. RIOS, A. Morales de los. EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 2 set. 1903, p.2. - Egba

RIOS, A. Morales de los. EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 2 set. 1903, p.2.

De Egba

Inaugurando ontem oficialmente a sua décima exposição anual, a Escola de Belas Artes desempenhou-se cabalmente e com a sua habitual pontualidade daquela obrigação dos seus Estatutos.

A exposição, no seu conjunto, se não revela extraordinárias progressos nos nossos artistas, não é inferior às precedentes.

Que querem? Num país onde o negócio e o industrialismo primaram até hoje sobre todas as outras manifestações da atividade humana, onde o artista não acha fácil colocação para as suas produções, não se pode pedir que a mocidade se dedique com extraordinária preferência ao culto das Belas-Artes, cujos proventos apenas se lhe apresentam sob um aspecto mítico e até sem a auréola sedutora do triunfo.

É por isso mesmo que aqueles que com coragem abraçam esse verdadeiro sacerdócio, que também têm as suas hierarquias, devem ser animados e tratados com uma benevolência discreta, sob pena de exercermos uma crítica que, pela sua severidade, chegaria a ser descabidamente excessiva e inoportunamente desproporcionada para com aqueles que, à força de tantos sacrifícios, sofrendo tantas e tão contínuas desilusões e lutando num meio tão ingrato, estão dando provas diárias da sua firmeza, da sua probridade [sic] profissional e o seu desejo constante de progredir, honrando o nome pátrio no tal vasto campo das belas-artes, reduzido entre nós a um pequeno prado, onde florzinhas tímidas apontam aqui e acolá, chegando raramente a vicejar, à míngua do orvalho benfazejo, sob a forma da moeda corrente.

Entretanto, repito, os artistas e a escola oficial que os tem formado, na sua quase totalidade, não desanimam, quer expondo os trabalhos dos seus discípulos daqui e da Europa, quer realizando outras exposições, como a recente, de Victor Meirelles, quer nas suas exposições anuais, onde, como, na permanente, dois antigos alunos da escola, os Srs. Visconti e Fiuza, figuram já como membros do Júri de pintura, além de apresentarem notabilíssimos trabalhos como expositores.

Acontece, porém, e o caso merece ser revelado, que quando algumas repartições públicas precisam de fazer alguns retratos, gênero o mais favorecido entre nós, não é raro suceder serem encomendados no estrangeiro, como aconteceu há pouco com os dos diversos presidentes que tem tido a República...

Este desamparo dos nossos artistas priva-os dos recursos necessários, e não são poucos os que se precisam para atacar grandes composições de caráter histórico e de maior fôlego que parecem estagnadas desde a época dos quadros das batalhas de Guararapes, de Avahy e dos Bandeirantes.

Não faltariam a própria escola meios e recursos de ajudar os artistas, fornecendo-lhes os meios de realizar algumas destas grandiosas composições e disto vem dar fé a belíssima exposição indumentária que este ano ocupa uma das salas abertas ao público.

Nela vem-se [sic] grande quantidade de objetos e de obras de arte da mais diversa procedência que constituem um verdadeiro tesouro artístico, que penso não ter igual na América do Sul e que forneceriam aos artistas largos elementos para a composição dos seus quadros se a Escola de Belas-Artes, ao invés de ter todos aqueles objetos, simplesmente arrecadados e armazenados por falta absoluta de espaço, os pudesse expor de maneira conveniente, qual se usa nos verdadeiros museus.

Contemplando os objetos expostos nessa sala e cuja catalogação encheria todo este jornal, o público estará longe de pensar que aquilo tudo representa apenas uma ínfima parte das coleções totais que possui a escola, que o público infelizmente desconhece, que forma parte do patrimônio nacional e que os artistas não poderão aproveitar para os fins peculiares a que eram destinados.

Mesmo para dar lugar à atual exposição, foi preciso amontoar telas pelos corredores e pelas escadas, trancar salas destinadas a aulas e abarrotadas de quadros e de objetos, fechando portas e saídas, sob pena de não haver onde armazenar tudo aquilo de que se orgulharia mais de uma nação. E eu pergunto qual seria a sorte de todos esses tesouros de arte, pacientemente acumulados, se um foguete fatal viesse rebentar no meio de uma daquelas salas passando por qualquer clarabóia e se amanhã nos anunciassem discriminadamente os jornais as peripécias do incêndio da Escola Nacional de Belas-Artes, fazendo acompanhar essa relação com a das obras de arte desaparecidas, graças a um desleixo que nesse momento haveria de motivar censuras... de que todos seríamos passíveis.

Entretanto, a escola lá continua a funcionar como pode e a maioria dos nossos artistas responde ao seu apelo.

Na exposição que ontem se inau [...] e queridos, Visconte [sic] expõe uma belíssima têmpera, representando com felicidade uma ladeira cheia de sol, no morro de Santo Antônio; uma mancha intitulada À fresca, representando figuras à sombra de uma arvore com felizes efeitos de luz; o retrato de seu irmão feito a têmpera e dois belos estudos de [...].

Fiuza, ao lado de muitos estudos de paisagens, lembranças de viagem, expõe duas cabecinhas bem pintadas, uma cabeça de senhora intitulada Dominó, um estudo de Nu e um Baco, todos eles conhecidos desde a sua exposição particular.

França [José Monteiro da França], outro discípulo da escola, expõe um interior - Na cozinha - com boas qualidades de pintura e de observação.

Dall'Ara, um laborioso, uma reminiscência de sua aquarela, A praça da República, ao anoitecer, e duas belas paisagens feitas do seu modo especial e feliz de ver a nossa natureza.

Frederico [Raphael Frederico], que andava preguiçoso, expõe um quadrinho representando um [...] o que vem a ser uma anomalia, a dormitar por baixo de uma [...], que o sol atravessa com os seus raios.

Matisse, um pintor francês, mandou-nos um curiosíssimo efeito de sol poente, avermelhando rochedos que costeiam um mar de esmeralda, tal qual os vemos nas costas mediterrâneas da Itália, da Grécia e Espanha.

Outro francês, Carré, de processos esquisitos na sua maneira de pintar, mandou duas verdadeiras saladas russas, muito apreciáveis entre artistas que sabem ver no meio daquele sarrabulho de cores em especial, na procissão em Poitou, mas que oferecidas ao paladar publico são de difícil ingestão.

Baptista, o impecável paisagista brasileiro, brinca com as dificuldades da técnica em todas as suas paisagens, entre as quais saliento a Igrejinha de Copacabana e o pescador.

Evencio Nunes, que é um trabalhador sincero, lutando com os maiores embaraços para prosseguir os seus estudos, também apresenta uma paisagem de nota muito pessoal e dois quadros, na cozinha e uma lição, muito bem tratados e que estão a recomendá-lo com o seu colega Lucilio de Albuquerque, para o prêmio de viagem. Este último, que é outro trabalhador entusiasta, vai em real e continuado progresso, como evidencia este ano com os retratos e um pastel.

Helios Seelinger, que já tem um nome apreciado, é o grande expositor deste ano.

Ele apresenta um grande quadro cheio de dificuldades técnicas, feito num acanhadíssimo atelier, e por isso mesmo apresentando senões que são de fácil retoque. Assim, por exemplo, a figura do tocador de guitarra tem muito curtas as pernas; a figura do fumante que acende o cigarro à luz de lampião é grande demais e existe desproporção entre ela e a que lhe fica por baixo, deixando perceber falta de perspectiva entre estas duas figuras e o candeeiro, o braço do modelo, violentamente estendido tem perfis e reflexos que prejudicam o desenho, e assim outros pequenos senões.

Entretanto, o seu quadro tem grande merecimento: estão bem agrupadas as figuras; o efeito de luz externa e o da lâmpada está bem executado, o fundo de quadro sobre tudo é muito bom e nele se vêem retratos de rapazes conhecidos nas artes. Em suma a obra recomenda muito o autor, e é bem provável que com o tempo, recursos e sossego, coisas de que os nossos artistas carecem, tivesse completado mais um bom trabalho.

E aqui fico hoje, fixando reunião para amanhã aos que a minha prosa não aborrecer ou aos que dela precisarem para dormir.

A. MORALES DE LOS RIOS. [Adolpho Morales de los Rios - Artigos]


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIOS, A. Morales de los. EXPOSIÇÃO DE BELAS-ARTES. O Paiz, Rio de Janeiro, 2 set. 1903, p.2.

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