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VANDIQUE, Brun. O Salão de Belas Artes. NOTAS COMPRIMIDAS I. O Globo, 13 ago. 1930, p. 2.

De Egba

Este ano, temos dois salões. Um nos fundos do Palace Hotel e outro no salão do Palácio das Belas Artes. Íamos ver o primeiro, que é da Sociedade dos Artistas Brasileiros, mas deixamos para depois, porque, no momento, ia fazer ali uma conferência um cavalheiro russo... A outra inaugurou-se com a presença das altas personagens da governança, das artes, das letras e das ciências. Houve café com biscoitos, música, discurso e uma conferência trepativa [sic] do Agripino Grieco, que fez muita gente rir amarelo. O salão está bonito, bem disposto, melhorzinho do que o anterior. Muita coisa podia ser cortada, mas o júri não pode cortar os trabalhos hors concours... O salão encheu-se à cunha, o que é natural, por ser a entrada grátis. Nos outros dias, de entrada paga, fica minguante de concorrência. Há zum-zum em torno do prêmio de viagem e lufa-lufa em torno das aquisições oficiais. Cada candidato se apadrinha como pode... A corrida é grande. A comissão organizadora está de parabéns pela organização das galerias e pelo programa traçado. Há muita coisa que ver e comentar, em notas comprimidas. A arte moderna, a tal de afogadilho, estilo vai-ou-racha ou pedregulho facetado, só dá duas amostras no salão: um pedaço de batente de portão de chácara antiga, com uma cara dura em cima, que o Quirino [Quirino da Silva] diz ser o João Caetano, e um pedacinho de louca amarrotada, miniatura, que Modestino Kanto afirma ser o Vasques ator, quando era mais alto e mais corpanzudo. Marques Junior expõe dois nus, um de costas e outro de papo para o ar, verde no fundo, com clara d'ovo batido em vários pontos do corpo. Seelinger Fleury apresenta uns manipanços africanos, que a polícia deixou escapar de algum candomblé. É curioso o quadro de Pedro Bruno, onde uma família, à falta de pão para tanta gente, bota um menino em cima da mesa de jantar [Imagem]. Muito bem apanhada a contorcionista que o Fiuza Guimarães tomou do natural no circo de Catumby [Imagem]. A agricultura agradece os cachos de uva do tamanho de um bonde com reboque, que Orlando Teruz colocou entre bonecos de porcelana. Foram muito gabados os cartões postais de Levino Fanzeres e o filhote da célebre Juruna na beira da praia. Ainda de Pedro Bruno há o frade que, cansado de pregar aos peixes no ano passado, conta histórias aos tico-ticos neste ano, para variar. Luiz Kattenbach meteu Cristo verde de pau-peroba no meio de gente de pau de gameleira, tendo ao fundo uma fila de gente bocejando. Mazzuchelli expõe um gesso contorcionado, onde uma mulher comprime com toda gana um pobre cabrito, para asfixiá-lo.

Amanhã, tem mais.

Brun Vandique.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

VANDIQUE, Brun. O Salão de Belas Artes. NOTAS COMPRIMIDAS I. O Globo, 13 ago. 1930, p. 2.

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