. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1921, p. 3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1921, p. 3.

De Egba

No sr. Oswaldo Teixeira temos, sem dúvida, o mais promissor dos novos expositores. O forte sentimento do real, ao mesmo tempo forte e doloroso, que anima a sua arte, nos dá esperanças de vê-la em breve erguer-se vigorosa, desde que esse sentimento que lhe dá vida atualmente seja suficientemente aprofundado e reforçado pela meditação. Necessário se faz que ele se torne parte viva e consciente do espírito do artista. Preferíamos falar dele mais demoradamente nesta ocasião. Entretanto, manda a sinceridade registrar o prazer estético que nos causam “Retrato de artista”, “Velha beata” e, principalmente, o “Retrato do pintor Santiago”.

Há qualquer coisa, não podemos precisar o que, que nos agrada [...] “Juventas” do sr. Marques Junior; infelizmente o sentimento que gerou a obra está muito desperdiçado e quase anulado por um excessivo virtuosismo coreográfico. As mesmas palavras poderíamos repetir a respeito da “Historia do Mago Vermelho”, do sr. Mario Tullio.

Também nos agrada de maneira vaga e indeterminada a marinha “Ipanema”, do sr. Santiago [Manoel Santiago]; não encontramos, porém, a mesma expressão em “Praia do Arpoador”, onde nos parece ter faltado ao autor nítida consciência das causas que o levaram a escolher aquele trecho de mar de preferência a outro. E a ausência dessas causas importa na ausência de sentimentos artisticamente unos nessa tela.

Que dizer dos dois concorrentes ao prêmio de viagem, os srs. Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior] e Guttmann Bicho? Em ambos notamos a ausência completa de elementos artísticos - imagens, frutos de sentimentos e por eles caracterizadas.

A materialidade dos símbolos que deveriam exprimir “Recordação”, do sr. Almeida Junior, claramente nos indica que essa recordação ou lembranças, a saudade ou nostalgia, não foi sentida, mas, apenas e de maneira banal, imaginada. E o “Pano decorativo” do segundo, o sr. Bicho, nos mostra uma pura preocupação técnica, que não analisamos por fugir ao campo da estética, e, portanto, ao nosso.

Muitos outros nomes poderíamos aqui catalogar e de muitos outros quadros poderíamos mencionar o título, mas apenas para verificar a sua existência no salão...

Em todos a técnica tenta em vão substituir a alma, substituição irrealizável, que não só denota a falta de uma verdadeira consciência artística, mas também a de um profundo desconhecimento de todo o valor lógico ou conceitual da palavra arte.

A técnica é, sem dúvida, elemento necessário ao artista, o qual como homem prático - o “homo estheticus” é uma pura abstração, dada a unidade essencial do espírito - quer e sente a necessidade de fixar a imagem artística ou fantasma que se lhe agita na intuição. Isto, entretanto, não justifica que se a considere arte em si, por mais perfeita que ela seja. E todos acordam que não basta conhecer-se bem uma língua, todos os seus vocábulos considerados puros e as suas regras gramaticais, para se ser poeta: poeta é um dos sinônimos de artista. A técnica pintórica [sic], como a linguagem, como todo e qualquer meio de expressão, perde todo o significado, quando considerada isoladamente, porque, justamente por ser meio de expressão, ou melhor, expressão, afirma em si a existência indispensável e até apriorística de uma coisa a exprimir. E essa coisa é justamente a imagem artística ou imagem lírica, porque qualquer outra imagem é fruto da imaginação pura, isto é, puro trabalho mneumônico [sic]. Na verdade, a definição verdadeira da arte, como a pode aceitar o pensamento moderno, é ser a arte uma síntese “a priori” estética de imagem e sentimento na intuição - definição dada pelo filósofo italiano Benedetto Croce.

E passaremos à escultura, na próxima crônica.

Mario da SILVA

VOTAÇÃO DA MEDALHA DE HONRA

Por falta de um para completar o número legal, não se realizou ontem a votação para a “medalha de honra”, a ser conferida pelos expositores da atual “Salão”, ao artista brasileiro que mais se distinguir na Exposição, devendo haver para tal fim nova reunião amanhã às 13 1/2 horas.

Somente poderão votar os expositores premiados em exposições anteriores.

A VISITA À EXPOSIÇÃO GERAL É GRÁTIS HOJE

A exposição geral de Belas Artes estará hoje, como todos os domingos e feriados, franqueada à visita do público gratuitamente.


Imagem

Paisagem do professor Baptista da Costa


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 ago. 1921, p. 3.

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