. RIOS, A. Morales de los. TAGARELICE ARTÍSTICA. O Paiz, Rio de Janeiro, 3 set. 1902, p.1-2. - Egba

RIOS, A. Morales de los. TAGARELICE ARTÍSTICA. O Paiz, Rio de Janeiro, 3 set. 1902, p.1-2.

De Egba

Acaba de ser inaugurada, em presença do Sr. presidente da República, a 9ª exposição anual de belas artes, no acanhadíssimo edifício da nossa Pinacoteca, que hoje, mais do que nunca, evidenciou a sua impropriedade para aquele destino. Vai sem reclamo.

A concorrência, muito seleta, enorme, com efeito; enorme o calor naquelas salas sem ventilação de espécie alguma e, no meio daquela multidão e daquele vai-vem de criaturas, mal se podiam apreciar as que se acham expostas pelos quadros, quer em forma de retratos, muito numerosos este ano, quer em outras manifestações pictóricas.

Seja dito de passagem o que já creio ter salientado algures, a saber: os nossos artistas e os nossos momentâneos hóspedes artísticos têm uma tendência marcadíssima para especializar-se no retrato e na paisagem. Os quadros de gênero e muito mais os de assuntos históricos escasseiam de maneira muito sensível.

É talvez um sinal dos tempos que atravessa a arte entre nós.

Um quadro histórico supõe um longo trabalho, estudos conscienciosos e dispendiosos, modelos e sobretudo a probabilidade de não ficar improdutivo todo esse dispêndio de trabalho e de recursos. Ora, quem é que compra quadros históricos entre nós? Foi uma vez a verba que inteligentemente foi aplicada pelo atual governo para a aquisição de obras de arte: era preciso dar-lhe emprego, rapidamente, de modo que ela fosse cortada por qualquer desses incidentes que já revelaram os ecos dos nossos parlamentos ou por qualquer outro motivo fortuito. Não existiam no mercado, perdoem-me a expressão, quadros históricos em condições de serem adquiridos para o nosso museu ou para as nossas repartições e, naturalmente, a verba foi inteligentemente aplicada em outras aquisições. Entretanto, essa verba é ainda larga, poderíamos talvez qualificá-la de inesgotável no caso vertente. Não seria, o caso de dedicar parte dela em auxilio dos nossos artistas de merecimento reconhecido e dos nossos antigos e atuais pensionistas, para os mesmos desenvolverem nas suas telas, no bronze e no mármore quaisquer interessantes assuntos históricos?

Aí estão Henrique Bernardelli, Amoedo, Brocos, Frederico [Raphael Frederico], Visconti, Aurelio [Aurelio de Figueiredo], Fiuza, Macedo, Correia Lima e tantos outros (não se zanguem os que não citei), sem nomear os nossos paisagistas, que certamente honrariam os créditos com que fossem auxiliados e enriqueceriam as nossa coleções com as suas produções.

A Escola de Belas Artes, anualmente, consagra oficialmente, pelo menos, um artista, que a Nação subvenciona na Europa durante um número determinado de anos. Creio poder garantir que nem uma única vez a escolha do respectivo júri tem deixado de ser acertadíssima e acatada. O artista designado para viajar e aperfeiçoar-se na sua arte tem sido sempre o que mais altos merecimentos tinha para aquela designação. Ora, esses artistas vão à Europa cheios de ardor e de coragem, trabalham conscienciosamente, como o demonstram as suas numerosas produções e a sua fidelidade às nossas exposições oficiais; honram o nome brasileiro; caldeiam a imaginação naqueles centros artísticos, onde vêem seus colegas de outros países honrados com as encomendas dos seus governos; sonham com glórias e distinções semelhantes; voltam para cá acompanhados de uma enorme bagagem de trabalhos e ... quando tudo faz esperar que tanto labor e os sacrifícios da Nação tenham a merecida recompensa ... zás! Não tem verba! Vá pintar batatas ou tirar o retrato de qualquer provedor de ordem, ou reproduzir as feições de qualquer Zé Pereira da venda do canto!

Isto é desperdiçar talento e dinheiro... mas não insistamos ! ainda seria possível que alguém se lembrasse, do lado da cadeia velha ou da Casa da Moeda, de riscar as verbas dos pensionistas em viagem...

Há tanto emprego ainda no negócio da banha e bacalhau para rapazes com vontade de cavar a vida...

E, o que eu estou aqui cavando, e, talvez, desperdiçando, são tiras de papel, isto é, colunas, e, francamente, não é tanto o espaço de que a gente dispõe nos jornais para dizer o que quer para tal desperdício... Mas, é desperdício? Bom: já estou reincidindo...

Oh! Deus de Gutenberg! quando é que haverá um jornal grande, largo, alto, comprido, que deixe a gente dizer tudo quanto quer com liberdade de espaço!

Resta-me apenas o necessário para dar uma sucinta relação do que vi e todos vimos na exposição, que acaba de abrir suas portas no meio da mais seleta e numerosa concorrência e que amanhã, sem ir mais longe, estará provavelmente... às moscas! É o costume, não falo senão por experiência. Tomara eu que isto mudasse.

Enfim: vamos a isto...

O retrato triunfa em toda a exposição com os que apresentam Henrique Bernardelli, Visconti, Amoedo, Driendl, Brocos, Aurelio, Petit... j’en oublie, et des meilleurs.

Henrique Bernardelli expõe uma verdadeira coleção de retratos, puras maravilhas de parecido, execução e de arte. A gente tem vontade de lhe dar um abraço cada vez que o encontra a perambular nas salas da exposição. Os seus retratos dos Ascheta, do filho deste, a pastel; de diversos e conhecidos professores do nosso conservatório de música e do Couceiro, na sua oficina de violinos e rabecões, são primores, cuja análise me levaria a encher esta crônica apenas com o nome deste artista insigne. Apenas quero acrescentar: vão admirar aquilo! O artista já não precisa dos cumprimentos de mais ninguém!

Junto do Henrique, o Visconti expõe, por sua vez, notabilíssima coleção de belíssimos retratos, tratados com um namoro especial do nosso ambiente tropical; muitos deles feitos en plen air (desculpe-me o autor do que não se deve dizer) e entre os quais salientarei os do Dr. Custodio Coelho, do Dr. J. Carlos de Souza, da viúva Simas e do Dr. Romeiro.

O retrato do Dr. Joaquim Murtinho, exposto pelo Sr. Driendl, mereceria um capítulo a parte. O artista, muito amante de pormenores, foi de uma sobriedade extraordinária neste retrato. Entretanto, a cabeça, a atitude, a filosofia do retrato, permitam-me a expressão, são extraordinárias. Aquela maneira vaga de desenhar o corpo do personagem e de salientar poderosamente as feições do retratado e, sobretudo, aquele clarão discreto da fronte, ao lado daquela atitude fria, indiferente, calma, propositalmente apagada; aquele olhar fixo no que os outros não vêem, que não olha para o espectador, mas para longe; aquele fundo de quadro, de uma nota uniforme, desvanecida, são notas muito belas... eu acho aquele retrato admirável, mesmo quando à técnica se lhe devam dirigir alguns reparos.

Amoedo tem apenas um retratinho pequeno, muito lindo, numa nota clara muito simpática. Brocos tem outro bom retrato do presidente da Sociedade Espanhola de Beneficência, o que lhe fez, talvez, abusar das cores violentas da bandeira e do estandarte, colocados ao lado do retratado. Petit, como sempre, expõe uma coleção de retratos levados até a mais impecável correção e minúcia, entre os quais salientarei o seu auto-retrato.

Aurelio apresenta um grande retrato do general Osório.

Entretanto, os de Henrique Bernardelli, ao qual forçosamente volto pela atração natural que exercem aquelas obras admiráveis, tornam-no o grande triunfador neste gênero pictórico.

É preciso ver aquelas mãos e aquelas cabeças, admiravelmente pintadas, dos professores Rochini, Roveda, Tatti e Araujo Vianna (pastel), aquela luz do quadro em que o professor Conceiro trabalha, para compreender quanto é sincera e justa esta apreciação.

Resta-me apenas uma tira de papel para dizer o que penso das restantes obras expostas na Escola de Belas Artes!...

É pois a passo de carga que devo acabar esta despretensiosa e desalinhavada crônica, citando apenas o que acho melhor, para servir apenas de cicerone aos que me quiserem ler.

Vejam, pois, Ao por do sol (n.9), belíssima paisagem de Aurelio Figueiredo, a quem tanto gosto de encontrar neste gênero: ele é um teimoso, porém, sem criticá-lo, prefere os grandes assuntos históricos... esses que mal se vendem!

Também Rossini pensava ser muito melhor cozinheiro do que músico. Vejam também a habilidade do pincel de Amoedo no seu S. João (n. 7); o incipiente Lucilio de Albuquerque na sua Cabeça de artista, bom retrato do pintor Malagutti, e, já que citei este nome, recomendo aos curiosos as obras deste artista, que nem posso totalmente aplaudir, porque me fere tudo o que sinto como estético, e a quem não posso censurar de todo, porque há na alma desse pintor alguma coisa que está em formação e em efervescência, que talvez um dia terá forma definitiva e aplaudida. Vejam os quadros do veterano Angelo Agostini: umas frutas do professor Góes [?]; algumas das marinhas do Balliester; os lindíssimos quadros de costumes mexicanos de Lix Bernardelli, irmão de Rodolpho e de Henrique, família privilegiada de artistas; a Risonha e a Azulina, as paisagens e os costumes mineiros (das minas) do H. Bernardelli; umas paisagens de Bolato; duas belas paisagens de Brocos (ns. 65 e 64) e a sua linda aquarela sob o n. 66, e parem momentaneamente diante dos quadros d'All'ara, que vai interpretando a luz das nossas paisagens tropicais com grande maestria. Recomendo o quadro a Toilette, de D. Diana Dampt, o n. 101, Estudando e o Canto de quintal, de Frederico, a quem será preciso excomungar, se não der voltas à sua fantasia e à sua arte na medida das suas forças, e ainda vejam com vagar a exposição de Latour. É este um dos mais tenazes, laboriosos e bons alunos da escola. Já nos anos anteriores fez jus ao prêmio de viagem. Muito me admirará se este ano não conquistar essa recompensa com a sua exposição e notadamente com o n. 104, intitulado Colheita de rosas e... perdoem o atrevimento da minha indicação. Macedo, outro discípulo da escola, atualmente na Europa, expõe um bom retrato sob n. 107; o busto sobretudo é excelente, o baixo do vestido da retratada resulta um pouco duro!

Citarei também as paisagens de Mendonça [Jorge de Mendonça], que me disseram discípulo de Parreiras, e não de E. de Sá, e que tem algumas das qualidades daquele mestre da nossa paisagem. Um bom retrato de D. Julia Naegeli; um [sic] porção de paisagenzinhas interessantes de Pacheco [Joaquim Insley Pacheco], e outras de Virgilio Lopes Rodrigues levam-me até o quadro de outro discípulo da escola, Evencio Nunes (Anchieta), que é, por assim dizer, a primeira promessa formal de um artista que está... preparando sua viagem para a Europa, se continuar no caminho empreendido desta [...]. D. Ignez Sampaio com dois estudos; Seelinger com duas interessantíssimas pochades, muito bem sentidas, de Faunos alegres, e Xavier que aponta no horizonte da arte com uma paisagen[...] muito modesta, levam-me as grandes firmas de Souza Pinto, com duas telas recomendáveis é das quais salientarei Um trecho do rio Douro; de Visconti, cujas Oréadas, Esperando a saída e Os novos revelam duas tendências diversas do artista: a primeira (as Oréadas) escolar e influenciada pelo meio europeu em que ela foi inspirada e a segunda (Esperando e Os novos), inspirada no nosso sol e nas suas reverberações; muito artista sempre, procurando seu caminho, senhor da sua arte..., entretanto, desculpe a ousadia de pedir-lhe a procura daquela correção impecável dos seus primeiros trabalhos, em que [...] as tentações embriagadoras da nossa natureza; ainda outra forma de primeira linha... mas, desta vez, para sempre apagada nas telas brilhantes devidas ao seu pincel e apenas aparente na frieza marmórea de um túmulo: Parlagreco.

Terminarei esta resenha citando ainda o quadro da viscondessa de Sistello, intitulado Un flegmar (um preguiçoso), que é uma pintura bastante recomendável.

Como é que vou ainda falar como merecem de artistas do merecimento de Correia Lima, na escultura; de Girarde [sic], na gravura; de Brocos, na água-forte; de Dubugras, na arquitetura; de Treidler, na aquarela; de Cattaneo, na xilografia e de D. Julieta Wenceline [sic], nas artes aplicadas.

Salientarei apenas as belas águas fortes do Brocos, em que ele é mestre indiscutível os projetos de medalhas do mestre Girardet, o artista escrupuloso e trabalhador, e as belíssimas esculturas de Correia Lima, discípulo do grande Rodolpho Bernardelli, que com razão pode orgulhar-se deste artista. Na sua exposição, Correia Lima vai recorrendo a todas as manifestações de sua arte, desde a picaresca figurinha Um dueto, que é um primor, até o grupo magistral, tamanho natural, consciencioso e belo Mater dolorosa, passando pela bela estatueta a Forja, que parece extratada e corporificada de um célebre quadro velazquino.

E... devo fazer ponto.

Fiz o que pude: façam melhor os que sabem.

A. Morales de los Rios. [Adolpho Morales de los Rios - Artigos]


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIOS, A. Morales de los. TAGARELICE ARTÍSTICA. O Paiz, Rio de Janeiro, 3 set. 1902, p.1-2.

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