. SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 18 ago. 1921, p. 3. - Egba

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 18 ago. 1921, p. 3.

De Egba

Para se fazer a crítica de arte é mister [...] - e isto é claro - uma sensibilidade. Mas, embora elemento indispensável, essa sensibilidade não é elemento único e ao crítico torna-se necessário ir buscar na fisionomia um conceito que sirva de base às suas pesquisas nesse campo da atividade e, uma vez obtido esse conceito, […] o quanto ele caiba na obra criticada.

Esse conceito da arte, no momento atual do pensamento é o que encerra a fórmula […] arte-intuição, o conceito que, isolando a arte das outras faculdades do espírito, a considera como a forma de conhecimento natural do homem, apenas desabrocha à vida teorética, superando, portanto, a estética romântica (Schelling e Solger [sic]) que fazia da estética a faculdade superior do espírito.

Fazer aqui a história de como esse conceito surgiu, seria tarefa por demais longa e inoportuna, tanto mas quanto ela está perfeitamente exposta nas obras filosóficas de Benedetto Croce. Apenas cumpre-nos constatar o que, em virtude dele, se torna a crítica de arte.

Ela é, necessariamente, crítica estética, move-se unicamente no campo das imagens, constatando apenas se o fato submetido ao juízo crítico é artístico ou não, ou não é artístico e onde o não é. E, assim, a crítica estética é, conseguintemente, crítica histórica, porque para tal verificação é necessário narrar como o fato se passou, como a imagem ou fantasma surgiu no espírito do artista, isto é, escrever uma página de história da arte, que, como toda história, só pode atingir as categorias do espírito e nada mais.

Daí resulta claro que, uma vez sentida a beleza de uma obra, cabe ao crítico analisar subtilmente o porquê dessa beleza, indo buscar nas outras obras do autor o elemento constante a todas e, baseado nesse elemento, pôr em luz como imagem e sentimento expressos, estavam unos e indissolúveis na intuição do autor.

E não cabe aqui o sofisma de que essa estética convenciona ser o conteúdo da imagem unicamente o sentimento ou estado de alma, porque o sentimento não é nenhum conteúdo convencional, mas todo o universo olhado “sub specie intuitionis”.

Uma vez exposto esse conceito da crítica, está implicitamente declarada a impossibilidade em que nos achamos de fazer verdadeira crítica de arte do Salão deste ano e não só do deste ano, mas de todos os salões onde sejam expostas somente duas ou três das obras de uma artista qualquer.

Pela falta, de elementos suficientes à análise, a síntese perde toda a segurança, não se podendo pôr isso em consciência, chamar de crítica as impressões que aqui vamos dar sobre o salão. Haverá, quando possível, um esboço de análise em busca de intuição do artista e uma tentativa de síntese, mas isto em casos especiais, continuando as demais obras in[...] sob o ponto de vista crítico e observadas apenas com o juízo do gosto, que não […] juízo.

Comecemos pelos dois mais completos artistas representados na seção de pintura os srs. Elyseu Visconti e Angelo Cantú.

Do sr. Visconti o belo “Grupo de retratos” e o “Roupa estendida” nos dão uma excelente impressão da sua arte. Arte feita com forte senso do real, de um […] amor à família e às coisas caseiras isenta de qualquer das pseudo-nevrose [sic] próprias a grande parte dos nossos artistas. E quem se lembrar do teto do Theatro Municial, confirmará o juízo; porque nosso sonho, ou outra coisa que o chamem as mulheres têm uma forte e sadia constituição feminil; não são abstrações de mulheres, mas mulheres em toda a extensão da palavra e o turbilhão do sonho que as envolve, não é caracterizado por nada de mórbido ou nevrótico, mas por uma doce tranquilidade. Daí a sua incapacidade em tratar de inspirações dantescas, para o que será necessário um espírito mais romântico: daí a ausência nos dois “Canto das Sereias” de qualquer visão mitológica.

O sr. Cantú não é, como podiam fazer-nos erroneamente acreditar certas preferências, um refinado decadente, um sensual dannunziano, um desses homens, “fin de siecle”, terror dos bons burgueses, para os quais o mundo fora feito apenas com o fim de lhes deleitar os sentidos. Nada disto. Pelo contrário, um sentimento (refinado, certamente, como moderno que é), tímido e suave. No seu quadro, por exemplo, “Flor exótica”, que foi que impressionou o artista? Não a evocação baudelairiana de volúpias desconhecidas, não a luxúria de cores que têm sempre, para os decadentes, as terras exóticas. Apenas a sua atenção foi atingida pelo olhar de tristeza, tristeza mesclada a um instintivo receio da jovem e todo o quadro se entona nesse sentimento. E dessa sinceridade (não escondida pelo decadentismo rebuscado do título) resultou para o sr. Cantú o ter conseguido uma excelente obra, das melhores do salão. Ainda excelente “Atravessando o lago”, onde o sentimentalismo do autor diante da sentimentalidade do assunto, não podia deixar de vibrar de doce alegria, que bem exprime o colorido. Apenas uns efeitos de luz dispensáveis, reminiscências talvez de preconceitos de escola, fazem dessa uma tela inferior à antecedente. Boas as faturas de “Perto do fogo” e de “Mocidade”, não revelando entretanto nenhuma nova fonte artística, deixando mesmo algo a desejar.

Mais propenso às coisas tristes, o sr. Parreiras [Antonio Parreiras]. Aquele bloco de pedra que faz fundo a “Pescadores da minha terra”, exprime bem o sentimento de solidão, quase de tristeza, que, a nosso ver, tem o artista diante da natureza. Frio aquele mar da Guanabara e sem vida aqueles pescadores, que deviam exprimir a outra parte da visão, a da impotência ou do esforço vão homem em face da natureza. Aliás essa falta de vida nota-se também na figura de Fernão Dias Paes Leme, em “Caçador de esmeraldas”. O assunto enquadrar-se-ia, entretanto, no temperamento do artista. Mas, faltando-lhe inspiração, como vimos, para sentir o esforço do homem, a parte artística do quadro deveria existir no trecho de floresta que rodeia a figura. Entretanto, tal não se dá. O sr. Parreiras, que bem sente a força da natureza como inimiga ao homem quis, por um preconceito muito nosso, sentir a exuberância vital da nossa flora e a riqueza do nosso solo, em lugar de exprimir o que ele podia sentir, a sua brutalidade, a sua ferocidade.

E sirva isto de lição aos nossos artistas, que insistem em querer ver assim a nossa natureza, esquecendo-se de que ela é muda e pode ser trágica, feroz, triste, rica, pobre, “selvaggia, ed aspra e forte” [sic], segundo o temperamento que a sente, a reproduz e envolvida nesse ambiente, nô-la transmite. - MARIO DA SILVA.


Imagem

“Atravessando o lago” - Quadro de Angelo Cantú


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

SILVA, Mario da. BELAS ARTES. Impressões sobre o salão deste ano. A PINTURA. O Jornal, Rio de Janeiro, 18 ago. 1921, p. 3.

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