. RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 20-21 ago. 1928, p. 1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 20-21 ago. 1928, p. 1.

De Egba

Um renovador: E. Visconti - H. Cavalleiro e o caldeirão de Picasso - Antonino Mattos e o estilo francês pré-impressionista - Os contrastes de Pedro Bruno e sua ojeriza às pernas - Um pesquisador: Pedro Rossi [sic] - Será caso de expectação?

POR

FLÉXA RIBEIRO

Creio que já tive interesse de expressão em escrever, certa vez, ser Elyseu Visconti, dos nossos pintores, o mais ardente espírito de evolução: havendo já, na pericio [sic] de sua compreensão, dominado algumas das técnicas bem características de nossos tempos, assimilando-as por completo.

Não cabe agora, em natural relato, cuidar de analisá-lo retrospectivamente, e assinalar, de seguida, como conclusão lógica, a sua preeminência, desse ponto, na pintura brasileira.

Na presente exposição, ele se destaca em vigor em eloquência em páginas como o Retrato e Para a escola (paisagem). No primeiro a solidez compreendida da figura, a sensação ótica das variações luminosas, são vistas com afinação vibrante, numa espécie de música translúcida. Apenas talvez a boca esteja feita demais para ar livre: e os vermelhos dos lábios desafinem um quase nada. No segundo a atmosfera dos dias límpidos, o arejado dos planos, as massas verdes das bananeiras, cuja tranquilidade herbácea contrasta com as manchas da traquinada que se protege pelo muro, tudo indica a palheta limpa.

Menos compreensível, como expressão de sentimento, achei a Igreja de Santa Tereza, onde o divisionismo parece não traduzir bem, na distância, o espaço entre o templo, e as vibrações coloridas da luz, tudo isso distante do observador.

Dir-se-ia que o mestre pintou uma igreja brasileira sob a recordação da atmosfera francesa.

Na Visita há uma densidade de massas, harmonias de tons que dão ao quadro uma espessura sensível, de onde se evola - é bem o termo - como continuado prazer visual. Apesar disso prefiro dos cinco trabalhos enviados, a paisagem e o retrato, pois encontro na visita as tintas com menos limpeza.

Quem examinar de perto a fatura de Visconti há de observar como ele trata a pasta com segurança e simplicidade, sem superposições, obtendo as resultantes das complementares pela justaposição, às vezes, para que a retina faça a síntese colorida dominante. Os empastamentos são plenos e postos com frescura e luminescência, em tonalidades ricas, de maneira que a composição toda é sempre clara, sem incidentes de superfícies que à distância conveniente se fundem, dando uma espécie de unidade tonaria [sic]: na própria luz as partes opacas, que exprimem as saliências, como nas sombras, as cores líquidas, as reentrâncias, - constituem uma dada diferenciação tonal de luz fria e sombra quente, dentro de cujo ambiente fluídico tudo palpite e vive.

Apesar de tudo isso, por vezes, como nos deserdados, sente-se que há certo ressecamento das cores, parecendo que estas perdem um pouco de transparência, e começam a obscurecer-se, como se o pintor não tivesse as mesmas facilidades de emoção.

No Retrato o estudo particular da luz, com os reflexos, as sombras luminosas onde há penetração das cores dos próprios corpos circundantes, constitui precioso documento para a nossa pintura.

Com uma palheta limpa, Visconti consegue exprimir modalidades sutis da matéria: e cada tela agrega uma série de pormenores típicos, dignos de estudo pormenorizados.

Henrique Cavalleiro é o mais completo discípulo de Elyseu Visconti. Nesta afirmativa não vai nenhuma conclusão restritiva quanto à personalidade do jovem pintor. Quis apenas dizer o quanto na compreensão da arte, os dois pintores, por meio da sensibilidade, se aproximam um do outro.

Ambos aceitam a natureza como uma realidade que somente se pode apreender pelo desenho de interpretação.

Para Henrique Cavalleiro a cópia quanto mais exata, mais afasta a verdade ótica; e por isso, como a arte é também artifício (Degas dizia que ambos eram enganadores) convirá encontrar aquele que melhor e mais fundo nos dê a transcrição da verdade.

Que seria um indivíduo, apenas dotado de imaginação reprodutora que nos narrasse fielmente, sem nenhuma alteração intensiva, um episódio por ele assistido? Não veríamos, plasticamente, nada da cena. Para que sejamos compartes da anedota será necessário que o narrador encontre os verdadeiros meios de transposição, reavivando a atmosfera que se formou, a quando do episódio, e que lhe deu a ele essa densidade comunicativa, essa espécie de interpsicologia contagiosa de onde resultou a dramaticidade ou comicidade explosiva do reconto.

Todos já compreenderam que ele precisa encontrar as sínteses fecundas.

Por esse lado, sigo com interesse as interpretações de Henrique Cavalleiro.

Eis por que lamento, por vezes, não encontrar por baixo das vibrações coloridas, desses acordes lúcidos de melodia que ele evoca a construção interna que é dada, como ele sabe muito bem, pelo desenho: segurança e prodígio dos instantâneos do mestre que acabei de citar - Degas - desenhando, pintando, compondo.

Nos envios deste ano, a par daquelas qualidades de colorista, nota-se certa aspereza em algumas formas: na paisagem (Rio) há, no entanto, ar e os planos se assinalam com sentimento. Mas já o mesmo não se dá com a Igreja de Magdalena, onde a confusão dos planos não nos faz nem ver, nem sentir o primeiro, se é água ou tapete, e se os barcos são de realidade, ou simples ilusão monocular do tecido. Para outro lado, o céu é vertical, endurecido, como cortina grossa que pouco a pouco se encrua.

Apesar de sentir que as harmonias de cores são mais finas e fluídicas na Igreja de Magdalena, prefiro ainda assim a paisagem carioca, menos moderna, mas onde o desenho de interpretação não foi escondido pela sensualidade exclusiva das cores.

No Retrato de um amigo, Henrique Cavalleiro encontra soluções excelentes para traduzir pelas massas, em planos francamente acusados, todo ciclo moral da expressão do personagem no instante pictural que é o resumo de uma série de momentos da duração daquela individualidade.

Atacado em plena pasta é de uma fatura larga e saborosa. No retrato de O pintor há apenas um estudo: e acredito que nele não se chegou à conclusão psíquica necessária, embora o sumário das indicações talvez esteja a indicar mais um degrau na evolução do artista, como se ele se aproximasse medrosamente dos empastamentos cézannianos, pois não no acredito aspirando o caldeirão de Picasso...

O Sr. Antonino Mattos que se tem distinguido pela elegância de suas composições escultóricas e sobre as quais me tenho manifestado francamente, ora no gabo, ora na anotação reservada, figura na seção de pintura.

Aparece, no atual Salão, o estatuário, com três telas. É uma modalidade a mais do talento do Sr. Antonino Mattos. Embora não seja nova, evidencia que a sua curiosidade em traduzir a natureza procura mais de uma arte. As três notas do Sr. Antonino Mattos, como era natural, revelam aquela mesma sensível delicadeza das obras estatuárias. Um envolvimento sutil esbate as próprias tonalidades dos primeiros planos. São composições que lembram o estilo francês de antes do impressionismo francês. Sente-se ainda a hesitação: é que o Sr. Antonino Mattos não se acomoda facilmente com o estado atual da pintura. Ele prefere, por temperamento, os processos anteriores a Cézanne.

Se procurasse encontrar o termo justo para defini-lo, diria ser ele um intimista.

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A evolução para o Sr. Pedro Bruno foi curta. Pelas obras expostas este ano logo se verifica como o pintor se enfileira entre os seduzidos pela representação de alegorias decorativas. Dos seus quadros o mais importante é Beethoven: obra infeliz tanto pela pobreza da composição, como principalmente pelos erros de construção. Que se há de dizer do excelso músico que além de surdo acabou perneta no pincel de Pedro Bruno? Se não podia resolver o problema da perna direita, deveria, talvez, escondê-lo até a cintura. Além disso, não há horizonte no quadro: os planos dos longes vêm ameaçadores sobre o observador. Não sei por que li, nessa alegoria sem significação, alguma coisa onde não há, propriamente, o desenvolvimento do bom gosto...

Para um “grande medalha de ouro” parece ser deficiente aquele atestado justificativo. No entanto, como são amáveis e saborosas as Gaivotas. Um pouco no gosto francês, o Sr. Pedro Bruno nos deu uma página decorativa fina, elegante, sugestiva, onde erram, na luz, alegrias de cores fundidas, e cuja aérea madidez, no símbolo da figura vaporosa, quase incorpórea que está de pé, derrama pelo ambiente uma carícia de árias musicais. Fica-se meio tonto com o contraste; mas a figura do primeiro plano, de costas para o observador, tudo justifica: ainda não teve a solução requerida: não vai também muito lá das pernas.

* * *

Já tive ocasião de referir-me, a quando de uma exposição individual, a Paulo Rossi. Ele concorre neste salão com três quadros: só isso é atestado de delicadeza e conveniência, A paisagem que agora figura já se apresentara na individual como uma das suas melhores criações.

De um modo geral só me cabe dizer o quanto se verifica, - e aqui ainda melhor pela natural comparação - como Paulo Rossi sente a matéria e compreende a construção da forma.

Há no Sono, como em Moinho Velho solidez, sem rijeza, o que é demonstração clara da inteligência na transcrição dos volumes na atmosfera.

Talvez em todas as telas se apresente a mesma rarefação de ar que ele imprime às suas composições, no desejo evidente, de dar-lhe individualidade marcante, evitando de tal sorte, qualquer sombra de confusão nos planos.

Ou será que ele se contente com uma espécie de ambiente geral, sumário, deixando, tanto quanto os ambientes parciais próprios a cada coisa, ou a cada parte do todo?

Apesar disso, sente-se logo o quanto aquelas obras são sinceras e indicam sem confusão um artista sensível e imaginoso, à pesquisa da realidade plástica, como síntese transcendente da beleza espiritual e ótica ao mesmo tempo.

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O júri deste ano (falo de seção de pintura) quis demonstrar que a natureza (pelo menos a humana) é cheia de fraquezas comoventes, mas inevitáveis: e eis por que foram aceitos os dois trabalhos do Sr. Angelo Prinzo. O estudo é uma ilustração ridícula, onde nem sequer se encontra o desenho na sua fase mais simples: tudo está no ar. O retrato de L. H., foi comprimido em prensa hidráulica. São produto de pura expectação: não foram gerados dentro da pintura.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 20-21 ago. 1928, p. 1.

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