. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A ESCULTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1924, p.3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A ESCULTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1924, p.3.

De Egba

A escultura está fraca, este ano, principalmente no que diz respeito aos artistas nacionais.

Os estrangeiros estão um pouco mais fortemente representados. Temos, entre eles, o sr. Acquaronne [Orestes Acquarone Filho], que, além de uma delicada “Loura” [sic] (322), expõe um gesso (324), ótimo na sua simplicidade e no seu harmonioso jogo de claros e escuros.

Outro artista estrangeiro, o sr. Alfred Joel, apresenta no salão um número de obras maior que o de todos os outros expositores e, ao mesmo tempo, os melhores trabalhos da seção. Arte sadia a desse artista, que não se perde em barroquismo exterior ou em “trompe-l’oeil” de duvidoso efeito, mas que se aprofunda no argumento que quer tratar e no-lo traz à luz de maneira sóbria e sincera. Exageros, imperfeições, estilizações artificiais ainda maculam a sua obra e lhe impedem o desabrochar total da personalidade: não podemos, por exemplo, deixar de censurar os ombros da figura de legionário, terceira estação da sua “Via Sacra” (331), ou todo o lado direito da Cruz e do Cristo da estação XII, imperfeita na perspectiva. Mas, outros trabalhos há que nos permitem apreciar os seus belos dotes. Entre eles citaremos como os de nossa preferência, o retrato de frei Pedro Sinzig (325), o “Menino e tartaruga” (334), “Antes do banho” (335) e o busto do menino George Hamera (333).

Passando ora aos artistas nacionais, forçoso é confessar que, em comparação com os anos anteriores e em face do que era lícito esperar-se, a escultura está com sua representação muito fraca no atual salão. Debalde se percorre de olho alerta a sala onde estão dispostos quase todos os trabalhos dessa seção; inutilmente se lançam olhares esperançosos pelas demais salas; a grande obra, grande mesmo relativamente ao nosso meio, lá não está.

Há, porém, trabalhos interessantes, sobre os quais é justo bordar alguns comentários.

Está entre eles o bronze “Après le peché”, de autoria do sr. Antonino Mattos. A composição apresenta-se suave e harmoniosa, as figuras estão solidamente trabalhadas. Mas, apesar disto, não consegue esse trabalho elevar-se ao nível da grande arte, e isto por um vício de concepção. Ao representar os sentimentos que, depois do pecado, deveriam ter as duas figuras desse bronze, houve por bem o autor servir-se de elementos um tanto exteriores e pouco expressivos, de maneira que esses sentimentos, se até certo ponto estão caracterizados, não o são, como a grande arte exige, de maneira totalmente segura. Esses sentimentos não foram de todo intuídos e daí não terem sido expressos de forma completa. Que foram caracterizados até certo ponto, é simples constatar. Evidentemente, nem o homem, nem a mulher estão alegres e contentes com o que fizeram. Pelo contrário, o sentimento que manifestam é um sentimento doloroso. Mas qual? Será pudor, cansaço, arrependimento ou repugnância moral? Isto não está claramente definido. “Id est”, não foi claramente pensado, não está intuído. Porque a verdade é que, quando o velho Horácio, na sua arte poética, dizia: “Bene provisam rem, verba non invita sequuntur” [sic], descobria uma das leis fundamentais do conceito da arte, qual o concebe a estética moderna. No caso da escultura, quem, “non invita”, deveriam [sic] seguir logo, são as linhas, massas, claros-escuros e os demais elementos dessa arte. Ora, no bronze do sr. Antonino Mattos, o homem, com a mão direita, cobre o próprio rosto, e a mulher o esconde, de todo, debaixo dos cabelos atrás dos braços.

É exatamente essa falta das fisionomias que nos denota o vício da concepção. O autor concebeu o seu trabalho assim como o executou, encarregando a composição e os gestos das figuras de representar tudo aquilo de sentimento que ele havia intuído. Mas esses gestos e essa composição, como dissemos, não especificam, não individualizam de maneira inconfundível esse sentimento. E isto significa que não o individualizou perfeitamente o autor, por não se ter nele aprofundado.

Aliás, esse defeito de pouco aprofundar o assunto, o temos patente em outro trabalho do mesmo autor: “Eu sou o espírito que nega”. Aí há evidentemente símbolo: mas qual é ele? Não o sabemos. Sabemos, sim, que aí há uma boa cabeça e umas ótimas mãos. Além disso, ao invés do símbolo, é clara a influência de certas correntes modernistas as quais, querendo sintetizar demais, acabam eliminando os elementos da síntese de maneira tal que a síntese no final é síntese não suscetível de análise, síntese de elementos não existentes nela, síntese por modo de dizer.

Convém aqui, talvez, intercalar o preceito de Taine de que a arte é uma longa fadiga. Não é somente uma longa fadiga; mas o é também. É longa fadiga introspectiva, meditação, estudo perseverante de si mesmos, ou de si mesmo através os outros. Mas, estudo e meditação. Isto dizemos aqui e ora porque consideramos o sr. Antonino Mattos um excelente escultor o qual, caso se aprofundasse um pouco mais, poderia vir a ser também um respeitável artista.

Notam-se ainda, na seção de escultura, um bom busto (333), do sr. Francisco de Andrade, e dois excelentes trabalhos da sra. Margarida Lopes de Almeida (351 e 352), principalmente expressivo este último, uma cabeça de velho tratada rijamente à moda dos impressionistas.

O sr. Petrus Verdié apresenta uma graciosa “Cabeça de criança”, além de várias “maquetes” entre as quais preferimos a do grupo Agricultura (372). Mas será possível que a figura de Tiradentes apareça à mente desse artista na atitude melodramática em que ele a representou nos estudos 366, 367 e 368? Quando muito, seria aquela a figura de um Tiradentes de dramalhão na interpretação de um mau ator. Assim, também, não: francamente, protestamos. Heroísmo, abnegação, patriotismo, fé, tudo o que quiserem e como melhor quiserem, poderá ser, de acordo com a mente de cada artista, o caráter da figura do patriota mineiro. Mas esse heroísmo ou fé ou abnegação, se existem, existem na alma e não nas “poses”, e é essa alma que nos deve transmitir o artista.

Esse protesto estende-se também aos srs. Modestino Kanto, autor de Tiradentes, n. 361 e Samuel Martins Ribeiro, autor do de n. 369. Cumpre, entretanto, dizer que tanto num trabalho como no outro há mais severidade de concepção do que no do sr. Verdié. Mas, ainda assim, há muito artifício, muita exterioridade.

Ainda podemos citar os três gessos do sr. Armando Braga, principalmente o de n. 313 e o esboço 363 do sr. Paulo Mazzuchelli, bom trabalho, mas que trai com demasiada evidência a influência que a obra de Zanelli teve sobre o espírito do autor.

E ora, podemos entrar finalmente no grosso da exposição: na seção de pintura. É o que faremos na próxima crônica.

Mario da SILVA


Imagem

"O semeador" - Estátua em gesso de João Zaco Paraná


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O salão de 1924 - A ESCULTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1924, p.3.

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