. UMA QUESTÃO ARTÍSTICA - Como se desfaz uma injusta acusação de “plágio” - A defesa do pintor Sr. Fiuza Guimarães. A Noite, Rio de Janeiro, 12 set. 1913, p.1. - Egba

UMA QUESTÃO ARTÍSTICA - Como se desfaz uma injusta acusação de “plágio” - A defesa do pintor Sr. Fiuza Guimarães. A Noite, Rio de Janeiro, 12 set. 1913, p.1.

De Egba

Do pintor Sr. Fiuza Guimarães, um dos expositores do nosso atual “Salon”, onde se apresentou com um belo trabalho inspirado num soneto de Oscar Lopes - A Guerra, recebemos a seguinte carta com as fotografias elucidativas e que abaixo publicamos.

“Sr. Redator d’A Noite, - Há quatro dias apareceu na seção Notas de arte, do Jornal do Commercio [link], uma apreciação aos trabalhos expostos no “Salon”, onde se dizia que o meu quadro A Guerra, sugerido [...] belo soneto de Oscar Lopes, era uma quase cópia, ou uma cópia do quadro do grande mestre alemão Stuck, também intitulado A Guerra.

Demorei a aparecer em público para desfazer a aleivosia, porque resolvi deixar o pulso livre ao júri do “Salon” que, no Regulamento das Exposições, tem um artigo que lhe dá plenos poderes para proceder rigorosamente contra os plagiários.

O júri, ao ver a infundada acusação de que fui vítima, não agiu, porque nada tinha que fazer. Fiquei eu em campo e por isso aproveito o momento para lhe enviar as fotografias do meu quadro [Imagem] e do quadro de Stuck [Imagem], e explicar-lhe também a diferença que há entre a minha pobre pintura e o “chef d’oeuvre” que é a admirável composição de Stuck.

No belo trabalho do grande mestre alemão sente-se o triunfo da vitória representada por uma figura simbólica, que é o herói: - seja ele Atila ou Napoleão.

Sobre o seu ombro direito a espada, gotejando ainda o sangue dos vencidos. Monta um cavalo de perfil e de cabeça baixa, pisando com orgulho os mortos.

No meu quadro vê-se a sempre vencedora representada pela figura da morte, de frente para o espectador, cavalgando um animal fantástico e, portanto, desconhecido por mim e pelo autor dos versos.

E neste ponto a minha interpretação foi de uma grande felicidade, pois o próprio crítico do Jornal do Commercio lhe desconhece as formas e diz: “um animal que parece ser uma mescla de onagro com morcegos”: é essa a forma estranha e desconhecida descrita nos belos versos e foi exatamente isso o que procurei fazer.

No quadro de Stuck é o herói, vencedor de homens. No meu, é a morte, orgulhosa da farta messe de cadáveres e vencedora impiedosa e fatal da humanidade.

No meu há também uma figura de mulher que completa a composição.

Simboliza a metralha, arrastando e mutilando aqueles que opõem os seus feitos à sua fúria devastadora.

Como se vê, nada há de relação entre um e outro trabalho, a não ser a semelhança dos assuntos.

Mas há mais ainda. Como compus esse quadro?

Em conversa com Oscar Lopes, disse-lhe que escolhesse um trabalho seu que eu interpretaria e faria um quadro para o “Salon”. Oscar Lopes ofereceu-me o seu livro e escolheu o soneto “A Guerra”, como sendo o que lhe parecia mais próprio para uma composição. Eu aceitei essa indicação e botei mãos à obra.

Se o meu trabalho tivesse sido julgado com o respeito que os verdadeiros críticos de Arte têm pela sua missão, eu tenho a certeza de que não necessitava responder, pois não tenho a pretensão de me julgar perfeito, como também sou um dos que defendem a liberdade da crítica, principalmente quando ela é honesta e não visa interesses de espécie alguma.

Nada me desanima: continuarei a trabalhar com o mesmo entusiasmo, sinceridade e independência com que até hoje me tenho mantido. A você, etc. - Fiuza Guimarães.”


Imagens

“A guerra”, de Fiuza Guimarães e exposto no nosso “salon”

“A guerra”, quadro de Franz Stuck


Digitalização de Arthur Valle

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

UMA QUESTÃO ARTÍSTICA - Como se desfaz uma injusta acusação de “plágio” - A defesa do pintor Sr. Fiuza Guimarães. A Noite, Rio de Janeiro, 12 set. 1913, p.1.

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