. UM SÉCULO DE EXPOSIÇÕES DE ARTE NO BRASIL. O SALÃO BRASILEIRO DE 1929. O Paiz, Rio de Janeiro, 11 ago. 1929, p. 5. - Egba

UM SÉCULO DE EXPOSIÇÕES DE ARTE NO BRASIL. O SALÃO BRASILEIRO DE 1929. O Paiz, Rio de Janeiro, 11 ago. 1929, p. 5.

De Egba

Edição feita às 23h13min de 20 de Outubro de 2010 por Egba (Discussão | contribs)

O “VERNISSAGE” DE HOJE

Visconti - Da Veiga Guinhard [sic] - A. Vianna - Jordão - O. Tarquinio - Camila Azevedo - Achiles Araujo

Com a limitação dos envios e mais cuidado na aceitação, o júri do Salão de 1929 conseguiu obter melhor equilíbrio, e oferecer ao público seleção mais preciosa.

Tem-se impressão de que o certame evoluiu, e que as artes plásticas alcançaram um grau mais de homogeneidade.

Numa visita rápida que fiz, anotei algumas afirmações pessoais que dão ao Salão deste ano um caráter vivo, como se novos temperamentos se manifestassem para a definição de personalidades autônomas.

O Sr. da Veiga Guinhard foi revelação completa. Embora já o conhecesse do envio a Rosario, fiquei seduzido pela sensibilidade do seu desenho, sua fina percepção do colorido. O nu recortado na maneira dos primitivos italianos, e ao mesmo tempo com a agilidade continua da linha japonesa, um pouco chato, com sentimento decorativo sugere a luz espiritual de Florença.

O retrato do mesmo autor, e que O PAIZ reproduz, é feito com espírito, sentindo-se como o pintor se compraz em dar predomínio ao desenho na cor, numa recordação de Ghirlandajo.

De sua viagem à Europa, o Sr. Armando Vianna trouxe apreciável aumento de capacidade técnica. Um sentimento mais agudo do ambiente. O nu é saboroso, todo feito com pastas finas, transparentes, que se acamam com evidente compreensão do volume a plenitude. Do busto aos tornozelos a mulher se envolve numa semi-sombra luminosa, tênue por onde erram vibrações coloridas quase imperceptíveis. E todo esse ambiente é vaporoso e quente, por que as sombras ligeiras dominam. A cabeça vem um pouco à frente, foi acaba de mais [sic]: talvez os cabelos, e mesmo o modelado do rosto estejam fora dos valores. Vê-se que não está no plano que lhe cabia e que se deu importância como se fosse retrato. E foi pena porque a afinação é voluptuosa, em um modelado subtil, destacando-se num fundo gris claro, tudo dentro de um arranjo muito livre, que ainda mais assinala o sentimento da matéria.

Além desse quadro, o Sr. Vianna apresenta também uma composição, de paisagem com figuras. A luz que banha as formas foi bem compreendida. No original (pois que a fotografia que aqui se reproduz trocou os efeitos) a mulher de pé está iluminada pela luz e pela sombra: e dentro desses mundos coloridos ela fica irradiante. A figura de costas apresenta o modelado mais definitivo, com certo vigor. Apenas notarei que o pintor não conseguiu dar unidade ao grupo: as duas figuras da esquerda fazem um quadro, mas a de pé, como que se isola e não consegue ser a dominante regencial do conjunto.

Armando Vianna se apresenta como um pintor sério, cuja sinceridade promete alguma coisa mais à arte brasileira.

No desejo de assinalar, de começo, as novidades devo também mencionar Jordão de Oliveira que fez notável progresso, com a sua paisagem. O jovem artista conseguiu depurar-se, afinar as cores: a atmosfera daquele ar livre conventual foi vista por uma neblina que progride com avidez. Que deliciosa emoção não se expande em tudo! Quer dizer primeiro o plano tão largo com sombra geométrica, e um pouco fora da nota geral que ainda mais de desconcerta com as duas freiras que ficaram paradas?

Por que os verdes das frondes altas foram postos tão crus?

No retrato, verifiquei que Jordão foi vencido: a figura está bamba, sem construção, e não se sabe porque foi ali colocada. Mas o cão está envolvido, sedoso, embora tudo isto não forme composição.

Três notas ainda, com três vírgula na leitura geral do salão: O. Tarquinio - flagrante de massas, luz justa no primeiro e segundo planos, mas seu vertical, duro empedernido; Camila Azevedo - paginação original, certa frescura no modelado que ainda está incerto; Achiles Araujo - paisagem com volumes francos, ritmos, mas atmosfera seca, um pouco no gênero de Carrá, ou de Hugo Adami.

Propositadamente deixei para o fim desta primeira notícia, os dois êxitos do Salão deste ano: Visconti e Cavalleiro. Só falarei do primeiro, hoje.

Aquele mestre da pintura brasileira apresenta três trabalhos, como um tríptico de três técnicas.

No retrato de mulher, um óleo diluído, tratado com frescura, limpidez, espontaneidade de aquarelas, há uma verdadeira evolução de fatura. Com pastas leves, pousadas amorosamente, Visconti realizou um poema de cor. A mão esquerda é um tema magnífico. Todo o retrato respira juventude de inspiração; harmonias que se pontuam melhor nas maçãs do rosto, na ferrure, na gravata mole, quase liquida, tal a sensibilidade com que foi indicada. É uma página de alta significação estética, onde as superfícies coloridas se sucedem como um mar.

Nas duas figuras, o pintor se prende ao pontilhismo, e realiza aquele ambiente vivo que caracteriza os seus últimos trabalhos. Já no retrato (M. C.) apreciei menos a secura do ar, o equilíbrio instável da figura, numa posição que o conjunto não explica bem. Embora haja caráter e construção, julgo secundário aquele retrato na obra de Visconti, o fundo não entrou em correspondência com o retrato.

Como o “Salão” que hoje realiza o “vernissage” vai ficar aberto por 30 dias, ainda terei boas oportunidades para falar ao leitor sobre os seus feitos deste ano centenário.


Imagens

E. VISCONTI - RETRATO

DA VEIGA GUINHARD - SONHOS DE OLHOS ABERTOS

JORDÃO - HORA DE LUZ

GEORGINA DE ALBUQUERQUE - ROMANCE

QUIRINO [Quirino da Silva] - BACH (escultura)

A. VIANNA - PAISAGEM COM FIGURAS


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

UM SÉCULO DE EXPOSIÇÕES DE ARTE NO BRASIL. O SALÃO BRASILEIRO DE 1929. O Paiz, Rio de Janeiro, 11 ago. 1929, p. 5.

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