. RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1928, p. 1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1928, p. 1.

De Egba

UM MESTRE: HENRIQUE BERNARDELLI - OSWALDO TEIXEIRA E O PERIGO DA HABILIDADE - TRÊS NOTAS CLARAS: MARIO NUNES; NELSON NETTO; CEZAR TURATTI - CAMÕES E JÁO...

Se a crítica deve ser sincera, imparcial, e apaixonada nessa sinceridade, em se tratando dos jovens expositores , não vejo como atenuar aquele juízo quando se cuida da análise flagrante de um mestre, cuja tradição artística é uma das glórias da pintura brasileira. Refiro-me, como é fácil de se compreender, ao Sr. Henrique Bernardelli.

Dos pintores formados durante o ambiente tutelar do segundo império, o nome de H. Bernardelli é dos mais consideráveis. A pinacoteca da Escola Nacional de Belas Artes abriga algumas de suas telas famosas.

Não cabe agora, aqui, desenvolver comentários em torno desse período. Quis apenas assinalar a importância do pintor, principalmente do mestre, do ponto técnico de referência. Várias gerações têm sido amestradas pelo seu esforçado e vigilante zelo.

Tanto quanto afastado do meio artístico que mais se congrega em torno da Escola Nacional de Belas Artes, Henrique Bernardelli aparecia pouco numeroso, e às vezes, nas exposições gerais.

No certame deste ano, vemô-lo num total de 28 telas, e destas 24 são retratos.

Para o nosso nascente meio artístico semelhante volume de envios impressiona, e causa segurança pela revelação de capacidade fecunda do mestre.

Dizendo minha admiração pelo técnico, meu respeito pela obra do pintor, fico inteiramente livre para tentar analisar as telas enviadas este ano ao salão.

Dizer desde logo que o resumo explícito de impressões causadas pelos 48 [sic] quadros é triste, - traduz apenas a realidade iniludível. O Sr. H. Bernardelli quis com a sua teoria de retratos, das mesmas dimensões, quase com o mesmo colorido em fundo uniforme, demonstrar ser possível retratando 21 alunos, dar a todos sensações visuais de imagens decompostas pelo cinema: há em todos eles evidente propósito de homogeneidade e monotonia fisionômica. Não me refiro, é claro, à semelhança que, como se sabe, é o privilégio secundário do retrato. Quase todos eles são frios, apáticos, como se fossem figuras inexperientes no campo da expressão psicológica.

Ninguém negará o que se sente do pintor, numa largueza de fatura: mas quanto também se há de observar de inexperto e descuidado no tocante às composições, ao arranjo cênico mesmo uma vez que se não queira falar na arte relativa de compor. Aquela dama que se encosta a uma coluna sobre a qual se instalou um vaso de flor é francamente homenagem aos antigos processos fotográficos de cidades provincianas.

Não acredito que o Sr. H. Bernardelli esteja em decadência. Em quadros como o seu auto-retrato, e principalmente o retrato de R. Bernardelli (o melhor dos seus envios deste ano) há lucidamente surtos de energia e facilidade picturais. Mas para 48 [sic] quadros, num salão só, talvez seja superabundância tanto quanto impávido demais.

Será que os pintores, como os artistas do canto também perdem o registro do timbre de voz, com o decorrer dos anos? Nestes casos será preferível cantar menos, mesmo porque não se notará tanto que o tenor está ficando abaritonado.

No próprio retrato de R. Bernardelli, com todas as boas qualidades afirmadas francamente, um espírito indiscreto não poderia perguntar porque a mão direita (que deve estar no primeiro plano) aparece prodigiosamente maior que a outra? Será a destra o símbolo do escultor?

Acredito que o pintor em se policiando um pouco mais, e limitando a sua remessa, ainda terá luminosas oportunidades de destruir, com vigor, algumas destas afirmativas.

FLÉXA RIBEIRO.

(Conclui na 4ª página)


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIBEIRO, Fléxa. SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1928, p. 1.

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