. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 20 ago. 1921, p. 3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 20 ago. 1921, p. 3.

De Egba

O professor Baptista da Costa é ótimo técnico, desenhista e pintor. A não ser aquelas duas lenhosas figuras de “Hora romântica”, poderíamos dizer que tudo o que os seus quadros representam é objetivamente perfeito, no sentido de que tudo que é objetivo é mudo e sem vida porque a vida das coisas é o nosso espírito quem lh'a dá. E, assim sendo, as paisagens e figuras do sr. Baptista, desde o “Dia luminoso” até “O ator Edmundo Silva”, são artisticamente falsas, por lhe faltarem aquela espiritualidade ou subjetividade que ao artista cabe dar às coisas. Por certas preferências, se nos afigura o sr. Baptista da Costa um temperamento amante da tranquilidade das campinas, dos [...] claros e dos céus límpidos; um temperamento para quem um pôr-do-sol é sempre triste, o romper de uma aurora sempre alegre.

Que dizer do sr. Rodolpho Amoedo? Não estivesse o seu nome consagrado com telas do valor de “Desdemona”, de “A narração de Filetas” e de “Jesus em Cafarnaum”, nos veríamos aqui constrangidos a nele não falar, como o de um desconhecido para a arte. Porque, se é verdade que algumas qualidades técnicas se encontram no “Auto-retrato”, qual a significação espiritual dessa obra? Quando a imagem de “Moema” se lhe apresentou ao espírito, qual o sentimento que a acompanhava e que a gerara? Provavelmente nenhum, porque nenhum vemos expresso. E somos levados a crer que ambas as obras são vasto produto da imaginação, imagens nascidas da recordação de outras imagens, por capricho da imaginação e não fruto da fantasia, estrilhada fortemente num estado de alma.

Do sr. Lucilio de Albuquerque desejaríamos conhecer mais alguma coisa. Que qualquer sentimento existe, é inegável, especialmente se considerarmos com alguma atenção “Paisagens”. Sentimento não profundo, entretanto, porque se o fosse, não se teria deixado vencer, como deixou, por um virtuosismo técnico que o abafa e o desperdiça, impedindo-nos de senti-lo imediatamente.

“Alguns colegas”, do sr. Arthur Thimoteo da Costa, é inteiramente falho de qualquer espiritualidade ou caráter. Seriam cabeças de homens, se o homem fosse constituído unicamente por elementos materiais. Mas o homem, para o artista, deve dizer sempre qualquer coisa, ter um caráter, uma espiritualidade, coisas que, bem entendido, lhe são conferidas pelo próprio artista, porque, como já dissemos alhures, o universo é mudo se o homem o não faz falar. Daí o não podermos considerar artística a referida tela, como tampouco podemos considerar tais “Efeitos de luz”, que não passa de um efeito de luz com o qual a arte nada tem a ver, e “Cabeça”, pela mesma razão de “Alguns colegas”. Há naquele “Paisagem” uma luminosidade agradável que transcende o tecnicismo de mero efeito de luz. Mas é impossível qualquer juízo apenas baseado nesse pedaço de céu. E o resto do quadro foi inspirado unicamente no desejo de exibir qualidades técnicas, as quais, justamente por serem apenas técnicas, não são artísticas.

O sr. Edgard Parreiras, quando se lhe apresentou diante do espírito aquela “Sol da tarde”, teria sentido a tristeza do poente ou a vida fecundante daquela luz; a força que se irradia do refrangir do sol em miríades de cores ou a riqueza oriental daquele derramar de pedras preciosas; teria sentido a tristeza ou a alegria daquela casa que olha à entrada; teria sentido a vida que dentro dela se desenrola monótona ou ardente? Certamente, não. Pelo quadro, tem-se a impressão de que o autor observou o avermelhado do terreno e daí concluiu ser aquela paisagem um ótimo elemento pintórico [sic]. E não dizemos que o não seja. Mas, artístico, é que não o julgamos.

Apesar do inexpressivo das figuras de “Tranquilidade”, quadro do sr. Chambelland [Carlos Chambelland], possui, diluídos, dotes artísticos. Aquela vaga tristeza que causou ao artista a monotonia da paisagem, é apercebida pelo observador, levemente, muito levemente, mas é apercebida. E o fato repete-se; confirmando a existência de um sentimento vago e não bem intuitivo, na água de “Jaqueira” e na “Paisagem pernambucana”. Inexistente, porém, nos dois retratos, quase sem vida. O que nos faz acreditar e desejar a possibilidade de uma verdadeira arte do sr. Chambelland, uma vez que o artista consiga vencer o homem, desvencilhando-o de preocupações e preconceitos técnicos, e uma vez que o homem fixe nas telas somente o que o artista sentiu.

A que virá aquele esqueleto que o sr. Bracet pôs como reflexo à sua “Vida”? Compreende-se nessa tela algum conceito pessimista ou cientificamente realístico, mas que não passou de um conceitualismo sem valor artístico, porque não atingiu o espírito estético. De fato, a paisagem é quase arcádica e seria mesmo agradável sem a monotonia do colorido. A figura de mulher seria uma ótima ninfa, sem o inexpressivo da cabeça.

Agrada-nos, e não pouco, “Serenidade”, do sr. Helios Seelinger, quadro que está bem entonado sobre esse sentimento. E com prazer veríamos esse artista abandonar os efeitos coreográficos de “Recanto de sereias” e “Sereia de Paquetá”. Também não nos agrada o “Morro de Santa Tereza”. Para tal não foi feita a sensibilidade artística do sr. Helios Seelinger, ao qual conviria muito limitar-se às evocações românticas, não muito profundas, é verdade, mas que, constituindo a sua corda sensível, poderiam produzir obras boas sob o ponto de vista artístico.

Mario da SILVA

A “MEDALHA DE HONRA”

Hoje, à 1 hora da tarde, terá lugar a votação para a “Medalha de honra” a ser conferida ao expositor brasileiro que mais se distinguir entre os artistas somente podendo votar os expositores premiados em exposições anteriores.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 20 ago. 1921, p. 3.

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