. V. V. O SALÃO. O Paiz, Rio de Janeiro, 9 set. 1905, p.2. - Egba

V. V. O SALÃO. O Paiz, Rio de Janeiro, 9 set. 1905, p.2.

De Egba

A atual exposição de belas artes - Os projetos de Rodolpho Bernardelli - O novo palácio na Avenida - O que será - A exposição de 1906 - Extensão de suas atribuições.

A exposição geral de belas artes é, atualmente, um dos sítios de reunião da sociedade elegante do Rio de Janeiro. O vernissage foi este ano extraordinariamente concorrido. E no dia da inauguração uma multidão fina e variada encheu as galerias da Escola Nacional de Belas Artes. Leadings, beauties, altas notabilidades da política, artistas, amadores, entes de letras e finanças, diplomatas cruzavam pelo salão, analisavam os quadros, cumprimentavam-se, iniciavam e prosseguiam […]

Mas o sucesso não se limitou ao dia da inauguração. Todas as tardes o salão se enche. Le tout Rio continua a admirar os quadros, com interjeições maliciosas e finas, onde os vocábulos dernier baleau [sic] abundam. E a arte do vestuário vai ali se exibir, com todo o encanto sugestivo de sua empolgante atração, ao lado das maravilhas executadas pelos nossos artistas.

Ontem, subia eu, calmamente, as escadas da Escola Nacional de Belas Artes, quando encontrei Coelho Netto que as descia apressado.

- Vá ver, disse-me o grande escritor. Só perdi duas exposições. Pois afianço que das muitas que vi esta é a melhor!

Subi. Nas galerias, a multidão smart se agitava,as joias, as [...] e os olhares reluziam. Na biblioteca, Rodolpho Bernardelli, o eminente estatuário, diretor da escola e o leading worker de todo aquele triunfo de arte nacional, o Dr. Diogo Chalréo, digno secretário, cuja atividade esclarecida e eficaz muito contribuiu para o êxito dos nossos salões; outros artistas e funcionários palestravam.

- Estamos fazendo as nossas despedidas, disse-me um dos presentes. É a última vez que organizamos exposição junto ao Tesouro. Para o ano estaremos na Avenida.

* * *

O salão de 1905 é magnífico. É menos abundante do que os anteriores, mas pelos talentos que nele se revelam, merece atenção especial. É, além disso, seleto.

E nas seções de gravuras e artes industriais apresenta originalidade esplêndida.

Muitos dos nossos grandes artistas não enviaram, entretanto, trabalhos. A abstenção de Rodolpho Bernardelli, que sempre animava com seu aparecimento seus discípulos, é lamentável. Rodolpho Amoedo também não compareceu ao salão presente.

Mas o aspecto geral da exposição é animador. Na seção de pintura há principalmente, a afirmação de novos talentos. Rodolpho Chambelland fez progressos, excelentes. Na exposição anterior, na Noite de espetáculo, foi um estudo consciencioso, audaz, de grande efeito. Nos Bacantes em festa suas aptidões se desenvolveram e […] É um quadro magnífico. Bevilacqua, discípulo de Henrique Bernardelli, expõe uma composição feliz, Salomé. Latour, que está na Europa em virtude de prêmio que obteve em salão anterior, estudou e trabalhou muito no velho mundo. Aparece agora mais seguro da técnica. O seu grande quadro, Praga Social, é intenso, tem qualidades apreciáveis. Roberto Mendes enviou uma paisagem cheia de poesia, suavidade e encanto [Imagem]. É talvez o trabalho mais sugestivo do salão. Roberto Mendes é um pintor intelectual; lido e prático na moderna escola inglesa, admirador de Raskin [sic] e seu ledor fervente, ele procura na paisagem a sensação esquisita, o efeito sentimental que o mestre requeria e julgou o mais difícil e belo escopo do pintor. Malagutte [sic] tem uma tela belíssima; J. Thimotheo da Costa estreia com um excelente retrato do poeta J. Abreu Albano e Carlos Chambelland e A. Thimoteo da Costa revelam também habilidade prometedora.

* * *

Os grandes nomes célebres confirmam sua fama. Os retratos de Henrique Bernardelli são maravilhosos; o de Machado de Assis, principalmente, pela riqueza da fatura, vigor da expressão e beleza dos detalhes, merece contemplação especial dos visitadores do salão.

Visconte [sic] tem um retrato esplêndido da escultora D. Nicolina Vaz de Assis [Imagem], retrato que é, talvez, um dos melhores trabalhos expostos. De João Baptista da Costa e Luiz de Freitas há paisagens deliciosas; Modesto Brocos, Macedo e Séve [?] concorrem também com brilho ao nosso anual certame artístico.

* * *

Na seção de artes aplicadas, os trabalhos da Associação dos Escultores em Madeira são bem belos, são excelentes fragmentos de obras decorativas. Os móveis fabricados no Liceu de Artes e Ofícios de S. Paulo demonstram o valor do seu ensino prático. É um verdadeiro Liceu de Artes e Ofícios.

A pintura de porcelana de Joanna Brandt é excelente. D. Joanna Brandt é uma senhora dinamarquesa, trabalhadora, sã, cheia de talento e atividade; quer introduzir no Brasil essa bela arte que vai seduzindo as new women de seu país.

* * *

O salão para o ano será na Avenida, acrescentou o funcionário referido. Se o governo e as agitações não mandarem o contrário, o novo edifício da escola estará em setembro de 1906 em condições de abrigar a 13ª exposição geral de belas artes.

Sabe-se que Rodolpho Bernardelli é ativo e transformador no seu aparente ceticismo. Aquele artista de gênio, em se tratando de empreendimentos de arte, é um homem de ação. Foi o criador das exposições periódicas, trabalha para a sua manutenção e conseguiu o novo edifício da escola e vai para o ano desenvolver e melhorar o aspecto dos nossos salões.

Para o ano teremos um salão variegado, completamente diferente. Os projetos de Rodolpho Bernardelli são a este respeito grandiosos. O palácio a construir-se terá amplas acomodações. As galerias da escola ficarão livres durante as exposições anuais que se irão abrigar em salas especiais. O salão de 1906 será curioso, variado, multiforme. Além dos artistas nacionais, pintores, escultores, gravadores e arquitetos, artistas industriais de toda a América latina concorrerão. A exposição se tornará assim latino americana, senão internacional. Divulgará os nossos artistas e estenderá nossa influência, contribuindo para a fraternidade sul-americana.

A seção de artes aplicadas será ampliada. O ilustre diretor da escola se esforçará para obter o concurso de todos os artistas e diretores de indústrias artísticas do Brasil e América. Mobiliário, decoração, talha, cerâmica, artes suntuárias, joalheria, indumentária e artes acessoriais, tudo aparecerá e terá lugar distinto.

E para que o público elegante possa apreciar essas belas e inúmeras coisas sem cansaço, o palácio da escola ficará em festas durante todo o tempo da exposição. Os concertos se sucederão. Haverá five o'clock em petites tables, five o'clock artísticas que marcarão, sem dúvida, época na história da nossa vida elegante! Os visitantes encontrarão, ao demais, refrescos, sorvetes, doces... O álcool será abolido. Nos palcos ajardinados do novo palácio se ostentará, com todo o brilho, a maior exposição de flores da América do Sul.

E, ao demais, os próprios visitantes organizarão, involuntariamente, outras exposições de igual encanto. Haverá estonteante exposição de toilettes lindas e novas e da sempre maldita e sempre triunfante arte da coqueterie [sic], que é, sem dúvida, a mais empolgante de todas!

- V. V.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

V. V. O SALÃO. O Paiz, Rio de Janeiro, 9 set. 1905, p.2.

Ferramentas pessoais
sites relacionados