. RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926 - O "VERNISSAGE" DE ONTEM. O Paiz, Rio de Janeiro, 12 ago. 1926, p. 1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926 - O "VERNISSAGE" DE ONTEM. O Paiz, Rio de Janeiro, 12 ago. 1926, p. 1.

De Egba

As direções da pintura brasileira - Clássicos ou inovadores? - Algumas figuras: Visconti; Georgina de Albuquerque; Henrique Cavalleiro; Orthof; Timotheo - Uma promessa: Jordão de Oliveira - Dois novos: Rocha Ferreira e Ivone Visconti

Como um prefácio

Numa inspeção rápida e sumária que ontem fiz à Exposição Geral de Belas Artes, logo me veio a certeza de que o salão deste ano se apresenta elevado de um grau em relação ao seu vizinho último.

Embora tenha havido excessiva tolerância no julgamento das obras expostas - pois há monstros que não deveriam figurar ainda num certame "independente" - deve-se confessar que, em geral, o conjunto se oferece em condições de melhor equilíbrio. Especialmente em relação à pintura.

Quanto à orientação dominante entre os artistas brasileiros - particularmente entre os novos - não posso deixar de verificar a falta de princípios diretores, como também a ausência de total liberação.

Por mais de uma vez já afirmei - e com que agrada íntimo - que não dou a menor importância às escolas. Só me agradam os temperamentos.

Prefiro uma vocação inicial pronunciada, uma sinceridade viva, pronta e receptiva, com vários erros típicos de execução, a uma figura apática, fria, antipaticamente correta.

A perfeição, do ponto de vista da rigorosa correção - é própria dos medíocres.

Só eles não erram. O gênio é caracterizado pelos bruscos e admiráveis contrastes de proporções de grandezas ainda nas pequenas coisas.

O que, porém, não se compreende é o meio termo. Detesto essa indecisão; espécie de amadorismo, em que o indivíduo só se afasta do clássico porque não tem forças para segui-lo.

Quando pode compreendê-lo, copia-o, acompanha-o; é o seu discípulo; se não tem capacidade para tal cometimento, renega-o. E começa, então, a escamotear o trabalho, fugindo das dificuldades por meio de embustes na fatura, com gaguice de quem não sabe falar. Carrega nas sombras, funde fragmentos, que deviam ser modelados, nas trevas enganadoras. E com essa traição técnica acredita-se ultra-moderno: e, nesse capítulo, não há necessidade nem de saber desenhar. Ainda quando se encare o desenho, não como representação caligráfica, nem mesmo como tradução das formas, mas como transcrição interpretativa.

Ora, precisamente entre os novos expositores é o que se nota. Eles não tomaram ainda as rédeas da montaria; ora galopam, ora trotam, mas é sempre o corcel que os conduz: como cavaleiros, não têm iniciativa, nem na direção, nem na arrancada.

Daí, algumas tendências se encontrarem apresilhadas, sem liberdade para os surtos veementes da personalidade.

Se a pintura não é o retrato da vida, no espelho vivo de uma alma, então mal chegará a ser mero brinquedo, de interesse precário.

Eu desejaria que o Salão trouxesse, na maré montante de suas águas, essas flores marinhas, bizarras, que indicam logo a existência de raízes fundas, bem mergulhadas no leito vermiculoso, como valisnerias spiralis, capazes de se desespiralarem, uma vez fecundadas, e de novo volverem ao solo submarino para a alegria da germinação de outros frutos.

Algumas figuras

Pelo modelado, pela solidez, e por esse sentimento particular na densidade da matéria, - logo se destacam, no Salão, os quadros do Sr. Visconti. São qualidades primaciais que se não adquirem facilmente, e que, por si sós, revelam, na significação própria do termo, um pintor. Como não costumo ocultar meu parecer, devo declarar que à alegria simpática das tonalidades preferenciais do artista falta uma correspondência de emotividade, que às vezes, dá às suas telas certa aparência espectante, e não atrativa. O caso é tanto mais curioso, quando o Sr. Visconti não vê as coisas como "motivos" frios; seu olhos de colorista circundam a forma, tomam-lhe a temperatura; sentem-nas banhadas na luz colorida.

Parece, porém, que, depois, o artista se oculta, foge em dar-se todo, e procura ser contemplador de sua própria criação. Dir-se-ia que se guarda para obras de maior envergadura.

Como é ele dos nossos pintores de maior vulto, o que há evoluído constantemente, havendo a sua fatura assinalado um temperamento múltiplo, amplo e sagaz, devemos esperar de sua politécnica trabalhos em que todas as suas ricas qualidades se encontrem na fusão de sentimento alto, veemente, representativo.

Nesse particular, o Sr. Henrique Cavalleiro é bem expressivo, não se esconde; é verdade que ele vai dos erros e confusões de planos à simplificação deliciosa, comovida, como a que apresenta no retrato do Sr. Hernani Irajá. Mas aquelas faltas não no impedem de revelar, nas suas paisagens, essa jubilosa claridade, essas carreiras voluptuosas dos azuis e dos amarelos que erram, aqueles, entre os vermelhos e os violetas e estes entre os laranjas e os verdes esmaiados. Se seu desenho por vezes claudica, suas cores são sempre afinadas, cantam uma lírica suave e vigorosa ao mesmo tempo.

Como D. Georgina de Albuquerque é um dos nossos melhores pintores, ela me permitirá que, com os meus aplausos à sua sensibilidade, às audácias felizes de suas composições - eu lhe manifeste o pesar que tive em ver nas telas que expõe os nus diáfanos; as carnes estão transparentes, como se fossem estranhamente iluminadas por dentro.

Mas, por outro lado, quanta frescura nos tons, quanta riqueza na decomposição das cores! Por vezes, a irraliação [sic] de seus verdes cantam alto, sonoro.

Se uma forma exposta ao ar livre, num ambiente colorido, participa dos reenvios luminosos que a vibração conduz através da massa de ar, e se os azuis vão, à sombra, tomando tons violáceos, ou rubros-mauves, não acredito que a pele humana possuas os reflexos dos metais. Este seria um ponto a merecer algumas considerações.

Um pintor de ar livre deverá ser um realista? Como todos sabem, a pintura impressionista (que melhor divulgou estes processos, sob a influência do físico americano N. H. Rood), chefiada por Monet, Renoir, Sisley e Berthe Morisot, não admite outra interpretação senão aquela que a retina absorvia da realidade.

Como, de fato, não vemos com frequência corpos nus, num jardim ou num bosque, talvez se possa acreditar que os pintores deixam, em tais telas, tanto quanto de sua imaginação.

Haverá realmente estudos de ar livre, como entendiam os mestres impressionistas?

Ignoro as precedências picturais do Sr. Orthof; mas, de suas telas há duas notas bem interessantes, de harmonia originais e simples, tratadas em plena pasta, com sombras ligeiras, que revelam, nem só um conhecedor do ofício, como técnica moderna, onde o modelado dá às superfícies coloridas o volume necessário e suficiente.

Por vezes, a luz que ele fez valer fica um pouco raspada, secando de leve algumas formas que se recortam.

Mas há ali olhos alertas e mão prestamente disciplinada. É uma pintura com certa largueza, e posada de uma só vez.

Já há dias mencionei, no "Salão dos Novos", uma tendência: o Sr. Jordão de Oliveira. Ainda aqui só agrado me causa verificar que não me enganei. Há dois quadros seus bem significativos de uma juventude inclinada à pintura. O retrato a "gris" está modelado com franqueza: ele ataca as dificuldades com o desejo interessado de vencê-las, e não de escondê-las para iludir.

Parece sincero no que faz. Infelizmente, além desse retrato e de um tipo de caráter que apresenta, vejo-o figurar no Salão deste ano com outro retrato, a meio corpo, onde o tratamento é falso: as formas estão escorridas e não têm profundidade.

Só uma coisa lhe posso dizer: fuja das facilidades e das coisas bonitas. Busque nos seres o caráter: sinta-o, faça-o seu, transcreva-o, procure ver justo, e seja sincero.

E acredito que a arte brasileira (a verdadeira, e não a imitada) poderá esperar ver no Sr. Jordão de Oliveira, não muito tarde, um pintor.

Já que falo de "novos", conviria também mencionar, nesta rápida resenha, o Sr. Rocha Ferreira, que promete algo, segundo as falas com que se revelou, este ano, no Salão: é um retrato, em pé.

Quanto aos "premiáveis" para viajar - o Sr. Constantino e o Sr. Candido Portinari - convirá tratá-los com mais demorada observação, pois as qualidades e os defeitos, entre ambos, parece que se equilibram, não sendo fácil, para não ser injusto, assinar, desde logo, a preeminência.

Não poderá, porém, encerrar esta primeira crônica das artes - feita sob a fuga das impressões - sem indicar o nome de Ivone Visconti, que expõe, principalmente, um retrato que merece a atenção e a estima dos que se interessam pelos jovens temperamentos.

E também me apraz concluir com louvores ao Sr. Timotheo [João Timotheo da Costa] - de que tantas vezes tenho divergido - pelo retrato de homem que apresentou: original na posição, como na maneira de paginar, cheio de certa vida, e que contrasta com vigor com o outro retrato, de mulher, do mesmo autor, e onde uma cabeça flutua sem corpo, num vago mar de cores que se esbarram sem fusão e sem conseguirem, pelos valores, dar vulto às formas, nem marcar os volumes nos planos.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926 - O "VERNISSAGE" DE ONTEM. O Paiz, Rio de Janeiro, 12 ago. 1926, p. 1.

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