo pintor francês Anne-Louis Girodet Trioson (1767-1824) em sua obra “O Sepultamento de Atala”, de 1808[3].

O poema de  Chateaubriand publicado em 1801 foi considerado um marco na literatura romântica francesa.

O cenário da estória é ambientado no deserto da América do Sul. A narração é feita por Chactas, já idoso, a seu filho adotivo Renato, durante uma viagem em que o francês pede ao ancião que lhe conte sua estória. A protagonista, Atala, é filha do chefe de uma tribo, que apaixona-se pelo então prisioneiro Chactas e foge com ele. No deserto, eles encontram um missionário que os conduz até a gruta, cenário de todo o desfecho da tragédia. O casal o convence a casá-los. Mas, Atala recorda-se de que sua mãe lhe havia consagrado a Deus e acreditando que seu voto é irrevogável, decide envenenar-se.

Na versão de Rodolpho Amoêdo, “Morte de Atala”, a obra está afinada com os ideais românticos pela exaltação da morte como fuga da realidade, fruto do desejo de evasão levado ao extremo neste período.

Neste caso, a morte é exaltada como solução única e possível, pela incapacidade da personagem em cumprir a promessa materna e seguir seu destino santificado. Seu desespero chega ao limite de tirar a própria vida, impossibilitada de casar-se com o homem que ama, legitimando o tema romântico por excelência.

Amoêdo em sua interpretação representa Atala vivendo seus momentos derradeiros, lamentando sua sorte, fadada ao sacrifício. Após ter-se envenenado e não podendo reverter seu destino trágico, recebe a comunhão num último suspiro de vida que lhe resta.

Atala está estendida contrita e penitente. Um pesado manto acinzentado cobre seu corpo, que ocupa, em toda a extensão, o primeiro plano da composição. Sua pele muito alva contrasta com os longos cabelos ruivos e com o tom arroxeado em torno dos olhos, efeito implacável do veneno ingerido.

Considerando a disposição e a aparência da nativa, podemos fazer uma relação com a obra de John Everett Millais (1829-1896), intitulada “Ofélia[4]. Millais foi um dos fundadores da Confraria Pré-Rafaelita, em 1848, onde os artistas buscavam inspiração na pureza dos pintores primitivos italianos. Particularmente em “Ofélia”, o artista representa a imagem idealizada da mulher trágica, predominante na pintura romântica.

Por seu caráter mórbido, é inevitável a comparação com o drama de Atala ao observamos, igualmente, o mesmo estado de arrebatamento de Atala na cena da eucaristia, em que “a santa, em êxtase, tinha os olhos fitos no céu[5].

Também centralizada na composição, Ofélia flutua em um lago com a vegetação fechada emoldurando seu corpo. Alheia ao que a cerca, seu semblante melancólico não esboça qualquer reação. O artista procura imprimir uma visão imaterial da mulher, cuja textura do rosto, em tom marmóreo, assemelha-se às madonas renascentistas. Seu corpo e principalmente seu rosto emanam luz, conferindo-lhe intensa carga simbólica. Percebemos o tratamento de textura do rosto utilizada semelhantemente por Amoêdo, buscando representar com tamanha fidelidade o estado agonizante de  Atala.