. RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 ago. 1926, p. 1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 ago. 1926, p. 1.

De Egba

ESTÉTICA DA PAISAGEM BRASILEIRA - MUITO SOL E POUCA LUZ - DIFICULDADES TÉCNICAS - DOIS MÉTODOS - PORQUE A PAISAGEM BRASILEIRA É SOMBRIA, DESDE FRANZ POST - HANS PAAP E O PRÍNCIPE GARGARIN [sic] - UM ESCULTUOR QUE SE FAZ PINTOR: PETRUS VERDIÉ

A paisagem brasileira

Por mais esforço que faça o crítico, é difícil poder transmitir aos leitores, imediatamente, as suas impressões de certame artístico de certa monta, sem o instrumento necessário para fixar as suas observações: o catálogo.

Esperamos que em breve aquele guia indispensável seja posto à venda.

Eis porque não será descabido começar hoje por tratar, de um modo geral, da estética da paisagem brasileira.

Sempre que examino os nossos paisagistas, e desde Agostinho da Motta até o Sr. Paula Fonseca, logo me assalta o pressentimento de que a natureza brasileira ainda não foi compreendida na sua total expressão. E menos ainda pelos filhos desta terra do que pelos estrangeiros, como os Srs. Hans Paaap [sic] ou príncipe Gargarin [sic].

Quase todos, e sem excluir Baptista da Costa, empregam receitas europeias para traduzir natureza tropical, em tudo diferente das regiões de clima frio.

Acaso a dificuldade maior não virá da própria essência dos recantos a pintar, neste ambiente de sol?

Onde os trechos de meia luz, onde o sol se atenua, a vibração se colore, ainda com luz pictural, nas demoras das transições luminosas, permitindo ao paisagista fixar as tonalidades justas, e que se alucinam ao envolver certas formas?

Se o pintor vê tudo em perspectiva, são longas massas que se recortam no ar seco; a grandeza de volumes que perdem de valor se são postos na escala das dimensões da tela. Nesses vazios dos planos, as cores dominam, por momentos; mas tão rápidas são as transições que o observador se desespera no tormento vão de pretender anotá-las, naquelas densidades mesmas.

Se limitarmos o campo de nossa visão, e formos buscar o pitoresco, o paisagístico, dentro de uma relação de verticais e horizontais, como num registro certo, - a luz branca, quase sem colorido algum, claridade onde há mais sol do que luz, tudo decompõe, destrói, como se nada absorvesse, e tudo remitisse numa brancura que cega, estonteia e deslumbra.

Reconheço que é um problema de estética e de física cheio de apreensivas complicações.

Não pretendo agora desvendá-lo, sob a verdade meridiana da observação. Mas desejaria que os nossos pintores procurassem examinar esta particularidade de nossa atmosfera, e, depois, em consciência, verificassem se estes conceitos não traduzem uma verdade elementar. Dos dois métodos acima indicados, evidentemente o segundo é preferível: é o que indica a verdadeira paisagem, como gênero, e que se constituiu desde o advento artístico de Paul Brill.

Para aceitá-lo, o pintor brasileiro terá que mudar de técnica. A usada até hoje, e que no fundo ainda é a "poussiniana", meio itálica, meio francesa, - já está demonstrando não ser capaz de dar às transposições necessárias para sugerir a vida das coisas e dos seres na natureza pinturesca.

Com essa tremulante vibração molecular, em que os vibriões luminosos se propagam em galões veementes e rapidez alucinante, tudo banhado em remitências fulgurantes - só se poderá atingir ao espírito da paisagem brasileira, dando apenas as sínteses em tudo. "Representar o que se vê, e não o que é.

"Detalhar" as coisas, entrar nos pormenores das formas como ourives às rosas de uma jóia, é destruir a expressão dos conjuntos. E com o nosso sol excessivo, no deslumbre vertiginoso das cores que morrem - o paisagista só se deve ocupar com a simplificação de todo aquele caos luminoso para poder expressá-lo.

Desse ponto de mira, o príncipe Gargarin tem, de certo, melhor compreendido a natureza brasileira. Por vezes, como no Em descanso, que expõe no Salão, falta-lhe o poder de emprestar consistência à matéria, de dar peso às coisas pesadas. Sendo as qualidades de coloração que este seu quadro apresenta, em tudo diferentes do que se pratica entre nós, - é evidente que os barcos não estão construídos com matéria sólida.

As clarezas das coisas, só são vistas, assim, nas obras do Sr. Paap e do Sr. Cavalleiro: sendo que neste o processo é todo da escola francesa moderna.

Em geral, a nossa paisagem é escura, dominada pelos tons surdos. E os nossos paisagistas como que lhe emprestam colorido convencional.

Aqui convém relembrar o que já escrevi.

Pois é sabido que, desde Franz Post, toda a paisagem brasileira é sombria.

Será porque onde há muita luz há pouca cor? Haverá, como já afirmei várias vezes, um erro em se considerar o Brasil terra de paisagistas, só porque há excesso de sol? Ou ainda dependerá aquele fato da hora preferida, para se fixar o estado da natureza, ser frequentemente entre onze e três da tarde?

Mas quem nos diz que a verdade de semelhante fenômeno está em outra coisa? E, se procurássemos razão mais funda, quem sabe se não na iríamos encontrar, simplesmente, na falta de estudos mais conscientes do ar livre, do empório dos reenvios luminosos, dos reflexos ambientes, das complementares numerosas?

E, se o paisagista brasileiro sentisse predominantemente as massas, mas como os seus pormenores representativos, e sem as inúteis particularidades, e, assim, na sua execução, nos desse tão somente o total significativo? Porque afinal esse acabado do desenho, no pormenor - real, existente, mas não sintético - leva-o há por de certo, a dada perfeição acadêmica, escolar, mas com inevitável prejuízo da interpretação das correspondências, da clareza decorativa necessária, dos surtos emotivos e globais na transcrição das formas, do ambiente atmosférico livre em que elas vivem e se desenvolvem constantemente.

Toda paisagem é um ser vivo. Ser espiritual, que apenas se serve dos aspectos materiais da natureza, como a alma do nosso corpo, para falar, exprimir-se, significar, agir, amar, sofrer, viver. A paisagem habita em nós. Ela é sempre um panorama da alma, que os olhos podem contemplar. É como espelho em que os estados do nosso pensamento emotivo se refletem, e se irradiam.

Desse ponto de vista, a paisagem é mais do que a figura: é esta espiritualizada em numerosas essências pessoais, reveladoras, que germinam e florescem em ambiente decorativo. É uma sucessão de ritmos.

É larga transposição de valores, como se a própria paisagem fosse mais música do que pintura, mais arte dinâmica do que estática.

Cada indivíduo nela se revê e se encontra: e conhece-se a si mesmo.

Ainda na decorrência dos conceitos sobre a paisagem, conviria lembrar que o professor Petrus Verdié não se afasta muito da tradição francesa, mesmo nesta natureza tropical. No entanto, ele sabe que os orientalistas, com Fromentin à frente, e os mais pessoais, como Gaugain [sic] que se taitizou completamente, buscaram logo novas técnicas, mais de acordo com a regiões que se propunham a reproduzir.

Mas, o caso do Sr. Verdié é todo especial. Sendo escultor, e de longa data, só agora se dispôs a pintar.

Quem viu os seus trabalhos do ano passado, reconhecerá os sensíveis progressos que tem feito. Talvez que ingênita timidez o tenha impedido de atrever-se mais, ousar com tranquilidade emotiva, se assim me posso exprimir.

Do conjunto dos seis trabalhos que expõe, as desigualdades atestam o desejo vivo de aperfeiçoar-se. Ele busca com evidente propósito resolver a equação de seu temperamento e da natureza que o cerca.

De suas paisagens, eu prefiro Maisons, onde os pormenores o ocupam menos, e a coloração se afina mais. Le morne englouti, trabalho de maior vulto - foi feito" demais: em todos os planos as têm importância, são marcadas com vigor geométrico; a luz rarefeita, seca: e tudo isto lhe dá certo aspecto fotográfico pela exatidão exagerada. Talvez não me engane, dizendo-lhe que a transposição deve dar o que se vê e não o que existe, realmente.

Na natureza morta, o acabado das frutas tirou-lhes a densidade que resulta das captações das massas essenciais.

No entanto, La femme au Collier atesta excelente caminho na conquista da simplificação representativa. É um retrato tratado com certa largueza, sentimento dos valores: e as pastas se modulam com espessura, dando corpo às cores, e profundidade às formas. É aí que se compreende bem o escultor: pinta com o sentimento das três dimensões. É uma afirmação.

A crônica de hoje já se alonga: mas não posso deixar de referir-me aos desastres do Sr. Santiago [Manoel Santiago] e Almeida Junior [Luiz Fernandes de Almeida Júnior].

Conforme já disse, aceito todas as escolas e todas as faturas. Mas, francamente, o Sr. Santiago não desejo [sic] interpretar os modelos que escolhe.

As obras que enviou ao salão este ano parecem vistas dentro de um aquário: há nelas qualquer coisa de postiço, de flutuante, de falso que nos fez pensar não nos estar dado, o Sr. Santiago, a expressão sincera de sua visão.

O pintor tem certo pendor para representar lendas amazônicas: para isso é necessário a energia de abstração e a capacidade de resumir picturalmente. Como não sintetiza, isto é, não apresenta os motivos essenciais, e morde os modelos em pormenores falhos, sucede que há um amalgam [sic] de formas e de cores, sem subordinação.

Ainda no "jazz-band" há certa unidade, e é o que permite surpreender-se o mecanismo dos acordes.

Quanto ao Sr. Almeida Junior... só deveria tomar contas ao júri... mas o júri de arte, como o outro, o criminal, absorve mesmo com provas irrefutáveis nos autos, ou até com as confissões do próprio réu.

E fiquemos nesta figura de retórica.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO DE 1926. O Paiz, Rio de Janeiro, 13 ago. 1926, p. 1.

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