. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1924 - A pintura - Os artistas estrangeiros. O Jornal, Rio de Janeiro, 22 ago. 1924, p.3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1924 - A pintura - Os artistas estrangeiros. O Jornal, Rio de Janeiro, 22 ago. 1924, p.3.

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Edição feita às 14h38min de 20 de Setembro de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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Como nas demais seções da exposição, também a esta os artistas estrangeiros prestaram a sua contribuição, enviando trabalhos. E, sendo a pintura a mais ampla dentre as várias seções de que consta o atual salão, era natural que a presença desses hóspedes fosse aí mais numerosa do que nas demais, como na realidade acontece.

Deles nos ocupamos hoje, dando-lhes aquela primazia a que, como hóspedes, têm direito. Claro está que não nos é possível aqui externar um juízo mais ou menos seguro sobre suas qualidades ou demorar-nos na análise de suas personalidades artísticas. O fato de alguns deles terem apenas enviado três ou quatro trabalhos, já limita o material sobre o qual se deve exercer a análise, impedindo assim um exame mais consciencioso. E, quando isso não se verificasse, como em alguns casos não se verifica, e acharem-se os trabalhos disseminados por várias salas, dificulta a nítida visão e comparação das obras: sem essa visão e comparação, meios indispensáveis para a procura da personalidade, é obvio que o estudo viria a ressentir-se de demasiadas lacunas. Por esse motivo nos limitamos como, aliás, temos feito nas outras seções a registrar impressões.

Desses artistas estrangeiros que apresentam trabalhos, alguns são já nossos conhecidos, através exposições individuais por eles já entre nós realizadas.

Está nessas condições o sr. Meinhard Jacoby. Com prazer revemos no Salão três dos retratos já expostos na “Galeria Jorge”. Encontramos, a par desses retratos, um trabalho ainda não exposto: o “Estudo de expressão de um orador”. Esse como os outros, confirma o juízo que já havíamos externado, isto é, nos reafirmam as qualidades verdadeiramente clássicas e o temperamento robusto e equilibrado que nos pareceu caracterizar a pintura desse forte retratista.

Também nossos conhecidos são a senhora Jeanner e o sr. Daniel Sabater. A primeira expõe três trabalhos, números 165, 166 e 167, e outros três expõe o segundo, números 273, 274 e 275.

Contrariamente ao que acontece com os do sr. Sabatêr, que já faziam parte da sua primeira apresentação ao nosso público, os da senhora Jeanner não figuravam na sua primeira exposição. Mesmo assim não nos parece que eles, em substância possam modificar os conceitos já emitidos a seu respeito e que achamos inútil repetir.

Outros artistas há, porém, que ainda nos são inteiramente desconhecidos. O sr. Heinrich Graf, por exemplo, cujo envio ao salão sobe a quatorze trabalhos. Que dizer deles? O Sr. Graf, incontestavelmente, sabe desenhar; não só, mas sabe desenhar como artista, imprimindo ao desenho vivacidade e brios que dão realce a sua obra. Porém, parece-me que há algo de rebuscado no seu colorido, rebuscado todo especial, o qual, para fugir à hiperestesia colorística, cai no monótono, e com o fim de evitar modernismos barulhentos, refugia-se em um passadismo sem relevo. Poder-se-ia chamá-lo, talvez, de futurismo às avessas. Os seus trabalhos, porém, apesar disto, ou - quem sabe? - exatamente por isto, sugestionam. Dá-lhes graça, além do traço vivo e nervoso que busca o conjunto sem perder o detalhe, um certo saber de ilustração, que lembra, ao longe certos artistas ingleses, mestres nessa arte. Ao longe, dissemos, porque o gosto do sr. Graf está mais de acordo com o gosto alemão, severo e pesado: haja vista, além das aquarelas “Casa de colono”, “Vista de um parque” e “Luar em Blumenau”, uma graciosa cabecinha (n.148) de evidente inspiração na escola alemã do século XV. Também interessantes, do mesmo autor, “Idílio na roça” e “Paisagem”.

Outro artista que apresenta numerosos trabalhos é a sra. Laure Enthoven: enviou nada menos de 18 produções. A senhora Enthoven é uma modernista arrojada, toda compenetrada de cezannismo em alguns dos seus trabalhos, como por exemplo, “Femmes au jardin”. Porém uma certa timidez ainda a detém e na maioria dos casos, a leva a aceitar um meio termo entre o último impressionismo e a tendência cubista. E nós a preferimos aqui, onde evidentemente a artista se sente mais à vontade e nos oferece boas telas. Entre elas convém mencionar “Jardin em Belgique”, “Les bords de la Seine” e “Les poteries japonaises”. Bons também “Les pivoines roses” e “La maison blanche”.

O modernismo, além da sra. Enthoven encontra mais dois adeptos: um é o sr. Alberto […] [Alberto Schlopsnies] cuja “Vista do pão de açúcar” de uma dureza procurada não deixa de ser interessante: o outro é o sr. Rudolf Wolff, que enviou treze desenhos. Francamente, não sabemos o que dizer desses desenhos. Já nos foi dado contemplar, sem espanto. Picasso [...] ou Depero e outros mais, aos quais em França, se dá o nome de “fauves”. O sr. Rudolf Wolff, porém, nos desnorteia. Não conseguimos descobrir, por mais que nos esforçássemos, os símbolos do seu simbolismo e, o que é pior, os valores pictóricos dos seus desenhos.

Os demais expositores estrangeiros limitam-se a apresentar menor número de trabalhos. Citemos, entre os melhores, um forte retrato (17) do pintor argentino Antonio Alice, dois graciosos quadrinhos (290 e 291) da senhora Suzana Mesquita, também de nacionalidade argentina, e três interessantes aquarelas do sr. Otto Brungner (237, 238 e 239). Há ainda umas “Cerejas” decorativas da senhora Oven-Grentner e alguns bons estudos de luz da senhora Elaine Antonia Sanceau, principalmente os 72, 73 e 76. Para concluir esta crônica cotaremos ainda um bom “Retrato do sr. Paulo Delpech”, de autoria de um pintor franco-brasileiro, bem, conhecido do nosso publico - o sr. Augusto Petit.

Mario da SILVA.


Imagem

Fragmento do esboceto decorativo "A Força do Direito", enviado ao salão deste ano, pelo pintor Augusto Bracet


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1924 - A pintura - Os artistas estrangeiros. O Jornal, Rio de Janeiro, 22 ago. 1924, p.3.

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