. SALON DE BELAS ARTES - PINTURA. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 ago. 1927, p. 10. - Egba

SALON DE BELAS ARTES - PINTURA. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 ago. 1927, p. 10.

De Egba

O salon de pintura se não apresenta a homogeneidade do de escultura, é, entretanto, a nosso ver, superior aos do gênero apresentados ao público em anos anteriores.

É numeroso e forte, sendo que apresenta, ainda, a dorure prestigiosa dos mestres que não quiseram desmentir as intenções do certame que, para todos os efeitos, passará à história como o Salon da concórdia...

Comecemos por Henrique Bernardelli, uma das ovelhas que voltaram ao aprisco para consolidar a fase de confraternização artística que sucedeu a dos descalabros e desmandos de uma administração incompetente e anárquica.

O velho mestre da pintura apresenta dois belos retratos [Imagem 1 e Imagem 2], ambos dignos do consagrado pincel que criou a Tarantella. O primeiro, sobretudo, é um sonho de perfeição e de vida, uma das obras primas dessa galeria soberba com que a nova escola reaparece aos olhos curiosos do público.

Visconte [sic], o poeta formidável da cor e de cuja sensibilidade artística vivem as almas que se forram de sonho e poesia expõe uma Igreja de Santa Thereza (430) que enternece, e um retrato que, em fatura bem diversa, diz energia e verdade o marcado 431.

Modesto Brocos, outro mestre, expõe com menos felicidade. Parreiras [Antonio Parreiras], pontual ao rendez-vous da paz e da concórdia, mandou uma belíssima paisagem, provando que os seus janeiros ainda não conseguiram fazer tremer-lhe a mão, na hora da pincelada feliz.

Rodolpho Chambelland triunfa no retrato da senhorita M-B, que avulta de uma saraivada de cores mais ou menos agradáveis.

Carlos Chambelland que, não há muito, marcou por uma notável exposição, a mais brilhante fase do seu formoso talento, enviou para o salon algumas das suas telas já expostas na Galeria Jorge, inclusive aquele lascivo Sátiro, cidadão autentico de Gomorra, aquisição inteligente do senador Lopes Gonçalves...

Carlos Oswald, arranca da sua romântica e perturbadora palheta um retrato que maravilha, o marcado 88.

De Argemiro Cunha, cite-se uma cabeça de garoto, pincelada com ótima expressão.

Edgard Parreira mostra belas paisagens.

Destaquemos ainda: Francesco Mana - Canto do Rio, muito bom. Fiuza Guimarães, com dois óleos em um fusain; Bicho, acentuando progressos: João Timotheo, pintor da família Helios, revelando notáveis adiantamentos de técnica na exploração dos seus novos modelos. A sua pintura começa a lavar-se. Apenas, nas paisagens, o seu colorido é ainda um tanto sujo e pesado. Os seus retratos, porém, reabilitam-no. Bons retratos; Hans Paape, figura de Mulher, numa agradável intenção decorativa, ao lado de um cocheiro belo de cor; Gorgorine [?] emoldura a sua alma numa paisagem brasileira onde põe, entretanto um pouco de névoa sonhadora do seu país: Lucilio Albuquerque com paisagens largas, vigorosas, e, Georgina Albuquerque que esplende com um progresso que, não sabe a gente, até onde irá parar.

O seu quadro Juventude é um primor de colorido, de frescura e encantamento.

Achamos um pouco mornas as paisagens do sr. Petrus Verdier que, entretanto, brilha na seção de escultura com um lindo Tamanduá para o qual posou o pintor patrício Theodoro Braga.

OSWALDO TEIXEIRA

Um lugar à parte para o jovem artista.

A nota mais palpitante e mais simpática de todo o salão deste ano, e, pela qual, cheios do mais fundado orgulho e da mais legítima alegria ergueram-se os críticos em louvores de toda sorte, é a do progresso realmente fantástico feito por esse jovem de vinte e três anos e que, aos vinte, conquistava com tanto brilho e dignidade o prêmio de viagem à Europa.

Somos dos que não prodigalizam frases nem exagerados conceitos, muito principalmente quando se trata de um moço que começa, pois, sabemos, de sobejo, dos perigos decorrentes dessas despropositadas turifações [sic].

O elogio em exagero, prejudica. Vamos, assim posto, afirmar, com a maior das convicções, apenas, que os progressos apresentados pelo jovem pintor são, na realidade, notabilíssimos, mesmo geniais, mas não cheguemos ao ponto de dizer que ele é já um grande pintor, o maior do Brasil ou da América. Nada disso.

Pelos trabalhos que Oswaldo Teixeira apresenta, verifica-se o seguinte: que além da intuição e da precocidade de seu luminoso espírito, há ainda, a contar, um entusiasmo e uma capacidade de trabalho que correm paralelas.

Dos artistas de sua geração é o que, pelo menos, até agora, se apresentou mais equipado para a luta. É uma força viva da natureza, como a dos grandes espíritos que surgem, só de quando em quando, veio d’água, forte, violento, e, ao mesmo tempo, cristalino irrompendo do seio augusto da terra e a rolar em golfões indomáveis como os grandes caudais na trajetória de um destino marcado pela fatalidade, para o mar ou para a glória.

Que o país de Pedro Américo e de Victor Meirelles possa abençoar, mais tarde, este nome, como o de um dos grandes artistas que soube amar com honra e com talento, são os desejos reais dos que convictamente o admiram e que, simultaneamente, desejam vê-lo atingir o caminho da perfeição.

PRÊMIO DE VIAGEM

Não há tribunal que satisfaça a ninguém. Nem o das Alturas, presidido pelo velho Deus. Somos todos, assim posto, uma pobre matéria eternamente insatisfeita e que protesta, sempre. E contra que? Contra o que choca o nosso arbítrio.

Em geral, os juízos que decidem dos prêmios de viagem do salon, sofrem torturas após os votos da obrigação. Coroando, entretanto, o espírito de concórdia entre os artistas, este ano, não houve, como se esperava, o clássico sarrabulho dos protestos, feitos (o que é profundamente cômico) em geral, pelos eleitores dos juízes.

Todos aceitaram a decisão que favorece Manoel Santiago favorecendo ao mesmo tempo uma pintora de talento, Haydé, sua mulher.

Achamos justa a decisão do júri. Entre os concorrentes ao prêmio de viagem, porém, havia uma corrente [sic] fortíssima a senhorita Sarah [Sarah Villela Figueiredo]. O seu retrato 395 - Zilah - é um quadro interessantíssimo. Submeta-se a senhorita Sarah aos princípios tradicionais na casa (que tanto pesam na hora do julgamento), e, para o ano próximo, apresente uma tela de composição. Quem tão desembaraçadamente maneja a figura, não tem o direito a caprichos de retrato... Un bom mouvement mademoiselle Villela Figueiredo!


Imagens

RETRATO por Henrique Bernardelli

RETRATO por E. Visconti

RETRATO por Henrique Bernardelli

RETRATO por Carlos Oswaldo

FLORENTINO, por Oswaldo Teixeira

ZILAH, por Sarah Villela Figueiredo


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SALON DE BELAS ARTES - PINTURA. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 28 ago. 1927, p. 10.

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