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SALÃO oficial de 1930. Vernissage, inauguração e impressões do Salão. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 ago. 1930, p. 6.

De Egba

O salão deste ano, cuja “vernissage” se realiza amanhã, Dia do artista, será consagrado ao mestre Rodolpho Bernardelli, decano da classe.

Nessa cerimônia, simples como tudo que é feito com sinceridade, confraternizam-se os artistas, sem vaidade, para glorificar aquele que tem sido um batalhador em prol da arte em nossa terra.

Falará o prof. Adalberto Mattos, pelo Conselho Superior de Belas Artes, saudando o seu fundador, e pela Congregação da Escola de Belas Artes o prof. Flexa Ribeiro, enaltecendo os seus dons de professor e ex-diretor.

A seguir, o professor Corrêa Lima inaugurará a sua obra, o “Busto do mestre”, no Salão de Honra, perante os professores da Escola, membros do Conselho Superior de Belas Artes e os artistas expositores do atual Salão, distribuindo-se no ato, como recordação da homenagem, cartões postais com a reprodução da obra inaugurada.

Não haverá convites.

Logo após, terá lugar a “vernissage”, no salão da Exposição, onde serão servidos café e doces; às 3 horas, o sr. Agrippino Grieco fará uma palestra sobre “O Artista”.

É esta, em resumo, a festa de confraternização dos artistas brasileiros.

Terça-feira, 12, aniversário da criação do ensino das Belas Artes no Brasil, será inaugurado oficialmente, às 2 horas, o Salão de 1930, comparecendo o presidente da República e mundo oficial.

Em seguida à inauguração do Salão, haverá uma sessão solene do Conselho Superior de Belas Artes, presidia pelo ministro da Justiça para entrega dos prêmios conferidos na exposição anterior aos artistas expositores.

O Salão deste ano é bem melhor que os anteriores.

Houve maior cuidado na escolha dos trabalhos, e denota mais esforço, mais desejo de progresso por parte dos nossos artistas.

A ele comparecem os mestres que dignificam a nossa cultura, animando os novos com os seus exemplos.

Passando em rápida revista, o atual salão, vemos que o número de artistas expositores deste ano é de 174, correspondendo a 370 trabalhos, assim distribuídos: 120 pintores com 223 telas, na sua maioria grandes; 28 escultores com 56 trabalhos; 9 gravadores com 28 baixos relevos e medalhas; 7 arquitetos com 18 projetos; 3 em gravura e litografia, com 6 águas-fortes e 7 expositores em arte aplicada com 39 trabalhos.

Na seção de Pintura, sala A, encontram-se à entrada os trabalhos de Henrique Bernardelli, o mestre dos bandeirantes, com três trabalhos, retratos do “Dr. Rodolpho Vaccani”, da “Sra. Vaccani” e “Proletário”, obras fortes de sua segura palheta. Na sala B aparece Elyseo Visconti com os seus três quadros: “A casa”, “A lição”, e “Sta. Tereza”, finíssimas de tons e suavíssimas de ambiente, mostrando a sua sempre nova e evoluidora técnica.

Na sala D o sempre trabalhador Antonio Parreiras, com a sua “Terra flagelada”, grande tela que representa o Nordeste, e na sala E a sua maior composição “Labor”, em que representa o tradicional carro de boi, transportando troncos das nefastas derrubadas: nesta composição há uma sinfonia de cores de sua rica palheta, e ainda outro menor quadro representa o “Sol”, mas de pequenas dimensões; mais adiante a tela de Benno Traidler [sic] “Recordação do Morro do Castelo”, de suave coloração.

O mestre Rodolpho Amoedo surge na sala H, com o seu “Auto-retrato” em aquarela, de técnica segura e simples.

Assim estão representados os mestres no atual Salão.

Em seguida aparece a outra geração de artistas, fruto da primeira.

Da sala A, Theodoro Braga, com o seu “Anhanguera” o bandeirante, forte e audacioso, quadro de composição histórica.

Oswaldo Teixeira com retratos e paisagem.

Carlos Oswaldo com as suas telas místicas, de coloração quente.

Na sala B, Lucilio de Albuquerque, com a “Olaria do Cristal” e o “Pão de Açúcar” em sua translúcida coloração. Fiuza Guimarães, com a sua tela “Vaga”, nu em voluptuoso movimento imitando a onda, de coloração discreta. Edgard Parreiras com o seu “Matinal” marinha de belos contrastes. “Recanto Praieiro”, de simplicidade que lhe é peculiar, e “Dia sombrio” tela que possui qualquer coisa de misterioso, de poético e de sentimental onde reflete a alma do artista.

Pedro Bruno, com três belas notas, flagrantes do ar livre: “Poemas do Mar”, “Divino poeta” e “Pão de cada dia” onde transmite sensibilidade poética do artista, que com sua agradável e suave palheta nos dá um cunho todo pessoal de harmônicos efeitos.

Henrique Cavalleiro, com três telas de ambiente europeu, mas que na seção de gravura e litografia nos mostra as suas belas ilustrações a preto.

Na sala C. Marques Junior, com a preocupação de sinfonia em verde, apresenta dois nus: “Primeiros raios de sol” e “Intimidade” e outro trabalho “Flores”. Na sua fatura atual nota-se uma evolução, mas os seus quadros ressentem-se disso, pois dá a impressão de diversas faturas em sua nova técnica.

Guttman Bicho, com dois belos retratos e uma paisagem. Retratos: “da viúva Aggripino Serpa” e de “Phocion Serpa”, feitos com técnica segura, em ambientes diferentes, o primeiro sóbrio e de interior e o segundo luminoso e magistralmente tocado. “A paisagem” representa a estrada de rodagem da Freguesia à Galeão, flagrante extraordinário de sua mágica palheta, que este ano se impôs entre os expositores pelo seu grande progresso.

Paula Fonseca, este substituto de Baptista da Costa, aparece com um extraordinário vigor, perdendo muito da fatura do mestre, mas ganhando com a sua própria, será sem favor um dos nossos melhores paisagistas.

O progresso é notável em seus três trabalhos “Morro do Geribá”, “Bico do Papagaio” e “Nova Favela”. A sua medalha de ouro serviu-lhe de estímulo; assim acontecesse com os demais expositores...

Georgina de Albuquerque, a nossa maior pintora, apresenta três trabalhos “Roceiros”, no “Cafezal” e “Olhos azuis”, três vibrantes notas do nosso atual salão.

Raul Pederneiras, com as suas caricaturas “O morro da Glória”, “Árvores de Natal” e “Cristo e adúltera”, duas aquarelas e uma pintura que nos fazem rir pelo assunto crítico.

Armando Vianna, um dos últimos de volta da Europa, medalha de ouro do último salão, apresenta três pinturas, duas pequenas “Minha filha” e “Canto de mesa”, de agradável e carinhoso acabamento, e a grande “Samba carnavalesco” de vigorosa fatura, em que aparece o pessoal da Pavuna em ritmado movimento bem nacional.

Augusto Bracet - Este ano mandou duas telas, “Prece” e “Sacrário”: bons trabalhos, a primeira uma jovem no interior da igreja, em prece, num ambiente místico bem de seu feito. Sacrário, tela maior, uma das melhores que tem apresentado o Salão; uma jovem desce a escadaria, tendo como fundo um vitral; ela com suas belíssimas mãos transporta o Sacrário, todo de Ouro e pedraria; vestido de veludo negro, a época da idade média. Este trabalho é bem a alma do artista, sincero, honesto e trabalhador. Helios Seelinger sempre com sua visão comunista de “Altos e baixos”, “Máquinas” e “Dançarinas” em notas decorativas bem pessoais.

Não sendo possível descrever todo o salão citaremos os mais em evidência que ainda nos ocorre à memória.

Loise Visconti, com três belas aquarelas, Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior] com suas três telas em tons azuis.

André Vento, com belos retratos, Argemiro Cunha com suas duas telas “A Ceia” e o “Escoteiro”.

Luiz de Freitas, com paisagens, Evencio Nunes com duas paisagens, Francisco Manna, com a “Manhã”, Gaspar Magalhães, “Miscelânea” , “Henribert Niaud” com belas notas de cor, Jurandyr Paes Leme, com a “Mágoa das Torres”, Porciuncula de Moraes, com dois trabalhos, Virgilio Lopes Rodrigues - “Marinhas”.

Entre os candidatos a prêmio de viagem estão os jovens artistas que num trabalhar constante marcham para a conquista do almejado prêmio que infelizmente é um só e os candidatos dezesseis.

São eles Jordão de Oliveira, Cadmo Fausto, Manuel Faria, Orozio Belem, Vicente Leite, Gastão Formenti, Sarah Figueiredo, O. Teruz, José de Azevedo [sic] [João de Azevedo], Euclydes Fonseca e Rocha Ferreira.

Na seção de Escultura expõem: Francisco de Andrada, três bustos magníficos, Modestino Kanto, uma estatueta em cerâmica de Itaipava - “Vasques”, feito em fatura moderna sem preocupação de modernista. Zacco Paraná, a estátua e maquete de Francisco Sá.

Magalhães Corrêa, três trabalhos: “Luta selvagem”, bronze, “Meus desvelos” gesso, “Acuando” - (o cão e o tejuaçu).


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

SALÃO oficial de 1930. Vernissage, inauguração e impressões do Salão. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 ago. 1930, p. 6.

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