. RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 12 ago. 1928, p. 1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 12 ago. 1928, p. 1.

De Egba

Acredito que nunca se realizou conjunto tão abundante e variado, na seção de pintura como no salão deste ano.

A exposição de arte, que hoje se inaugura testemunha, com clareza iniludível, o esforço considerável, a tenacidade vivaz, o desiderio esperançado, por parte dos pintores e escultores.

Do ponto de vista geral, só há motivos de aplauso e estímulo. Infelizmente, a função da crítica não é pendurar-se desses vagos e balançantes ramos de louvores. Precisa abandonar as dominantes imprecisas, as sínteses remotas, e descer aos casos modais, à individualidade de cada artista refletida, assinalada nas obras expostas.

No Brasil, onde o gosto estético apenas madruga, e onde os yoyos-aleijadinhos [sic] se empavesam de juízes pavonáceos de coisas que jamais hão de compreender, pela obtusidade córnea que os ferrou à nascença, faz-se mister juízos claros, dissociação de valores, pautação de méritos, sinceridade lúcida na apreciação dos que, com tanto afã dedicação e desprendimento, se consagraram, no decurso do ano, ao brilho engrandecido do salão brasileiro de belas artes.

Naturalmente que, num conjunto de perto de 600 trabalhos, não é fácil, desde logo, sem exame repetido, traçar apreciação crítica com rigorosa segurança. A obra de arte não se mostra à primeira contemplação: há nela sempre um mistério de vida própria, de palpitação interior, que se vai desvendando à proporção que nos familiarizamos com os pormenores, com certas tonalidades surdas, com diluídas camadas de inteira construção.

Num salão, como o nosso, a primeira impressão é vaga e geral; de seguida, ela se torna determinada e analítica, bem destacados os sentidos pessoais; só depois por fim, teremos obtido a síntese resultante, como o resumo plástico-dinâmico de todo aquele mundo pictural, que se agita, vive, diminui, amplia-se, na imobilidade aparente das telas.

Afinal, que representam todos esses quadros (agora só falo de pintura) do salão brasileiro? Que intuito tiveram os pintores em realizando aquelas criações? Qual a finalidade procurada?

Traduzir a natureza? Interpretá-la? Encontrar, nessas páginas da vida, a sua própria vida? Achar uma razão de ser da existência? Recolher no mistério esparso das coisas o efêmero onde se ocultam alguns destroços da eternidade da matéria?

Cada um que responda a si próprio. Se não encontrou essa resposta, então, inútil será procurar transplantar para a tela aquilo que é inimitável, uma vez que o modelo será sempre superior à cópia.

A beleza está para a imaginação do sentimento, como o infinito para a imaginação do pensamento.

Nenhum artista até hoje criou expressão alguma de beleza; vários a têm encontrado na alta densidade; e o mundo vive da sugestão que eles espalharam pelo anseio humano.

* * *

De há muito que D. Georgina de Albuquerque se criou personalidade inconfundível. Sua arte é das mais avançadas que o país tem possuído. Observo a evolução da pintora com curiosidade crescente: e a vejo alerta numa conquista contínua de técnica de ar livre, na destreza de surpreender a forma dentro do ambiente luminoso.

Como que um instinto a conduz a pesquisar sempre, na tentativa feliz de renovar sua técnica.

De começo, alguns dos seus quadros de ar livre apresentavam páginas convencionais. Havia esforço maior da inteligência que do sentimento: ela se apossava do volume, na segurança de tê-lo conseguido, abandonando, no fervor e açodamento, a justeza das cores, parecendo, por vezes, desta sorte, que só o desenho exterior seria suficiente.

Por mais de uma vez, e com pesar, tive de fazer reparos desse feitio, e que poderiam parecer menos amáveis, em se tratando de uma senhora. Sei que tal não sucedia: D. Georgina de Albuquerque é um pintor: e, como tal, não necessita de servir-se das convenções dos galanteios sociais para o julgamento imparcial de suas telas.

Na presente exposição, ela aparece com uma pintura magistral: O ordenança. Toda a composição é larga e o pincel curto e forte atacou com bravura, em plena pasta, acentuando, de uma só vez, as camadas coloridas. Principalmente o animal está obtido com muita franqueza e eloquência pictural. Tudo que é secundário foi apenas esboçado: as folhagens do último plano estão pastosas, gordas, cheias, mergulhadas numa indistinção característica, onde tudo se lê bem, sem pormenores impertinentes.

Em atmosfera vista com realidade, o cavalo e o ordenança se enquadram numa espécie de unidade global: pela heterogeneidade descontínua da matéria, transcrita com sabor e visão de colorista, D. Georgina de Albuquerque apresenta o primeiro cavalo construído, como animal, na pintura brasileira.

Os que Victor Meirelles nos legou na Batalha dos Guararapes - são objetos de pão, incertos na própria articulação. Na Batalha de Avahy, de Pedro Américo, temô-los magníficos, mas, como vertebrados simbólicos, seres triunfais, cuja natureza é super-hípica.

De todos os quadros de ar livre que ela tem exibido, acredito não andar longe da verdade dizendo ser O ordenança o mais completo: na unidade da luz e na modulação da cor. Um exame pormenorizado da fatura revelará a simplicidade com que tudo foi conseguido: e, apesar da espontaneidade do toque, há ambiente, além do geral, próprio de cada pormenor. As diversas modalidades da matéria, como pelos do animal, epiderme do homem, farda do ordenança, tudo isso foi pintado com sentimento iniludível da realidade ótica.

Se uma restrição se devesse fazer, seria apenas em relação à ação do ordenança, que parece um pouco fria, como se a pintora ainda não tivesse segurança íntima dos movimentos imprevistos e surpreendentes da marcha.

No Avental branco, a primeira maneira de ar livre ainda se mostra: não me refiro a certos descuidos do desenho; mas, unicamente, ao exagero dos reflexos da pele humana, que se toca de tal transparência, como se tudo fosse diáfano, de uma leve translucidez inquietante.

Apesar dessa persistência - é visível que a artista atingiu, agora, o domínio de si própria: com Visconti e Henrique Cavalleiro constitui a trindade que trouxe luz do dia aos quadros e limpou a pintura brasileira, que era quase sempre sombria, encardida e triste.

FLÉXA RIBEIRO.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

RIBEIRO, Fléxa. O SALÃO BRASILEIRO. O Paiz, Rio de Janeiro, 12 ago. 1928, p. 1.

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