. RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1928, p. 4. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1928, p. 4.

De Egba

(Conclusão da 1ª página)

De há muito que espero uma boa indicação para me referir ao Sr. Oswaldo Teixeira, depois que chegou do cumprimento do prêmio de viagem.

Não conheço, no Brasil, caso algum pictural, semelhante ao de Oswaldo Teixeira. De começo, ainda mal conhecido, foi tido como um gênio. Durante esse período, ou pouco depois, tive ocasião, nestas mesmas colunas, de criticá-lo com minha habitual franqueza. Lembro-me ainda de tê-lo advertido das fauces hiantes que se abriam diante dele...

Quando regressou de Europa, logo vi que Oswaldo Teixeira havia em certos casos piorado. Piorado, de quê? Indagará o leitor.

Do abuso que fez das facilidades automáticas, Oswaldo Teixeira não consegue refrear a sua habilidade; e a torrente se despenha.

Convirá desde logo afirmar que não conheço, a não ser Pedro Américo, no Brasil, outra imaginação pictural, como a de Oswaldo Teixeira: ampla, sonora, decorativa.

Quando se vê, porém, o estilo em que a galopada imaginativa foi transcrita, fica-se vexado como diante de uma formosa mulher, de cores vistosas, rica de saúde, que pregasse diante de nós mentiras sensacionais, jurando que tudo era verdade, e com ela se havia passado.

Eis por que as telas de Oswaldo Teixeira são difíceis de julgamento: diante delas, a abundância, a facilidade, a jorrante energia criadora, logo nos dominam: sentimos no transbordamento daquele lirismo empolgante alguma coisa de excepcional no mundo de nossa pintura; e por outro lado, a falta de coerência moral na interpretação de natureza, em várias telas, nos leva a ver no seu autor, pelas surpresas inauditas, como um prestidigitador, um ilusionista da pintura: homem maravilhoso que come brasa e puxa fitas das mais rutilantes cores.

Quando se entra numa galeria, onde ele está, ninguém o pode deixar para depois: atrai e domina pela virtuosidade exuberante, pela largueza fácil de fatura, por uma espécie de espessura inconfundível das superfícies coloridas, que o caracterizam na diversidade impaciente em que se manifesta, de composição para composição.

No presente Salão, os Pescadores Brasileiros realizam o que há de mais sincero em sua técnica: espaço, ar, luz, sombras coloridas. - Quadros como o Vitórias Régias testemunham impressionante verve decorativa, ridente tumulto de cores, mas ausência do sentimento da matéria, pelo menos nos elementos mais característicos do quadro: as vitórias regias não parecem seres vegetais: dão-nos a sensação fácil de pratos fundos de couro flutuantes.

Por vezes, como no Frutos Tropicais, Visão Veneziana, O poeta de Deus, São Sebastião do Rio de Janeiro, sente-se o orador que perde o sentimento próprio da eloquência, e fica algo retórico, com tremura na voz.

Mas, seja como for, - com as irregularidades, altos e baixos, no que ainda mais se assemelha a Pedro Américo - Oswaldo Teixeira, amordaçando a habilidade ilusória, retemperando os seus dotes generosos de pintor na observação inexorável da natureza, não se satisfazendo com o aproximado, nem com a enganadora supremacia da criação sobre a execução, há de verificar o lugar de excepcional destaque que o destino reserva, seguramente, à sua juventude pródiga, do quadrante da pintura brasileira.

* * *

Das notas sentidas, luminosas e frescas, deste Salão, entre os novos, convirá destacar alguns dos envios dos Srs. Mario Nunes, Nelson G. Netto e Cesar Turatti. O Sr. Mario Nunes manda-nos duas marinhas do Recife, francamente acusadas de ar livre, autênticas de cores, numa vibração colorida muito alegre e muito cheia de reflexos. É do bom impressionismo. Já o Abandonado se apresenta um tanto cru, em pastas secas, sem unidade de superfície, e particularmente sem espírito.

Quanto ao Sr. Nelson Netto há nele uma sinceridade pictural muito agradável, e que bem se revela, no esboço do Painel Decorativo, não só no tocante à composição das figuras, como mesmo, pelos outros quadros, no que diz com a afinação das cores.

O Dia Tropical, do Sr. Turatti, é bem iluminado, num ambiente típico: e o sabor decorativo areja o arranjo pictórico de uma sensualidade vaporosa e lânguida, em que a mulher, os papagaios, a cadeira de vime, tudo se funde em claro harmonioso, luz colorida, tépida e macia.

O Sr. Justino Migueis vem demonstrar que o assunto nada vale; a execução é tudo. O seu Camões na Ilha dos Amores não devia ter sido aceito pelo júri que se anunciou tão severo. É uma obra infantil, em que nem o autor revela conhecimentos de composição, e menos ainda treino elementar na arte de interpretar a matéria.

Camões na Ilha dos Amores trouxe-nos apenas à ideia um fato, passado há muitos anos em Lisboa. D. Pedro de Mello, fidalgo e homem de esbórnia, modelou, em cera, segundo a técnica do museu Grevin, um Camões agonizantezinho, deitado na enxerga. Junto, Jáo, de joelhos, recebia o último alento do cantor dos Lusíadas.

Expôs o grupo. A concorrência foi considerável. Entre os primeiros visitantes estava Theophilo Braga, tido e havido como especialista camoneano.

Theophilo examinou detidamente a cena patética, e depois chamou à parte o autor daquela maravilha e disse, com alto acento de sabedoria:

- D. Pedro de Mello, sua exposição é admirável. O grupo que modelou está irrepreensível. Mas há um pequeno anacronismo que destrói tudo.

- ... ?

- É que Jáo morreu antes de Camões.

Dois dias depois reabria-se a exposição. E, via-se Camões, de joelhos, recebendo o último alento do escravo Jáo...

FLÉXA RIBEIRO.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1928, p. 4.

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