. SALÃO de 1903. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1903, p.1. - Egba

SALÃO de 1903. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1903, p.1.

De Egba

Realizou-se ontem o vernissage da 10ª exposição geral. Há quatro anos, os dias de vernissage são sempre sombrios, melancólicos, tristes. O de ontem também o foi, um dia gris, úmido, triste, dia de fim de outono, de primavera que acorda. Esteve bastante numerosa a concorrência a essa cerimônia de envernizamento. Muitos pintores, homens de letras, jornalistas, alguns repórteres apressados, colhendo notas e desaparecendo rápidos e um bando de senhoras, sôfregas de arte, que alegravam o ambiente com suas claras toilettes.

O dia da private view entre nós é quase uma realidade. Sobem as escadas da Escola os verdadeiros estetas e os interessados, e lá, na balbúrdia dos pintores a pregar quadros, das escadas que se mudam rápidas, das desencontradas opiniões nada há de abertura oficial e de mundanice. A impressão deixa de ser completa, vê-se o quadro de relance, com o perigo de uma escada de frente, a voz dos pintores a discutir e a dar ordens e o bater rápido dos martelos.

Podemos entretanto apreciar, entre as inevitáveis flores e frutas de todas as exposições, algumas telas de perfeição admirável de Visconti, Bernardelli [Henrique Bernardelli], Amoedo, Fiuza, Helios, o atestado do esforço inteligente de alguns novos como o Sr. Macedo e o Sr. Bevilacqua: e o clou dessa exposição, as cerâmicas de Elyseu Visconti, que afinal realizou o seu ousado sonho de arte industrial, apresentando vários vasos que são de rara beleza e de desenho apurado.

A exposição, se não tem a afluência das anteriores, porque em boa hora o júri recusou muitos quadros, apresenta além das cerâmicas de Visconti, vários temperamentos desconhecidos, é afinal uma feliz surpresa para quantos neste país amam e respeitam as coisas de arte.

Hoje, com uma grande concorrência e a presença dos altos representantes da nação, far-se-á a inauguração da 10ª exposição geral.

Graças ao esforço desse artista superior, que se chama Rodolpho Bernardelli, contra todas as guerras e todos os parti-pris, as exposições, atestados anuais do nosso progresso artístico, tem-se sucedido regularmente.

A 10ª será mais um louro dessa lenta obra a que se dedica modestamente, com a sua presistencia [sic] de forte, o admirável escultor.

A abertura oficial será ao meio-dia, com a chegada do Sr. presidente da República, tocando no saguão várias bandas de música militares.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SALÃO de 1903. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1903, p.1.

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