. RIO, João do. O SALÃO DE 1904. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1904, p. 3. - Egba

RIO, João do. O SALÃO DE 1904. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1904, p. 3.

De Egba

A 11ª Exposição Geral de Belas Artes

Inaugura-se, hoje, ao meio dia, a décima primeira exposição geral. Há onze anos, à custa de sacrifícios e de esforços, vem Rodolpho Bernardelli sustentando essa sua campanha. Para o primeiro salon foi preciso contribuir com a sua bolsa, para os subsequentes teve que se fazer defesa e arrimo. Onze anos depois o nosso público começa a compreender o valor das exposições e, hoje até, para os mundanos, a abertura da exposição é o definitivo encerramento da season.

Ontem, ao vernissage concorreu como sempre a flor da nossa sociedade e é de prever que hoje ao meio dia, não seja possível andar nos estreitos corredores da Escola e nas duas galerias onde estão os 259 trabalhos expostos.

A exposição de 1904 não acusa tendências nem escolas estéticas, mas é incontestavelmente uma das mais intensas que temos visto.

Os nossos melhores artistas expõem: Bernardelli, Machado, Helios têm quadros de raro valor, o adiantamento dos alunos aos quais dá o júri inteira liberdade como aos Srs. Bevilacqua e Chambellan [sic] [Rodolpho Chambelland] é raro, e há entre as telas variadíssimas, temperamentos originais, como mme Wencelius, que apresenta seis desenhos impregnados de uma beleza, de uma compreensão da paisagem tão grande que a alma tranquila dos elementos parece se transfusar e viver na meia luz das suas tintas. Mme. Wencelius será, sem dúvida, uma das atrações do salon com esses melancólicos poemas que se intitulam Luar e Por do Sol, A Manhã e Sob as folhas.

São estes os principais trabalhos da exposição:

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Pintura de imaginação e decorativa

AMOEDO - AGOSTINI - LUCILIO MACHADO - TEIXEIRA DE FREITAS [?] - MALAGUTI

Amoedo, o esteta do Nu e do Casto, o discípulo de Puvis, mostra dois quadros de um sabor esquisito, dois quadros que lhe dão a sua dupla feição de artista, a Oração, de uma suave e mística doçura, e a Cativa, com as mãos pendidas e o colo nu, - o colo onde dois seios lúbricos arfam, onde dois seios cantam um estranho poema de vida interior, onde dois seios parecem dizer como no verso de Rollinat

...Osez!

Les seins voluptueux sont friands de vos lèvres

Et de larmes d'amour veulent être arrosés

Machado tem a rivalíssima cabeça de um pedinte, o Cardo Civilizado, a bizarra Constelação e dois grandes quadros de pintura religiosa. Parece que uma das suas preocupações é a história sagrada. O seu primeiro quadro de sucesso foi o Pecado, belo pela ingênua graça de um Adão criança e frágil. Depois tivemos Daniel, e agora Cristo curando um paralítico e a Tentação de Santo Antônio. O Cristo frio; a Tentação, de um grande simbolismo de cores, tem a figura do santo prejudicada pelo estardalhaço das larvas, umas damas nuas que, a julgar pelo tamanho dos pés, começaram a ser feitas pela base. Isso não desmerece, porém a sensação de valor das duas telas.

Como a pintura imaginativa é o pêndulo entre a ideia que se corporifica e o nu que sugestiona, há dois quadros, o Inspirado, de Teixeira de Freitas, trabalhado numa carícia de luz superior, e a Ode Sáfica, de Malaguti, que são, um com a significação de ideal, outro com a sugestão de venenosas ideias os dois extremos desta arte de fantasia e criação.

Malaguti está cada vez mais requintado e mais pompeiano. A sua Ode Sáfica, uma mulher nua tapando o rosto

Nulla potest mulier tamtum se dicere amatam

É de uma crispante e inalterável sensualidade.

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Retratos

HENRIQUE BERNARDELLI - R. AMOEDO - HELIOS SEELINGER - THU-CEU-HAM - MACEDO MANNA - LUCILIO - BEVILACQUA.

Arsene Alexandre, numa das suas críticas, dizia: “É bela a missão do pintor moderno se ele a sabe compreender, é imenso o seu domínio se sabe ver. O fortunatos nimium sua si bona norint! Em outros termos: que inesgotável fonte de assuntos teria se não se emparedasse nos quatro muros do atelier! Só o retratista possui um imenso campo em que os assuntos se multiplicam sempre novos, a beleza dos semblantes de hoje quase todos preocupados, agitados, carcomidos de sonho, de ambição, de vício! Os homens de ação, os sábios, os artistas, os agitadores, os industriais, todos estigmatizados diversamente, mas tendo os traços característicos da inquietação...”

A exposição tem belos exemplos desses retratos que são retratos d’alma. Além de uma delicadíssima tela de Amoedo, do retrato do Dr. Seabra, feito pelo chinês Thu-Ceu-Ham (o que é uma originalidade, convenham) e de esforçadas tentativas de Macedo, Manna e Bevilacqua, conta a exposição com uma admirável coleção de retratos de Henrique Bernardelli e com as variações sobre o mesmo semblante de Helios Seelinger.

O Sr. Henrique Bernardelli, o pintor senhor de uma técnica maravilhosamente expressiva, é desses que Arsene Alexandre quer fazendo a história do seu tempo. Nos seus retratados dois são artistas, Napoleão e Brocos, outro industrial, e há ainda duas senhoras, realizadas com uma graça aristocrática de detalhe. Em Napoleão há toda a nervosidade angulosa de compositor, em Brocos, a calma resistente, no industrial, um belo retrato ao ar livre, a psicologia de um ser [...] da sua felicidade. Valem por um trecho de sociedade contemporânea essas cinco telas admiráveis de Bernardelli.

Helios Seelinger mandou oito quadros com títulos diversos. Esses oito quadros asseguram-no grande retratista e são em grande parte as suas variações sobre o mesmo semblante. Há um auto retrato, o retrato de um amigo e as variações, espalhadas pelo salon.

Devem-se lembrar de Mme. de M. (a princesa de M. para os íntimos), célebre ocultista, discípula de Mme. de Thebes, crítica de arte, sugestionadora, etc. Essa senhora, com as mãos finas cheias de anéis simbólicos da África, da Índia e dos sacerdotes da Escandinávia, exerceu por momentos o papel de grande mago da nossa arte nova. É ela que aparece, melancólica, doutrinando, sorrindo, vestida para o baile, prestes a sair, com a camisola exótica das feiticeiras, sempre ela nessas telas deliciosas. Torna-se mesmo impossível deixar de reconhecê-la. Em todos os quadros, os finos dedos das figuras mostram a constelação misteriosa dos seus anéis de sibila.

Que encanto e que piquant o das exposições de retratos! É toda vida dos nossos dias, é a história comentada por nós mesmos!

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Paisagens

As paisagens abundam. Pode-se sem dificuldade contar umas sessenta. D. Anna [Anna da Cunha Vasco] e D. Maria da Cunha Vasco pintam irmamente [sic] cinco aspectos cada uma de sítios que naturalmente visitaram juntas; os Srs. Esteves, Delpino, Dall’Ara, Evencio, Bolato e Lemos mandam a sua quota de observação da natureza, D. Eulalia Silva e o Sr. Bevilacqua, como discípulos aproveitáveis, enviam algumas telas nas mesmas condições, o incansável velhinho Sr. Pacheco tem quinze, nada menos de quinze, o Sr. Luiz Ribeiro, impressionista, fez cinco com as denominações de impressões, o Sr. Teixeira da Rocha expõe duas belas paisagens animadas, o Sr. Carlos Oswald, irmão do virtuose que há dias estreou no Instituto, concorre com cinco aspectos italianos.

Os dominadores deste gênero são porém, os Srs. Baptista da Costa, Machado e Fiuza. Baptista nos seus oito quadros tem um penetrante encanto, transmite-nos toda a quente voluptuosidade dos nossos campos; Fiuza na sua alva paisagem bretã, um pouco imaginada, é surpreendente, o Sr. Machado afirma-se um trabalhador incansável nessa série de uma sensibilidade superior em que se visionam trechos de vegetação de Paris, o Bois, Vincennes, Villemens, etc., sob a doçura da primavera, ou sob a tristeza do outono...

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Pintura de costumes

José Veríssimo deve estar satisfeito. Os nossos pintores já começam a tomar a sério os costumes. Na exposição o Sr. Brocos, um fiel da escola, tem [...] Cena Doméstica, a Sra. Eulalia um quadro Na roça, o Sr. Evencio uma Lavadeira, Sr. Teixeira de Freitas um belo interior com figuras, uma cena de família muito pitoresca. Como se não bastasse isso, o Sr. Angelo Agostini fantasia uns gaúchos e uma laçada aos bois, que se não são autênticos, mostram ao menos o carinho do desenhista pela nossa terra. [...]

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Pastéis e aquarelas

Elyseu Visconti, o encantador. Elyseu, tem duas aquarelas de uma beleza rara, uma que apenas é a macia doçura de uma paisagem feita de sonho, outra o [...] de dois petizes lendo um livro, [...] a expressão aguda e curiosa dessas [...] carinhas, a vida dessas fisionomias […] inteligência desses olhares [...] uma arte subtil em pintar crianças. Elyseu é simplesmente extraordinário.

Para que esta parte da exposição tivesse todo o relevo, Triedler [sic] expõe [...] três vigorosas aquarelas, o Sr. Freitas manda da Itália outras três. Lucilio [...] um delicado Gris e Mme. Pfam [...] Esteves. Delpino e José França [...] alguns pastéis levemente tratados.

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Escultura

RODOLPHO BERNARDELLI - CORREA LIMA - ZANI

A seção de escultura é uma das mais fracas este ano. Há o busto em bronze do Dr. Gross, magistralmente feito pelo escultor Bernardelli, um Menino, gesso de Corrêa Lima, com as conhecidas qualidades de gracilidade do jovem artista, e dois retratos em gesso e em baixo relevo em bronze do veneziano Zani. Sempre foi fraca a seção de escultura nas exposições anteriores. Nos outros anos, porém, Corrêa [...] na Europa, trabalhava mais: [...] senhoras, com aptidões para esculpir mandavam assuntos mitológicos [...] e bustos dos grandes homens [...]. Os grandes homens já se foram [...] D. Nicolina e D. Julieta, estão estudando em Paris.

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Gravura e artes aplicadas

GIRARDET

É também muito pobre a exposição de gravuras. Ainda o ano passado o Sr. Brocos expunha as suas águas fortes. Este ano temos apenas o incansável Sr. Girardet, o único pelo qual se conserva a rubrica deste ramo de arte nos [...]. O Sr . Girardet é tenaz, é modesto, é hábil. Anualmente estamos nos [...] de ir encontrar no salon os modelos das suas medalhas, todos de uma beleza suave e discreta. Tem este ano sete trabalhos e inteligente professor, em que é de justiça salientar as: Medalhas do Jubileu dos Telégrafos, Medalha Lembrança […] em gesso e gravura em aço e o Retrato de senhora.

Nas artes aplicadas, parece não ter sido continuada a tentativa das porcelanas com desenhos de Visconti. Há apenas um vaso decorativo em pirogravura da excelente e original Mme. Wencelius.

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Arquitetura

MORALES DE LOS RIOS- STAHLEMBRECHER - BARBA.

A exposição de projetos ficou na galeria n. 2 Não há aí os descalabros de arquitetura nova que nos mandam da Alemanha, de Paris e da Áustria. Há a calma afirmação de um talento, o Sr. Stahlembrecher, as lindas fachadas de Morales de los Rios e uma copiosa coleção de antigos projetos do Sr. Barba para certos e determinados edifícios na França. Essa última parte não tem um interesse muito atual. Para a gente diante de um colossal projeto meio [...], corre ao catálogo e lê: Bolsa de gêneros em Marselha. Pode ser belíssimo, mas não calha, não tem nada com a exposição nacional de 1904.

Vale à pena visitar a fria sala da arquitetura. O projeto de fachada angular para a Avenida de Morales é magnífico e Stahlembrecher expõe o seu primoroso - Asilo Bom Pastor.

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Conclusão

Há ainda estudos, telas de mocinhas e rapazes que prometem, algumas fruteiras, o Sr. Petit com um variado sortimento de senhoras, frutas, a inevitável [...], etc. A impressão que o público terá hoje indo à Escola é entretanto a de esforço encarniçado, titânico. Bernardelli resolveu que teríamos um salon. O salon lá está. Alguns grandes nomes da pintura não concorrem a ele, sistematicamente hostis. Que se há de fazer? Todos os anos novos elementos surgem vigorosos e cada exposição é um inconteste triunfo, não só para a escola como para os que expõem nesses livres certames de arte.

João do Rio.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIO, João do. O SALÃO DE 1904. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 1 set. 1904, p. 3.

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