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RIBEIRO, Fléxa. PEQUENA CRÔNICA DE ARTE. O Paiz, Rio de Janeiro, 19-20 ago. 1929, p. 5.

De Egba

SALÃO DE 1929. A PAISAGEM BRASILEIRA: LUCILIO DE ALBUQUERQUE

Por FLÉXA RIBEIRO

Julgo que haverá toda conveniência, agora que o salão comemorativo do centenário de exposições gerais obtém justo sucesso, em fazer uma pequena pausa, e focalizar intencionalmente o problema da paisagem no Brasil.

Há vários anos que insisto na demonstração da ausência de caráter específico do que se pratica entre nós, naquele gênero. Tenho repetido, por vezes sem conta, que os nossos paisagistas trazem a receita francesa, e com ela se estafam em pintar a natureza tropical. Ninguém olha para a paisagem carioca, por exemplo. Pintamos, obedientes à geometria, uma série de volumes e massas inscritos, bem ou mal, mas que não estão dentro da atmosfera do Rio de Janeiro.

Lucilio de Albuquerque, que tanto tem evoluído, ele mesmo, ainda não conseguiu penetrar esse mundo de sol, onde há pouca luz.

Outros que o tentaram, com Hans Paap e Príncipe Paulo Gargarin, caíram num maneirismo oposto do que até Baptista da Costa se praticava. Se escaparam daquele pormenor quase fotográfico, tanto quanto convencional, e trataram a natureza pelos seus grandes volumes, tudo visto à distância, panoramicamente, mergulharam nas cores berrantes, nas pastas espessas de sombras inverossímeis.

Se olharmos para a natureza brasileira, principalmente da terra carioca, não encontramos aqueles verdes, nem aqueles azuis, ou mesmo violetas esbraseantes. Em tudo, na distância, há verde gris, azul gris, róseo polvilhado de cinza: como que um véu grisalho flutua por sobre os montes de verdura ou pelas encostas escalvadas.

A visão de um Rio de cores vivas é uma ideia tropical: porque habitamos esta zona, imaginamos - talvez por vício literário - que o colorido aqui sobe à tonalidades inauditas.

No entanto, a luz branca dissolve as cores, e deixa, através de sua vibração molecular, para o reenvio ótico uma série de tons gris que forme a dominante policromática da natureza em que vivemos.

Lucílio de Albuquerque se reconciliou com a paisagem nacional depois de sua viagem à Bahia. No entanto, ainda não conseguiu desfazer-se de certos preconceitos picturais. E eis por que o vemos empastar demais as sombras, quando deveria fazê-las ligeiras, deixando essa fatura de preferência para a luz.

Enquanto não se convencer de que esta é fria e as sombras são quentes, cheias de vibração colorida, não terá penetrado por completo no enigma da paisagem.

O seu esforço é dos poucos que seguem uma evolução lógica, procurando ler com olhos de visão larga o ambiente de ar livre onde as massas nadam.

Desse ponto de vista, a Pescaria em Icaraí é significativa. Desde o primeiro plano a atmosfera de ar livre, ar da praia, se faz sentir, e por todos os planos ela se acentua, numa monocromia de luz, onde se insinua a vibração policrômica diluída, ondulante, vaporosa, arejada.

Com algumas restrições aos personagens da cena litorânea, é essa uma das melhores telas do salão deste ano. Todo o fundo está sentido, com a cadência livre de uma visão de paisagista, onde os volumes se harmonizam no arrière-plan, indicando uma grandeza panorâmica cuja unidade fala por emoções eloquentes.

Na Gávea, o pintor teima na mesma fatura de sombras espessadas, como crostas, sem permeabilidade. A Figueira de Belém Velha, já a luz é mais fina, menos intensa, mais colorida. Mesmo aí, onde há menos umidade, ar mais seco, fixou-se não sei que de duro que tirou à matéria, à epiderme das coisas, essa elasticidade móbil que daria a toda a paisagem o envolvimento peculiar às tonalidades de ar livre.

Lucilio de Albuquerque é artista sincero, que se renova de quando em quando, na pesquisa, na retificação do que vê, dominando, cada dia, pela conquista de mais uma parcela de verdade.

Sem sair dos dotes inerentes à sua personalidade já definida, o mestre brasileiro há de nos dar, enfim, pela tenacidade na observação, o retrato animador, o flagrante emotivo do mundo luminoso que nos cerca - difícil, grandioso, totalmente diferente do que em Paris se ensina como sendo interpretação da paisagem, sob as dominantes do sol tropical.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

RIBEIRO, Fléxa. PEQUENA CRÔNICA DE ARTE. O Paiz, Rio de Janeiro, 19-20 ago. 1929, p. 5.

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