. SALÃO DE 1902 - VERNISSAGE. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 ago. 1902, p. 3. - Egba

SALÃO DE 1902 - VERNISSAGE. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 ago. 1902, p. 3.

De Egba

Em virtude de disposições da nossa legislação de belas-artes, é o dia 1º de setembro o designado para a abertura das grandes exposições anuais, legalmente chamadas - exposições gerais de belas-artes -, semelhantes a congêneres certames franceses, os Salons, de Paris.

Por vernissage se entende, em França, a véspera da abertura solene. O dia do vernissage é de sucesso em Paris do luxo e da tafularia da alta sociedade francesa.

No Rio de Janeiro, a véspera, ou o dia dos últimos toques de verniz e de remates, limita-se a uma reunião íntima de expositores, de seus amigos particulares e representantes da imprensa. A solenidade, a festa propriamente dita, reserva-se para o dia da inauguração que se realiza no edifício da Escola Nacional de Belas-Artes, com a assistência do Sr. presidente da República, sua casa civil e militar, membros do ministério e do Congresso, corpo diplomático e representantes de todas as classes sociais.

A abertura da Exposição será segunda-feira, e coincide este ano cair o vernissage amanhã, domingo, dia em que não publicaremos folha. No intuito, porém, de anteciparmos algumas notas a respeito dos trabalhos expostos, dos quais só poderíamos dar notícia na edição de segunda-feira, apressamo-nos em inteirar os nossos leitores de algumas impressões que conseguimos obter.

Se nestas colunas, a 31 de agosto do ano passado, ao referirmo-nos à Exposição desse ano, dissemos que o público se certificaria, como se certificou, de que o Brasil poderia contar com os esforços dos trabalhadores da forma e da cor, mais razões existem no próximo certame para essa afirmação categórica, porque numerosos trabalhos constituem o Salão de 1902, que será a 9ª Exposição Geral de Belas-Artes depois da promulgação do decreto de 1890, que reorganizou o ensino artístico oficial.

A lei republicana estabeleceu o dia 1º de setembro como assinalado no calendário da nossa civilização, e por essa mesma lei se instituíram prêmios para os expositores; - menções honrosas, medalhas de prata e ouro, havendo também, para quem o merecer, o prêmio de viagem com estada de dois anos nos grandes centros de cultura artística.

A aquisição de obras de arte, expostas por artistas nacionais, e sobre assuntos nacionais, seria igualmente uma medida complementar e compensadora, como já a tivemos, a exemplo do que se pratica na Europa e nos Estados Unidos da América do Norte.

O salão de 1902, constará de trabalhos de pintura, escultura, gravura, arquitetura e artes aplicadas.

Encherá a seção de escultura o Sr. Corrêa Lima, glorioso filho da Escola Nacional de Belas Artes e discípulo do eminente estatuário Rodolpho Bernardelli.

Premiado no salão de 1899, acaba de regressar de Itália, onde esteve, durante dois anos, como pensionista do Estado. Os amigos das belas artes terão ocasião de contemplar as produções artísticas do nosso compatriota, quais um grupo de gesso, tamanho natural, - Mater dolorosa; dois bustos, sendo um de mármore; várias estatuetas de bronze e uma de gesso.

O grupo é trabalho de fôlego, modelo para ser passado a mármore, e o artista espera encontrar proteção para levar a efeito o seu intento. É obra psicológica a denotar muita aplicação do seu autor. Sintetiza a dor de uma mulher junto do cadáver de seu filho.

São dignos de menção; os dois bustos, o de terracota que é muito expressivo e o de mármore, embora não esteja acabado; e mais as estatuetas de bronze, o Dueto a representar um pastor que toca flauta e uma ovelha a corresponder com seus balidos; e a denominada A luta pela vida.

A seção de pintura será abundante. Predominará o retrato e a paisagem nos trabalhos a óleo, ainda não vistos em exposições parciais; mas, tomado o salão em seu conjunto há também quadros de gênero, bíblicos, históricos, mitológicos, flores, natureza morta, fantasistas e composições humorísticas.

Além do quadro a óleo serão expostas muitas aquarelas, alguns pastéis e guaches.

O Sr. Henrique Bernardelli triunfa mais uma vez nessa exposição esplêndida; triunfa pela impecabilidade de sua fatura, pela compreensão rara de sua estesia singular expressa e vivida na inexcedível beleza de sua sapiencial técnica.

Enviou primorosas telas, pastéis, aquarelas e desenhos à pena, destacando-se retratos de alguns artistas e paisagens, recordações de sua excursão à terras diamantinas do Estado de Minas Gerais.

Felix Bernardelli, outro talento, que trabalha atualmente no México, destinou também ao salão quatro bons quadros.

O Sr. Elysêo Visconti, ex-pensionista do estado na Europa e medalhado na exposição de Paris de 1900, expõe quase toda a sua obra.

De muitos trabalhos já se ocupou A Noticia quando o artista fez a sua exposição exclusiva na Escola, logo depois do seu regresso da Europa.

Suas últimas produções pintadas no Rio de Janeiro, e que, pela primeira vez, serão vistas no próximo salão, são realmente muito notáveis. Os retratos, magníficas composições, distinguem-se por uma legitimidade incomparável. É um regalo contemplá-los.

Modesto Brocos é outro expositor de nome e de técnica. Chamam a atenção a sua bela paisagem de Teresópolis e o retrato, corpo inteiro, do Sr. D. Duran, benfeitor da Sociedade de Beneficência Espanhola; trabalhos de amplitude e de valor.

O retratado é um súdito espanhol, domiciliado há longos anos no Brasil, e ex-presidente daquela sociedade, em cuja administração se construiu o edifício da respectiva sede social, à rua da Constituição.

Não faltarão retratos a ver na exposição. O Sr. Rodolpho Amoedo, professor da escola e membro do júri, expõe um retrato de senhora, o qual se salienta pela frescura do colorido e singular distinção. Mencionaremos também outros retratos [...] como os devidos ao pincel dos Srs. Aurélio de Figueiredo e Thomaz Driendl.

Entre as paisagens salientam-se as do Sr. João Baptista da Costa, membro do júri, as do Sr. Souza Pinto, as do Sr. Aurelio de Figueiredo, as do Sr. Treidler e as do Sr. Gustavo Dall'Ara. Deste último artista brilha a denominada Chácara Magalhães Castro.

O Sr. Raphael Frederico, ex-pensionista da escola, concorreu este ano com bom contingente. Sobressaem os seus trabalhos: Junto do altar, composição moldurada em uma métopa de templo grego; e uma paisagem de corte original.

Dos novos, mas que já compareceram em exposições anteriores, luzem no Salão o Sr. Eugenio Latour, com a sua Colheita de rosas, e o Sr. Lucilio de Albuquerque, com a sua Cabeça de artista.

O Sr. Evencio Nunes enviou uma composição, - Anchieta, de tom simpático, a representar em leito mortuário o célebre jesuíta, cujo nome fulgura na nossa história pátria.

O Sr. Heitor Malagutti, o ilustrado jovem pintor, reacionário, prossegue e cultiva a sua maneira original. A sua Beatrix é uma nota do Salão, assim como o simbolismo do seu painel decorativo - Margarida.

Falta-nos espaço para dizer mais a respeito do Sr. Malagutti, que é excepcional no modo de ver a natureza, segundo ditames de uma filosofia de arte que o pintor estremece.

O Sr. João Macedo, atualmente com o prêmio de salão de 1900, remeteu de Paris dois retratos, dos quais um, em tamanho natural, impressiona agradavelmente pela sua entonação e movimento.

Dos que pela primeira vez se apresentaram, a nota humorística é a do Sr. Hellios Seelinger, ex-aluno da Escola, que mostra fértil imaginação, especialmente nos seus Faunos alegres.

O Sr. Jorge de Mendonça obtém com os seus quadros também uma bela nota na Exposição.

Do conhecido artista Sr. Angelo Agostini, sempre a lutar na fileira com os moços, mandou três composições de sua lavra, entre elas citaremos, de passagem, o Velho Mosqueteiro.

O Sr. Augusto Petit nos regala com vários quadros. Em um deles aprecia-se graciosa jovem a olhar maliciosamente para o contemplador, deixando ver formoso colo.

A Sra. Marietta Meirelles premiada no Salão de 1901, ainda desta vez afirma o seu esforço progressivo.

O Sr. Nilo de Paula expõe belas Cebolas.

Não esqueceremos os nomes dos Srs. Delpino e Insley Pacheco; este, depois de longa ausência da exposição, enviou 60 quadros.

A triste nota é a ausência do pranteado artista Benjamin Parlagreco, falecido ultimamente.

O seu auto-retrato, exposto no Salão, lembra as excelentes qualidades que ornavam o pintor, cuja falta será sempre sentida.

Para terminarmos a notícia sobre a seção de pintura, é justo registrar que são dignos de louvor todo aquele, e toda aquela, que levou o seu pequeno contingente para o grande certame.

O Sr. professor Augusto Girardet expõe na seção de gravura de medalhas e pedras preciosas belíssimos produtos de sua lavra, nos quais, como sempre, sobressai a elevada competência do artista.

Na seção de xilografia há trabalhos do Sr. Riccardi, e na de pirogravura da Sra. Julieta Weincelio [sic].

São notáveis as águas-fortes de Modesto Brocos.

O Sr. Victor Dubugras, professor da escola politécnica de S. Paulo, expõe um projeto de arquitetura particular.

Limitamo-nos por ora a estas rápidas indicações a respeito da exposição à inaugurar-se segunda-feira, 1º de setembro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

SALÃO DE 1902 - VERNISSAGE. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 ago. 1902, p. 3.

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