. RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 22 ago. 1928, p. 1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 22 ago. 1928, p. 1.

De Egba

CARLOS OWALDO [SIC] ACENDE UMA VELA A DEUS E OUTRA AO DIABO - UM PINTOR GRAVE: ALVES CARDOSO - SENHORA SARAH DE FIGUEIREDO E A ALEGRIA ENGANADORA DAS CORES: PORQUE A FORMA É UM PROTEU - DOIS SUPLENTES: GENESIO MURTA [sic] E PADUA DUTRA

Dos nossos pintores modernos, o Sr. Carlos Owaldo [sic] é um dos que melhores qualidades artísticas apresentam. Já se vê que procuro estabelecer, com clareza, diferença entre pintor e artista. Este é expresso, além de faculdade de transmitir a emoção, pelo dom de interpretação universal de natureza. A maioria dos pintores e escultores são talvez hábeis, idôneos e até primazes no ofício, mas não se nos apresentam na pauta do sentimento, como artistas

O Sr. Carlos Owaldo [sic], além de pintor de boas qualidades, é artista de sutil impressão.

Durante algum tempo, parecia que se havia transviado, enveredando por teimosia no encanto da cor local, e pela criação convencional de luz trazida pelos processos indiretos. E havia qualquer coisa de cromo em muitas de suas composições.

Agora abandonou todas essas experiências, e ficou tranquilamente eclético quanto à técnica e aos métodos de interpretação.

Carlos Owaldo [sic] bem analisado é um pintor que acende uma vela a Deus e outra ao Diabo. (Que no caso se deveria também escrever com maiúscula).

A sua Santa Cecília é de uma pureza de cor incomparável: tom sobre tom, os vermelhos se afinam num crescendo colorido, como ondas luminosas que corressem sobre o mar da própria cor, mas onde, ainda assim, conseguem se individualizar. Além disso, a diferenciação de matéria, a assonância do colorido em que as diferentes epidermes se dissociaram e se harmonizaram ao mesmo tempo, corre alto e se exalta numa [...] percepção visual de valores: chega-se a ter uma espécie de sensação tátil nos olhos para sentir a evidente cromática daquela vibração luminosa.

Para abrir contrastes - e somente estudar esta oposição - Carlos Owaldo [sic] nos oferece Árvores (Petrópolis) compreendidas de maneira antagônica: e a interpretação por massas sumárias, empastando as luzes e fazendo as sombras ligeiras, alternando tons quentes e tons frios, - filia-o aos derivados dos impressionistas sem no entanto aproximá-lo dos divisionistas típicos.

Esta técnica atesta o quanto é viva a virtuosidade do pintor em cuja íris de artista o mundo exterior cintila na alegria divina das cores que se decompõem nelas mesmas, e ele vai, comovido e ávido, procurar as próprias harmonias dos tons, esbatimentos diluídos, numa translucidez, quase imperceptível, ainda aos olhos adestrados.

Com o Victor Hugo e Violoncelista, Carlos Owaldo [sic] constitui uma das poucas vitórias artísticas do Salão brasileiro.

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O sentimento de cor leva frequentemente a senhora Sarah de Figueiredo a confiar demais nas superfícies coloridas. Nos envios deste ano, há telas em que o esboço caracteriza, por assim dizer, a dominante da fatura. Deslumbrada pelas cores - principalmente pelas primárias, D. Sarah Figueiredo não se ocupa muito em construir a forma interiormente. É talvez por isso que, em quadros como o da Senhorita Mercedes Nicolossi, todo o alarido dos lindos vermelhos parecem vazios. Com esta tela foi que ao lado de Marina, em que a dominante é o verde, compreende-se que o acaso veio em prol dos desejos da aurora: aproximando aquelas duas cores complementares obteve um vermelho mais intenso e um verde de alta eloquência crômica.

É um prazer para os olhos a intensidade do verde daquele chalé delicioso: infelizmente as seções nuas do modelo não apresentam superfícies vivas: há qualquer coisa de volume oco, como se a matéria do corpo humano não fosse densa na sua renitência elástica.

Prefiro o auto-retrato onde à certa justeza de cor se alia uma solidez maior de construção: e há uma espontaneidade de fatura que se não disfarça longe do desenho. É esse o bom caminho: a forma viva é como Proteu: precisa abraçá-la com decisiva prontidão, para possuí-la.

A par destes pequenos reparos, é evidente a sensibilidade da pintora que com tanto bom gosto decorativo se emociona, à ondulante irradiação das cores.

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O Sr. Alves Cardoso é um pintor de destacado renome: quando foi de sua exposição individual, no Gabinete Português de Leitura, há meses, tive oportunidade de criticá-lo mais de perto. Discípulo de Carlos Reis, guarda individualidade própria, e as suas obras possuem aquela solidez grave de construção que é peculiar a alguns dos mais eminentes pintores de Portugal.

Dos três trabalhos remetidos à exposição geral deste ano, prefiro o retrato de D. Emilia Bretes, pela intensidade moral do personagem, como também pelas formas habitadas que o desenho interior conseguiu fazer sentir. - E lá fora está a nevar! - tem já qualquer coisa de convencional (talvez para nós), por onde me parece não ter andado a mesma chama de emoção, apesar do fogo que enrubesce aquelas pernas de reduzido agrado à composição. Claro que tais observações nada diminuem o valor técnico do Sr. Alves Cardoso, tido com justiça, como um mestre, na sua terra.

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Quem examinar os Botes ao Sol, do Sr. Padua Dutra, há de verificar as qualidades apreciáveis que amanhecem no pintor: nesse quadro os planos se definem, o ar circula no espaço, o horizonte foge. Infelizmente no primeiro plano há nem só dureza de matéria dos botes que se recortam fora da atmosfera da paisagem, como também a iluminação é convencional, e os reflexos não foram observados ao natural.

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O Sr Genesco Murta, este ano, conseguiu certa homogeneidade característica na matéria, pela unidade de luz: e a sua Maré baixa se compõe com atraente colorido, num sentimento de ar livre, como se o pintor começasse a ver os volumes na atmosfera, sob a ação policrômica dos raios espectrais.

FLÉXA RIBEIRO.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 22 ago. 1928, p. 1.

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