. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A gravura e a arte aplicada. O Jornal, Rio de Janeiro, 19 ago. 1924, p.3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A gravura e a arte aplicada. O Jornal, Rio de Janeiro, 19 ago. 1924, p.3.

De Egba

Continuando as nossas impressões sobre o salão oficial deste ano, trataremos hoje da gravura e da seção de arte aplicadas.

GRAVURA

O número dos artistas que expõe nesta seção é pequeno e esses mesmos não parecem querer na maior parte das vezes, elevar-se até às alturas da grande arte, mas limitam-se a ficar na honestidade técnica, quando não caem de todo na banalidade e no mau gosto.

Talvez quem consiga sair dessa pacata, mas, sob o ponto de vista artístico, indiferente honestidade, é o sr. Augusto Girardet. Os seus trabalhos, principalmente os da vitrine 384, revelam simplicidade de concepção, as suas figuras têm relevo e naturalidade e, sem cair em estilizações arrebatadas ou pueris mantêm uma linha de viril severidade que não pode deixar de agradar. Mas, ao mesmo tempo, pareceu-nos haver alguma frieza acadêmica na composição de certos grupos de figuras.

Uma regular cabeça do maestro Henrique Oswaldo apresenta o sr. Adalberto Mattos. O sr. Herminio José Pereira, feliz medalha 387, banalizou-se de todo no emblema do Asilo Bom Pastor. O “Cupido cativo” do sr. Manoel Ignacio da Silveira, não deixa de ter uma certa graça. O sr. Francisco Gomes Marinho, que nos dá um baixo relevo em gesso - “Salomé” fresco e harmonioso, não nos pareceu, entretanto, tão bem inspirado nas suas medalhas.

E, sem mais, pode-se passar a seção de

Arte aplicada

Campo vasto, esse, que poderia oferecer múltiplas possibilidades, desde o vaso em terracota aos cristais, aos lustres e aos móveis e que, no entanto, é exiguamente representado na exposição. Também neste ramo, com no da gravura, não se pode dizer que, ao diminuto da quantidade, corresponda, compensando, a excelência da qualidade. Infelizmente, assim não é. Alguma coisa de bom aí existe; mas, se isto levanta o nível da exposição nesse ramo da arte, em nada melhora, com seria de nosso desejo, o da arte nacional. Esta deve refugiar-se na seção de arquitetura e fazer-se representar pelas fotografias de que tivemos ocasião de falar quando externamos as nossas impressões sobre aquela seção da exposição. Convenhamos que é pouco. Será possível que ninguém, entre nós, cuide das indústrias artísticas? Em todo o caso, a constatação aí fica; sob o ponto de vista artístico, a arte brasileira só possui, na exposição, além das referidas fotografias, os quatro projetos de decoração para colgaduras de autoria do professor Theodoro Braga. Não que essas quatro peças sejam magníficas obras de arte; pelo contrário, a que se intitula “Fantasia Geométrica” é um tanto banal, mas no aproveitamento dos motivos da fauna e da flora brasileira não falta elegância discreta, principalmente no que se serve da garça.

O valor todo da seção está nos trabalhos enviados por artistas estrangeiros, notadamente os da sra. Joanna Pavlowna de Oven Grentner.

Essa artista é de nacionalidade russa e traduz nas suas obras o gosto pelas cores vivas que caracteriza muitos pintores do seu país, como sejam Baxt A. Golovin e N. Goncharowa. Além disso, nelas manifesta o que de irrequieto e vibrante há no espírito do seu povo e que não raras vezes nos aparece, a nós ocidentais e latinos, fruto de exaltação neurastênica ou delírio suicida.

Muitos nos agradam os seus couros, especialmente os de n. 460, 454, 458 e 461, menos violentos nas estilizações do que, por exemplo, os 459, 457 ou 455 e por isto, a nosso ver, mais de acordo com a tendência estética do espírito que busca em primeiro lugar a harmonia e a serenidade.

Os seus panos, por essa mesma razão, nos agradam menos; há neles exagerada e exterior violência de contrastes; melhores, porém, os 447 e 448. Belo, ainda, o grupo da cadeira e da cesta em estilo colonial; o sólido trabalho a pasta de couro n. 444.

Também a sra. Maria Hirsch da Silva Braga trabalha habilmente sobre couro, como é fácil verificar pelo seu grupo para gabinete de leitura. Entretanto, somos de opinião que um pouco mais de graça e leveza nas estilizações em nada prejudicaria a sua obra. O estilo dos móveis, porém, obedecem a sólido gosto.

Os vitrais do sr. Guilherme Schleinstein são dois trabalhos regulares, mas um tanto frouxos de colorido.

A caixinha em madeira do sr. Santos Balouta, é incontestavelmente fruto de muita paciência e muita habilidade. Mas valerá mesmo a pena aplicar-se toda essa paciência e essa habilidade em trabalhos como esse, em que é ínfima a praticidade e onde a estética não existe? Enfim, o sr. Balouta achou que vale e lá terá as suas ótimas razões. A sua obra, porém, artisticamente, não interessa. E passemos adiante. A seguir registraremos impressões sobre a escultura.

Mario da Silva


Imagem

Retrato do Maestro Henrique Oswald - Trabalho de Adalberto Mattos


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A gravura e a arte aplicada. O Jornal, Rio de Janeiro, 19 ago. 1924, p.3.

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