. SILVA, Mario da. Belas Artes. O salão de 1924 - Notas e impressões - A arquitetura. O Jornal, Rio de Janeiro, 17 ago. 1924, p.3. - Egba

SILVA, Mario da. Belas Artes. O salão de 1924 - Notas e impressões - A arquitetura. O Jornal, Rio de Janeiro, 17 ago. 1924, p.3.

De Egba

A primeira impressão que pode ter quem, desapaixonadamente, percorrer as salas onde se acha instalada a atual Exposição Geral de Belas Artes, é francamente boa.

A comissão organizadora, rica das experiências de anos anteriores - em que à disposição e colocação das obras vinha geralmente sacrificada a quantidade destas - esmerou-se em fazer com que o número das obras fosse adequado à capacidade das salas. Não só. Também na disposição que deu a essas obras, criteriosamente buscou o melhor modo de pô-las todas em evidência, sem que umas fossem prejudicadas pela vizinhança de outras, favorecendo destarte tanto a comodidade do exame de cada uma delas, como a boa harmonia do conjunto. Não há, neste particular, regatear aplausos. Falhas poderá haver [sic] e convenhamos serem naturais em certames dessa ordem, mas a verdade é que predomina no ambiente daquelas salas uma nota de agradável distinção. A organização de uma exposição não é elemento desprezível no seu êxito. Daí a justiça desta referência, a razão de ser destes aplausos que terão o apoio de quantos desejem ver cuidados todos os fatores que possam dar alento às artes entre nós.

Pelo que diz respeito ao valor intrínseco das produções apresentadas, também é promissora a impressão deixada pela atual exposição. Trabalhos, como é natural, os há melhores e os há piores, os há sinceramente bons e os há imperdoavelmente ruins. Mas, seja devido ao progresso realizado pelos nossos jovens artistas, seja pelo comparecimento de alguns dos consagrados e de um respeitável número de artistas estrangeiros, a impressão é que o nível artístico dessa trigésima primeira exposição geral e, fora de dúvida, sensivelmente mais elevado do que o das realizadas nos últimos anos.

Arquitetura

Já na seção de arquitetura constata-se com prazer o desenvolvimento que essa arte parecia ser destinada a representar, entre nós, o papel de gata borralheira entre as artes - vai tendo no sentido de se afirmar como valor artístico, entrando os fatores gosto e estilo a terem nela preponderância, ao passo que tudo (em primeiro lugar as construções existentes no Rio) levava a crer tivesse ela que permanecer somente como engenharia, ou como puro “confort” ou, na maioria dos casos, sem ser nem uma coisa nem outra.

Há na exposição, um razoável número de bons projetos. Cumpre-nos assinalar, ao lado do severo e sóbrio do sr. Corrêa Lima [Attilio Corrêa Lima] (n. 408), e dos dois do sr. Angelo Bruhns (“Solar brasileiro” e “Portão colonial”), nos quais porém as amplas curvas do nosso barroco jesuítico assumem algo de precioso e superficial, os vários apresentados pelos srs. Lucio Costa e Fernando Valentim. Nesses a preocupação estética predomina francamente aliada, é de supor, a exatidão cientifica de competência da engenharia.

Talvez um certo estetismo modernístico seja o senão que convenha apontar nas obras desses dois artistas. Desejaríamos vê-los mais classicizados, mais pausados, mais sólidos e rígidos na concepção, menos ricos, principalmente no trato do estilo colonial. Esse estilo, como todos os barrocos, contém implícito farto espírito decorativo. Vício este de origem, quando a severidade do renascimento foi pouco a pouco substituindo-se o exagero e o enfatismo exteriores e veio lentamente minguando o espírito harmonioso dos Brunelleschi ou dos Bramante, mais interior, mais profundo. Mas essa [...] do barroco, que se manifestava na amplidão decorativa das curvas e no [...] dos detalhes, adquiriu nuances diversas [...], adaptando-se ao caráter dos diversos ambientes. Entre nós, o espírito rude dos colonizadores deu-lhe certa força e simplicidades, o que não teve alhures. Contudo, portanto, [...] na tradição [...], não sujeita-o demais aos caprichos estéticos do modernismo; [...] conservar-lhe aquela rústica robustez que, mesma através as […] decorativas, constitui a essência da sua beleza.

Aliás, essa beleza compreendem perfeitamente os srs. Lucio Costa e Fernando Valentim, como bem demonstra o projeto 414. Onde nos parece pecarem eles por excesso é na sua decoração, a nosso ver demasiado rica: o que, entretanto, em nada pode diminuir o valor desses dois artistas, que como tais se revelam em todos os projeto apresentados. Não se limitam eles à construção pura e simples, mas seu gosto requintado estende-se aos interiores, aos móveis, à decoração mural, aos ferros batidos. Principalmente desse último e precioso elemento souberam aproveitar-se os autores - como é claro pelas fotografias que acompanham o projeto 415 - de maneira discreta e útil. Disseram-nos terem tido execução entre nós esses trabalhos em ferro batido, obedecendo a desenhos feitos pelos mesmos arquitetos. Belos e severos trabalhos, esses, e que só reafirmam os dotes dos dois artistas, também nos dão uma boa prova do que sejam capazes de fazer os nossos obreiros, quando encontrem quem saiba dirigi-los. Pena é que, na seção de artes aplicadas não nos seja dado encontrar trabalhos desse gênero. É essa uma indústria artística que mereceria ter mais desenvolvimento e mais representação nas exposições. As fotografias de que falamos acima deixaram-nos bem impressionados. Estamos certos de que se for cultivado com carinho esse ramo das artes aplicadas, talvez venha ele a ser, entre nós, auxiliar precioso à arquitetura e, em geral, ao bom gosto.

Notemos ainda, na mesma seção de arquitetura, um bom projeto de Igreja do sr. Victor Dubugras (409) e concluamos as nossas notas sobre esta seção com uma referência ligeira ao único expositor estrangeiro, o sr. Felix Tilk, cujo projeto (420) de uma capela para a ereção do “Cristo” do escultor Bernardelli [Rodolpho Bernardelli], nos deixa completamente indiferentes, tão incompreensível nos parece, artisticamente, aquele amontoado de coisas, que se torce e contorce em janelas e cúpulas e torres, em busca de uma espinha dorsal arquitetônica, e que parece escapar-se, inalcançada e inalcançável até ao céu...

Mario da SILVA


Imagem

O rio Tietê em Itu - Quadro do professor Baptista da Costa


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SILVA, Mario da. Belas Artes. O salão de 1924 - Notas e impressões - A arquitetura. O Jornal, Rio de Janeiro, 17 ago. 1924, p.3.

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