. RIOS, A. Morales de los. EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 3 set. 1903, p.1. - Egba

RIOS, A. Morales de los. EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 3 set. 1903, p.1.

De Egba

Além do trabalho a que me referi na crônica precedente, Helios Seelinger expõe outros apreciados e já conhecidos de anteriores exposições particulares, e entre os quais salientarei o Remorso.

Angelo Agostini (o velho, seja dito apenas em sentido comparativo) apresenta cinco quadrinhos, dos quais destacarei o denominado Pintor atrapalhado, bem feito e muito na nota espirituosa peculiar do artista. Agostini [Carlos Alberto de Agostini] (o moço: aqui está o termo de comparação) apresenta frutas e manchinhas de cor, que vão prometendo.

Froes [Manoel Ribeiro de Araujo Froes], umas lindas paisagens, reunidas num só quadro e que revelam notáveis progressos.

Bevilacqua, discípulo da escola, apresenta-se de maneira muito honrosa para tão novel artista, com especialidade da Canção de Daphnis, muito acadêmica e a qual acho parentesco com alguma coisa já vista, seja dito sem ofensa, e da qual não me lembro bem.

Bolato, como o anterior, da escola, revela novamente a sua vocação artística, pintando nos lazeres do expediente administrativo.

E como Virgilio, o popular e amável Virgilio, bem conhecido auxiliar do leiloeiro Dias, não menos popular do que o seu vendedor: eu sabia que Virgilio pintava […] sem trocadilho), roubando aos domingos algumas horas de seu trabalho acabrunhador, mas não o conhecia sob o aspecto pelo qual o mostramos: marinhas muito variadas de técnica, lembrando aqui o Castagnetto, que foi seu mestre; ali o Santa Olalla, que também o foi, e, em suma, apresentando-se bastante honrosamente. Não se admirem se me demoro nesta apreciação de um amador: ele merece essa animação.

Outra coisa não precisa Ribeiro Filho, que está num momento de moleza produtiva que lhe cumpre sacudir para seguir a trilha em que ia. E, já que estou a distribuir incitamentos, dêem-me licença para animar o trabalhador Augusto Petit, o qual poderá ser criticado à vontade e cujo estilo não é dos que mais agradam aos profissionais, mas que se esforça honestamente por fazer o melhor possível e, se a pintura é um meio de representar a natureza no que ela tem de belo, hão de convir que ele sabe escolher os temas artísticos: aquele cabelo do seu quadro Amaralys é simplesmente um primor - Oh! Exclamarão alguns. Pois é assim: digo o que penso e penso como sinto! Aí está: vejam os quadros de Napolitano: sim senhor, técnica superior a de Petit, que se vai formando por si mesmo, mas, enfim, técnica, nada mais: não gosto sem reservas do hieróglifo e do rebus na pintura acabada e pronta, para apreciar a ideia perfeita do artista.

Com toda a modéstia e pesar de seu processo lambido, prefiro o portão de [...] ao Nápoles coberto de neve do Napolitano. Ideia esquisita essa e quase sacrílega, referindo-se ao país do sol, é que comparo com a esquisitice desse prometedor artista que se chama Latour. Eis um rapaz aluno da escola, que ganha em boa campanha o prêmio de viagem depois de fartar-se de paisagens desta terra, que as tem tão belas. Parecia natural que chegando a Paris fosse atraído por outro gênero de impressões. Pois bem, que é o que nos manda? paisagens físicas de Paris, ao lado das quais a beleza das de Brocos, com aquela luz brilhando sobre os rochedos do Soberbo em Teresópolis, faz e mesmo efeito que o vigor másculo de [...] ao lado da mesquinharia física de Chilon [...].

E já que o nome de Brocos me veio ao bico da pena, deixem-me recomendar as suas belas paisagens deste ano e as suas impecáveis águas-fortes. Noto ainda, apesar de um pouco frio e amaneirado, o retrato de Felippe. Não devo esquecer o quadro de Rangl [sic] [Richard Rauft], pintor francês, um dos melhores da exposição e que reproduz com felicidade um aspecto de paisagem coberto de neve ferido pelos derradeiros raios de um sol triste de inverno.

Citarei ainda, de passagem, os trabalhos dos irmãos Chambellando [sic] [Carlos Chambelland e Rodolpho Chambelland], de Jonas de Barros, do francês Cariot, muito bom: de Childe que tem um gatinho bem estudado, ainda, que frio de cor, os quadros de Delpino, Garrido, Macedo, Marques Guimarães, Cattaneo, Carlos Reis, artista português que apresenta um bom estudo de [...]. E, enfim, não devo esquecer nesta resenha a brilhante corte de senhoritas, que vieram honrar a exposição com primorosos quadrinhos, salientando, em primeira plana [sic], as duas irmãs Cunha Vasco [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco], que são duas verdadeiras artistas; a senhorita Sarah Del Vecchio, uma principiante que promete completar-se e que apresenta retratos, frutas e flores, gêneros aos quais, nos nossos centros, e indefectivelmente votada a pintura de senhoras; e ainda: D. Minna Mee, uma aluna que tem alguns trabalhos interessantes de frutas e legumes; as senhoritas Alina Teixeira, Clelia de Castro Nunes, que é uma das expositoras cujos trabalhos revelam maior temperamento artístico e nota pessoal e mais: D. Elvira Gomensoro, Dinorah [Dinorah de França Meirelles] e Marietta de França Meirelles, nomes que são uma tradição; Georgina Moura Andrade Ribeiro e Leduina B. da Gama Rodrigues. E vá a rapaziada acautelando-se diante desta triunfadora invasão de pincéis manejados pelos mais lindos dedos do Rio de Janeiro e circunvizinhanças.

Ah! Não me tratem de patrício de gangorra e outros piegas, nem de ilusões cor de rosa, através das quais estou a olhar para a Exposição de Belas Artes.

Já disse o que pensava a respeito d critica artística entre nós e, demais, não quero que venha qualquer Antoine, experimentador de sublimes tendências, tratar-me de Sarcey de bazar barato.

Se ao menos me soubesse um Sarcey de bom cunho!

De propósito não falei nem no Amoedo nem no Henrique Bernardelli: tudo está dito a respeito deles e das suas pinturas. Peço apenas licença para frisar a laboriosidade exemplar que continua a caracterizá-los e de que é prova exuberante o número de quadros que expõem.

Entretanto, vejam aquele retrato do Henrique Bernardelli, que representa uma senhora sentada em cadeira de alto espaldar. Vão medindo os centímetros quadrados dessa pintura e vão apreciando o que cada um desses quadradinhos encerra de primores artísticos.

Na escultura figuram Correia Lima, com um bem modelado Pescador de nota indígena e um lindo busto de menino, e D. Julieta França, com um belo Cupido, que deve ferir a valer, a avaliar pelo arco do menino.

Rodolpho Bernardelli, esse triunfa ... Não imaginem que estou a lisonjear o chefe e amigos: vão ver aquele busto, admiravelmente esculpido, do Dr. Brissay.

Na seção de gravura e medalhas figura uma esplendida coleção, [...] à escola pelo distinto amador de artes, Sr. Luiz de Rezende, e que constitui valiosíssimo presente.

Ainda na mesma seção o talentoso e laborioso Girardet, que vive no atelier, janta no atelier e dormia no atelier, se o deixassem, apresenta, entre trabalhos acabados na perfeição, vários esboços de medalhas com efígies do rei Humberto e da rainha Margarida, de grande beleza, assim como outros com figuras de italianos célebres que são verdadeiros primores.

Na seção de arquitetura, este ano, por grande esquisitice, figura apenas uma Cena de martírio, um martirológio inteiro até, se quiserem, porque outra coisa não tem sido para mim [Adolpho Morales de los Rios], há três anos, esse projeto da Escola de Belas-Artes que anda como o judeu errante, a pairar sobre todos os cantos da capital federal, sem conseguir terra que o receba definitivamente ou que o sepulte.

Nesse martírio tive, entretanto, desta vez, um cireneu, na pessoa do Fontes Soares, que me ajudou a levar a cruz, com aquela belíssima reprodução que esse artista, que é um modesto operário, fez do meu projeto, e é para falar em Fontes Soares e não em mim, e na sua probidade exemplar ao interpretar o trabalho a ele cunhado, na sua capacidade técnica, no seu gosto artístico refinadíssimo, que falo incidentemente no modelo em gesso da projetada Escola de Belas Artes.

A ele e a R. Bernardelli, de quem foi a ideia de fazer o modelo e que fez todas as despesas, agradeço aqui esse favor.

Resta-me falar da exposição cerâmica de Elyseo Visconti, um ensaio felicíssimo dessa arte tão delicada, que não podia achar melhor nem mais competente intérprete; mas este assunto merecia capitulo a parte, limitando-me aqui apenas a felicitar o artista pelo seu êxito e o Dr. Américo Ludolf, que soube patriocinar [sic] essa tentativa na sua fábrica de cerâmica. E acabou-se.

A. Morales de los Rios. [Adolpho Morales de los Rios - Artigos]


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIOS, A. Morales de los. EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 3 set. 1903, p.1.

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