. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. ESCULTURA - GRAVURA - ARQUITETURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 ago. 1921, p. 3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. ESCULTURA - GRAVURA - ARQUITETURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 ago. 1921, p. 3.

De Egba

O sr. Leão Velloso é o que se poderia chamar um temperamento clássico; isto é, um daqueles temperamentos que tendem a olhar o mundo com uma certa serenidade, que têm uma disposição natural a não colher a parte atormentada ou doentia das coisas, mas a vê-las pelo seu lado tranquilo e forte. E por isto julgamos ótimo o seu projeto de monumento [Imagem]; nele, a linha rítmica exterior é fácil intérprete do ritmo interior, gerador da imagem; os homens que a compõem - representando os Estados do Brasil - não são caracterizados pelo comum açucarado patriotismo que, substituindo às vezes pelo amontoado barroco de figuras barrocamente contorcidas, domina em geral nesse gênero de monumentos; mas é sua característica uma sadia força máscula, é sua disposição uma harmonia simétrica; e a sua atitude não é de obediência servil mas de nobreza, tudo de acordo com a íntima inspiração do autor. Esse senso da classicidade, porém, é menos patente na figura de mulher sentada, o qual se bem que de boa maneira completa a linha geral do monumento, poderia ser mais expressiva na sua própria linha de composição, um tanto fria. Inferior se nos afigura, entretanto, “Beatitude”, onde se sente timento que quis exprimir o artista, sentimento que quis exprimir o artista [sic], sensualismo manifestado de maneira mais potente na languidez do braço direito da figura. A falta de uma verdadeira síntese estética entre os dois sentimentos, impede a obra de manter-se toda de arte, só tal permanecendo em alguns pontos, por exemplo a cabeça, onde essa dualidade foi felizmente superada.

Bom trabalho o bronze “Escrava”, do sr. Antonio [sic] Mattos [Antonino Mattos], revelador de um espírito um tanto romântico. É justamente, por se revelar, na torção dolorosa e na expressão fisionômica da escrava. Esse espírito romântico, é que o trabalho do sr. Antonio [sic] Mattos se torna um fato artístico. Essa harmonia, entretanto, cinde-se em dualismo artisticamente falso em “Angústia”, onde a quase classicidade das formas externas não se adapta bem ao sentimento gerador e não deixa expandir-se totalmente. Houve, certamente, alguma superposição de imagens por parte do artista, o qual, querendo evitar, talvez, a manifestação sincera da sua alma por julgá-la, devido a certos preconceitos dominantes, antiestética ou não suficientemente estética, forçou a expressão, comprimiu o sentimento em formas que não lhes são adequadas, mas que são comumente julgadas “belas formas”, como se a forma, em si, pudesse ser artisticamente bela ou feia. E falseou, assim, o escultor, essa outra imagem verdadeira - a arte.

Do sr. Samuel Martins Ribeiro preferimos a “maquette” da “Visão que no sonho apareceu à virgem”, à própria visão. Em ambas as obras a figura de Cristo é demasiadamente dura; há, entretanto, na “maquette” - e é por isto que a preferimos - mais espontaneidade, menos daquele realismo impróprio à maneira de tratar um assunto por natureza místico e que alguma impressão de misticismo deveria ter deixado no espírito do autor, como realmente deixou e se manifesta, embora de maneira incompleta na “maquette”.

Bastante agradável o movimento geral do “Ataque de índios Guaycuru's”, do sr. Paulo Mazzucchelli; falta, entretanto, clareza à imagem, o que indica falta de clareza na intuição que a gerou. Não nos agrada, porém, a frieza neoclássica das duas cabeças do mesmo autor.

Boas algumas das gravuras do sr. Girardet, especialmente o pequeno medalhão representando o dr. Oswaldo Vieira do Carvalho e a placa comemorativa de Giulio Monteverde.

De todos os projetos de casa de estilo ou estilização colonial, só nos pareceu mais espontâneo, isto é, mais artístico, o do sr. A. G. Maya [sic], que acreditamos ter sido, dentre os arquitetos representados no Salão, o que melhor instruiu [sic] o espírito do nosso povo e o exprimiu em projeto de constituição adequada.

Como para a pintura, aqui também poderíamos citar nomes e obras com o único fito de considerá-las frutos de cogitação extra artísticas, as quais não são esteticamente criticáveis por fugirem, ao nosso ver, ao campo da arte. Mas consideramos inútil e inoportuno tal trabalho, e, por isto, não o fazemos.

Mario da SILVA

A MEDALHA DE HONRA NÃO FOI CONFERIDA

Os artistas medalhados da atual exposição geral, estiveram ontem reunidos para conferir a “medalha de honra” ao artista que mais se houvesse distinguido no atual certame.

Compareceram vinte e sete expositores. Foram corridos três escrutínios com o seguinte resultado:

Primeiro escrutínio, Antonio Parreiras, 12 votos; Eliseu Visconti, 9 votos; Belmiro de Almeida, 2 votos; em branco, 2 votos. Segundo escrutínio: Antonio Parreiras, 13 votos; Eliseu Viscontin [sic], 10 votos; Belmiro de Almeida, 2; em branco, 2 votos. Terceiro escrutínio: Antonio Parreira [sic], 13 votos; Eliseu Visconti, 12 votos; Belmiro de Almeida, 1 voto; em branco, 1 voto.

Não tendo nenhum artista obtido dois terços dos votantes, como preceitua o regulamento, não foi conferida a medalha de honra este ano.

A nota distribuída pela secretaria da Escola de Belas Artes está errada quando informa que a concessão da medalha de honra fica a juízo do Conselho Superior de Belas Artes. Não é isso o que o regimento estabelece. Ao Conselho Superior compete resolver sobre outras dúvidas, mas a medalha não pode ser conferida sem que a votação haja alcançado dois terços dos presentes.

Presidiu a reunião o sr. Raul Pederneiras.

Compareceram: Ludovico Berna, Rodolpho Amoedo, Lucilio de Albuquerque, Guttmann Bicho, Luiz Kattembach, A. Bracet, Artur Thimoteo, Antonino de Mattos, Magalhães Corrêa, Garcia Bento, Antonio Parreiras, Jorge de Mendonça, João Thimoteo, Humberto Cavina, Helios Seelinger, Gaspar Magalhães, Francisco Manna, André Vento, Edgard Parreiras, Arthur Lucas, Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior], Gastão Formenti, Francisco de Andrade, João Baptista da Costa, Irene França, Augusto Girardet e Francisco Coculilo.

O PRÊMIO DE VIAGEM NA EXPOSIÇÃO GERAL DESTE ANO

O júri das diversas seções da Exposição Geral de Belas Artes, deste ano, já entregou as suas decisões ao Conselho Superior para julgamento em última instância.

Apesar do sigilo estabelecido mesmo pelos que mais costumam falar, podemos adiantar que o prêmio de viagem foi concedido.

Não deve ter sido tarefa fácil ao júri optar por um dos concorrentes. Dirão alguns que escolheram o “menos pior”. Mas, ainda assim, continuamos a achar pesada a tarefa de tal indicação...


Imagens

O projeto de monumento do escultor Hildegardo Leão Velloso

O pintor Antonio Parreiras


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. ESCULTURA - GRAVURA - ARQUITETURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 23 ago. 1921, p. 3.

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