. RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926. O Paiz, Rio de Janeiro, 14 ago. 1926, p. 1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926. O Paiz, Rio de Janeiro, 14 ago. 1926, p. 1.

De Egba

AINDA A PAISAGEM BRASILEIRA: FANZERES E PAULA FONSECA - OUTRAS FIGURAS: BRUNO; GUTTMAN; SARAH; SYLVIA MEYER; TERUZ - OS CONCORRENTES PRINCIPAIS AO PRÊMIO DE VIAGEM: CONSTANTINO E PORTINARI

Ainda a propósito do que ontem disse, referente à necessidade de uma outra interpretação da paisagem brasileira, vejo agora que o Sr. Levino Fanzeres apenas confirma a regra. As suas paisagens, de um certo sentimento delicado, são também sombrias. Em Efeitos de Sol, se o contorno geral é bom, a árvore que domina a composição foi vestida, na fronde, de cor convencional. Custa a crer que o pintor ativesse [sic] estudado do natural. Não é bem o mesmo que se dá com Recanto poético: o colorido parece mais justo, e o sentimento mais evidente; no entanto, uma certa indistinção nos planos perturba a visão binocular do observador que encontra dificuldade em repousar no elemento dominante.

Dos quadros do Sr. Guttman Bicho, um sincero no trabalho que executa, prefiro o Ar livre. É uma paisagem larga, clara, cheia de ar, e onde as cores se acordam em tonalidades amáveis; há um pouco da influência dos neo-impressionistas. Infelizmente todas essas apreciáveis qualidades, que numa tela culminam, são destrocadas pela figura do primeiro plano. A dama parece inteiramente fora daquele ambiente. Não respira nem vive na atmosfera que envolve o jardim: parece ser criatura habituada aos campos rarefeitos. Para trás, bem para trás, vive o ar respirável!

Quanto lucraria a composição se a figura humana, não lhe tirasse a significação panteísta?

Quem observa, com um pouco de atenção, a obra do Sr. Bicho, logo verifica que o seu desenho é fraco. Não que eu me agarre a força mágica desta palavra - desenho; em todo caso, para dar volumes, e mesmo para distribuir as cores, nos efeitos dos valores, é indispensável a capacidade de dar o rendu das formas.

No caso presente, como que se deseja logo indagar se realmente aquela figura foi estudada, no conjunto da composição, se ela foi executada ao ar livre, ou pelo menos se à sua presença, o pintor anotou os valores nas transições do colorido...

De sua viagem à Europa, o Sr. Paula Fonseca trouxe ao Salão duas paisagens: Mercado de Florença e Recanto do Jardim de Luxemburgo. Melhor este: onde as pastas foram postas para efeitos sumários. E além do mais há certo encanto espiritual, naquela doce tranquilidade. A de Florença está um tanto seca, como se tivesse sido muito trabalhada nos últimos planos. O que, aliás, e ainda bem, já não foi observado no friso, com um baixo relevo, que contorna o edifício do mercado.

D. Sarah Figueiredo toma destaque no Salão, com dois retratos: prefiro o do Dr. Amaury de Medeiros: tem certo caráter, tanto quanto impressionista, elegante e pouco vulgar na paginação. Parece obra de influência inglesa. É de lamentar que ainda não esteja segura nos valores: e talvez por isso o corpo e as pernas da figura não têm muito vulto. E como as calças caem vazias, sem nada que as habite!

Outra pintora, D. Sylvia Meyer, ainda não se decidiu a abandonar uns restos de amadorismo. A menina e moça é joli, fria, tímida. Em Renards Bleus há interesse decorativo, o desenho das pernas marcam um progresso que as outras telas não faziam prever. Em conjunto, sente-se que todas aquelas criaturas bonitinhas não vivem: a energia interior as abandonou, e elas para ali ficaram esquecidas...

Também o Sr. Teruz, em Perfis, revela falta de consistência na construção: tudo é mole, falho. É verdade que o pintor deu muito mais importância à arquitetura e aos acessórios do que à figura.

Não vejo novos traços de progresso no Sr. Pedro Bruno.

Apenas ele obtém maior equilíbrio, tanto nas harmonias das cores, como na distribuição das figuras. Quanto àquelas, quase se acredita tê-las obtido antecipadamente. É o que lhes empresta certa monotonia. Continuo a pensar que Pedro Bruno se entretêm muito com as expressões superficiais; pouco vê em profundidade: e talvez por isso sua obra tenha mais caráter decorativo.

Há nele uma espécie de romantismo da cor: e esse lado poético dá às suas telas certo encanto que chega a ocultar os enganos frequentes observados nos eixos de suas figuras.

Deixada expressa a minha admiração ao júri, por ter consentido na exposição de fotografias ampliadas e coloridas (como o retrato do desafortunado Baptista da Costa), passo ao ponto culminante destas notas: os dois candidatos mais fortes ao prêmio de viagem: Constantino e Candido Portinari.

Ambos são clássicos, se assim me posso exprimir. O Sr. Constantino parece, porém, mais pessoal: sua técnica é mais segura; define-se melhor. É também menos regular. O retrato do Sr. Corbiniano Villaça foi tão posado que ficou um tanto hirto. A harmonia de tons em azuis é encantadora. Mas a pele do rosto do barítono está quase vítrea. No entanto, a composição do quadro é original, e revela um conhecedor de certos segredos do ofício. Apesar disso, nada há ali de vida interior: aquele homem não pensa nem sente: está apenas sentado. A senhorita H. M. S., num tom de pérola delicioso, parece uma porcelana.

Na “Infância de Giotto”, o Sr. Constantino demonstra a sua imaginação, e revela-se pintor capaz de composições de maior vulto. É um artista que, mais tarde, ocupará lugar de pronunciado destaque na arte nacional.

No Sr. Candido Portinari a elegância do desenho, o romantismo de outras eras, sobrelevam as demais qualidades. É um jovem que ficou à margem da evolução pictural. Dir-se-ia um tradicionalista: mas sua fatura recebeu o influxo de certas modalidades da pintura moderna, onde também aquele sentimento predomina. E não é outra a razão que o levou a filiar-se a Zuloaga, mestre que sempre se conservou estranho às correntes que revolucionam a arte desde o Impressionismo.

Sua sensibilidade fina, leva-o a assimilar com facilidade as dominantes expressionais de certos artistas. Dos dois retratos que expõe, o de O. M. É mais sincero: as tonalidades violáceas, com modulações levemente lilases dão ao fundo de sua tela qualquer coisa que não deve ser bem de seu temperamento. O de R. R. Não tem o devido volume, e as cores desafinam: a figura se recorta quase sem relevo. E a importância que ele deu, talvez sem querer, aos acessórios - capa, bengala, chapéu, - desviam a atenção do observador. O quadro não tem foyer. As coisas secundárias beberam a principal.

São tropeços naturais, em quem se constitui ainda. Mais do seu sentimento, muito devemos esperar: alguma coisa da alma florentina tenta renascer nesse adolescente que é, desde já, um espiritualista.

Como aqui falo de retratos, não devo esquecer que o Sr. Augusto Bracet oferece, no salão deste ano, o do Sr. A. B., onde, ao contrário da técnica habitual do pintor, a figura toma corpo e as cores se animam de certo vigor.

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Não posso concluir a crônica de hoje, sem um esclarecimento necessário. Como tenha sabido que espíritos malévolos procuraram emprestar sentido diverso ao que dei, às linhas finais da crítica anterior, convém esclarecer que as opiniões que emiti sobre o Sr. Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior] apenas se referiam ao juízo que faço sobre o valor artístico de suas telas.

Nunca desconheci o seu esforço, a sua tenacidade no trabalho. Sem modificar o conceito estético exarado, aqui desfaço qualquer outra interpretação, que se queira dar àquelas palavras, do ponto de vista moral ou social.

FLÉXA RIBEIRO.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926. O Paiz, Rio de Janeiro, 14 ago. 1926, p. 1.

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