. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 ago. 1924, p.3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 ago. 1924, p.3.

De Egba

Prosseguindo nas impressões que vimos publicando sobre a atual Exposição Geral de Belas Artes, continuemos hoje, a passar em revista alguns pintores nacionais, cujas obras se impõem ao olhar imparcial do visitante.

O professor Baptista da Costa está representado no Salão, por cinco telas. Preferimo-lo, sinceramente, nas duas paisagens “Rio Tietê” e “Casinha rústica”, onde os conhecimentos técnicos do autor tem ocasião de se alargar em amplas e fortes luminosidades. As outras duas paisagens nos parecem menos felizes, posto que em ambas ainda perdure a sensibilidade desse artista, o qual, se às vezes aparece um pouco frio, possui a grande virtude de estudar carinhosamente o assunto que se apresenta à sua mente e não desprezá-lo em troca de artificiosos arroubos de duvidosa origem e de ainda mais duvidoso resultado artístico, como não raramente acontece a muitos dos nossos pintores. Bom ainda, como colorido, o seu “Figos”, onde, entretanto, desejaríamos mais consistência de claro-escuro e de volume.

Belo o “retrato da senhorita A. R.” (78), do Sr. João Fahrion. As fortes qualidades de desenhista e seguro manejador do pastel, que esse pintor possui ainda se revelam excelentes empregados em “Espanhola” (79), “Chapéu amarelo” (84) e no ótimo “Estudo de nu” (83). Porém já não podemos dizer o mesmo quando o sr. Fahrion, em “Mulatinha” (81) e no “Em trajes turcos” (80), emprega o óleo, trabalhando-o como se fora pastel. Aí os relevos tomam um certo ar de rebuscado, que não agrada, o colorido não tem vivacidade. E, como resultado final, as suas telas aparecem um pouco amareladas.

Um pintor que não poupou as próprias forças é o sr. Oswaldo Teixeira, o qual enviou ao salão nada menos de sete trabalhos, todas de grandes dimensões. O sr. Oswaldo Teixeira é inegavelmente um forte técnico. Não só revela também recomendáveis dotes artísticos, de sobriedade e serenidade a visão, quando trata o retrato ou a figura isolada. Vejam-se, por exemplo, o ótimo retrato do pintor Augusto Petit e o “Retrato de mme. A. R.”. Vejam-se ainda “Recordando” e a excelente jovial fisionomia de “Brindando”. Não nos entusiasma, entretanto o seu “Pescador”. Há nesse quadro, a nosso ver, um grande [...] de exibição técnica. O sr. Oswaldo Teixeira sólido desenhista e hábil aproveitador de claro-escuro e mesmo da luz (veja-se a parte [...] de “Brindando”), quis aqui realizasse um [...] da luz o equilíbrio [...] não lhe [...] de pintar ainda [...] que aqui [...] . Ao contrário, os termos estão [...] a fisionomia adaptou-se a [...] que mais [...] para fazer brilhantes efeitos de luz; o caráter, a expressão, a alma, a vida, elementos básicos sujeitaram-se a ser [...], servidoras da luz. [...]: um quadro tecnicamente bom (menos aquelas pernas) é uma [...] amostra das próprias qualidades. Mas a arte - ai de nós! - superficializou-se, suicidou-se. Ainda pior correm as coisas em “Boas notícias”, onde, tendo em mira uma grande composição, não sentida pela sensibilidade, mas procurada, querida pela vontade, não só o sr. Oswaldo Teixeira, não alcançou o seu “desideratum” da grande composição, mas perdeu até os seus dotes que poderiam tê-lo levado a fazer, se não uma composição, pelo menos uma série de boas figuras. E assim, aqui, nem arte nem técnica. Porque não ficar nos retratos? O sr. Oswaldo Teixeira considera-os, talvez, um gênero inferior? Mas se em arte não há gêneros! A arte, em pintura, só quer uma coisa: bons quadros. O resto, e os gêneros, são gavetas, muito cômodas, para classificar as obras, mas absolutamente não intervêm no juízo estético, quando esse juízo queira ser verdadeiramente estético e não empírico, abstrato ou confusionista.

Registramos, ainda, por hoje, dois painéis decorativos do sr. Helios Seelinger, dos quais preferimos “Lago dos amores”, sem contudo desprezar o efeito obtido com a água em “Luta dos ideais”. E ainda um painel decorativo [Imagem] do sr. Lucilio de Albuquerque, que nos deixa completamente frios. Preferimos - e muito mais - a sua “Iracema” (193).

Mario da SILVA.


Imagens

“Brindando” – Quadro de Oswaldo Teixeira

O jovem pintor Oswaldo Teixeira, prêmio de viagem do salão deste ano


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 ago. 1924, p.3.

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