. VANDIQUE, Brun. O Salão de Belas Artes. NOTAS COMPRIMIDAS II. O Globo, 14 ago. 1930, p. 2. - Egba

VANDIQUE, Brun. O Salão de Belas Artes. NOTAS COMPRIMIDAS II. O Globo, 14 ago. 1930, p. 2.

De Egba

Como os garotos do ano passado não puderam vender as laranjas do quadro, Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior] fez com que eles dessem cabo das frutas, este ano, noutro quadro. André Vento fez a cara do Corbiniano Villaça quando era mais moço, para bulir com o busto em gesso de João Scuoto, que fez o mesmo Corbiniano quando for meio velho. H. Peçanha fez o busto do Modestino depois de um desastre, cheio de pontos falsos, ligaduras e vários pneumáticos na garganta. A. Bracet, vendo que a moça devota do ano passado estava de pé, apresentou-a, este ano, de joelhos, que é menos cansativo. Balthazar da Camara dá-nos um pretendente implorando o prêmio gordo do governo de Pernambuco. Muito sugestivo o dominó branco de Carlos Oswaldo, cheio de confetti, também brancos. Sigaud vai progredindo nos pingos de tocha, Rocha Ferreira intitulou seu quadro Peru com farofa... mas, ao invés de farofa, pintou um garrafão. Bas Domenech teve o gosto de meter um barco à vela num molho de maionese. Manoel Faria exibe um Anhanguera no tempo em que bancava o guayamú, e na atitude de quem dá o sinal de capoeiragem: – “entra, Juca!”. - Mario Nunes, do Recife (não confundir com o homônimo do teatro da nova gente velha) apresenta dois jogos de puzles, do gênero de caixinhas de jogo de paciência, com quadradinhos de cores espantadas. Orozio Belem dá um nu malcriado, porque volta as costas ao público, e um Cristo entre anões, com o camisolão saído limpinho da lavanderia. Oswaldo Teixeira nos oferece três telas, uma paisagem de mostarda e pirão de abacate, uma dama branca espichada no escuro e uma dama preta (no vestido), penteando um galgo russo com uns dedos de sete léguas. Paula Fonseca foi feliz na alegoria da couve-flor entre montanhas. Antonio Parreiras ilustrou a óleo o célebre soneto de Nicoláu Tolentino: “vai, mísero cavalo lazarento...”. Gagarin soube ampliar a baía de Botafogo, no estilo de presepe azulado. O Raul perpetrou um cavalo com asas saltando por cima de bonecos do teatro João Minhoca. O auto-retrato do Amoedo é perfeito no estilo sépia lusco-fusco. Theodoro Braga exibe Anhanguera preparando o primeiro ponche oferecido aos tupiniquins [Imagem]. Achilles Araujo nos mostra “o passo do urubu malandro”, executado por um guayamú de coco pelado. Cozzo figura com uma cabeça de Vento, isto é, com o busto do pintor André Vento, quando era mais gordo. Zacco Paraná tem três gessos, a cabeça, um estudo para estátua [Imagem] e a estátua do Dr. Francisco Sá, em tamanho sobrenatural, com cara de poucos amigos.

Amanhã, tem mais.

Brun Vandique


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

VANDIQUE, Brun. O Salão de Belas Artes. NOTAS COMPRIMIDAS II. O Globo, 14 ago. 1930, p. 2.

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