. RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 19 ago. 1928, p. 2. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 19 ago. 1928, p. 2.

De Egba

O “prêmio de viagem”. Os 11 candidatos. Fala a esfinge. O selecionado: Portinari X Constantino. A lei de subordinação. Como se toma a natureza por uma convenção. A quem, este ano, deverá pertencer o prêmio. O julgamento de amanhã.

POR

FLÉXA RIBEIRO

Mais do que nos outros anos, o grande interesse do Salão é o “prêmio de viagem”. Concorrem, para 1928, Candido Portinari, M. Constantino, Sarah Figueiredo, Orosio Belém, Edith Aguiar, Orlando Teruz, Manoel Faria, Gastão Formenti, Gilda Moreira e Euclydes Fonseca.

Como se vê, os candidatos tornam difícil o juízo da comissão.

Naturalmente que ela já procedeu a uma espécie de prova eliminatória. Também acredito que já realizou uma primeira escolha daqueles que apresentam, evidentemente, melhor qualidade, tanto do ponto de vista técnico, como estético.

De tal sorte a reunião de amanhã, em que tudo deve ficar ultimado, estará grandemente facilitado por essa perícia inadiável de seleção primária.

Acredito ver que passaram pelos olhos da primeira crítica do júri apenas dois nomes: Portinari e Constantino. Entre os dois pintores será decidido o pleito. Qual vencerá?

No momento em que escrevo, julgo que a própria comissão não poderia responder.

É que ouço aqui do lado, a voz da Esfinge jornalística a segredar-me, em tom alto, se é possível: decifra-me, ou eu te devoro.

Por um exame direto dos trabalhos apresentados, evidentemente, com elementos diferentes, aqueles candidatos se equivalem: as presenças e ausências de valores estéticos, pesados, dariam talvez um índice aproximado.

Sucede, porém, que nada é igual na natureza: ninguém consegue a repetição.

Eis por que acredito ser possível estabelecer algumas diferenças entre os dois mais fortes concorrentes: M. Constantino e Portinari.

Há, de toda segurança, um laço que os irmana: ambos tomam, em certa dose, a natureza por uma convenção.

E, partindo desse conceito metafísico, vestígios de aprendizado, ambos acreditam que certos pormenores de construção pictural, carecem de importância, e, ou os substituem ou os transformam, sem conseguir, de tal sorte, concretizar a resultante expressiva. Assim, todos os fundos das telas exibidas nem só são “arranjados”, como não foram observados atuando sobre os motivos principais.

O fundo de um quadro é elemento ativo de vida, de desenvolvimento, físico do assunto central da composição. Não se pode de tal sorte, pintá-lo convencionalmente, ou neutralizá-lo por completo.

Ou quando se faça que se mergulhe os seres e as coisas temáticas naquela mesma atmosfera convencional para ao menos chegar-se à unidade legitima.

No retrato de R. J. (óleo), a subordinação da natureza à convenção foi ao extremo. E o Sr. Portinari nos apresenta mesmo do ponto de fato da matéria, uma homogeneidade falsa, como se o pintor procurasse propositalmente dar-nos a sensação do postiço.

No entanto, no retrato de O. M., ele se liberta dessa convencionice, como que readquire a sua liberdade interpretativa, e realiza uma obra fina, de espiritualidade nervosa, onde um desenho elegante se evidencia, dando a compreender a relação entre ele e a cor.

O verde da farda se enaltece, nos seus tons graves, pelo ensurdecimento opaco com que os dourados se embaçam. Não querendo obter resultados fáceis com o brilho dos outros, o Sr. Portinari marcou bem a tônica cromática, dando a reversão dos valores na superposição dos verdes e dos dourados, quando aqueles, sob a ação destes pareciam descer demais na escala dos valores picturais.

Na composição - Retratos - as três cabeças não estão sujeitas a uma regência suprema: e daí a fraqueza no princípio de ordem de onde resulta sempre a clara harmonia. Apesar disso, cada figura, vista individualmente, ou mesmo na alternância, apresenta individualidade; a fatura se elastece e encorpa com vigor.

Convirá, no entanto, resumir: Candido Portinari é dotado de sentimento delicado de pintor: sem o querer, é um tradicionalista. O retrato de O. M. é uma das obras mais definidas do salão deste ano.

M. Constantino é mais variado no conceito que faz das transposições da natureza. As suas qualidades de artista o levam a procurar compor com certa movimentação. Infelizmente, o seu grupo da Morte de Mimi, como o de Portinari (um pouco menos!), não chega a focar o momento dramático, de maneira elástica.

Realizou uma página literária: há descrição e não síntese evocativa. As figuras são exteriores. Além disso, não se encontra facilmente a oração principal daquele trecho da Vida de Boêmia. Vê-se que M. Constantino sentiu aquele instante humano através de impressões de leitura.

Já na Dama das Camélias há um esplendor de tonalidades muito atraente. A seda do traje de Margarida Gautier, nos seus argênteos-plúmbeos, rebrilha de ondas luminosas. A figura, embora não esteja bem pousada, apresenta, no entanto, um certo abandono que a torna viva, na sua própria melancolia, ou no seu silêncio ativo.

Como este ano M. Constantino não se apresente com mais adições de novas qualidades, do que nos anos anteriores, e como ainda Portinari se exiba, com alguns carvões enérgicos e incisivos, além dos quadros já referidos, estou daqui a sentir como o júri poderia preferi-lo para a consagração deste ano.


Imagens

CANDIDO PORTINARI

M. CONSTANTINO (Auto retrato, especial para O PAIZ)


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 19 ago. 1928, p. 2.

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