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RIBEIRO, Fléxa. OS PAISAGISTAS DO SALÃO OFICIAL. O Paiz, 25-26 ago. 1930, p. 1.

De Egba

A paisagem brasileira e sua interpretação. De Franz Post a Baptista da Costa. A luz e a cor nos trópicos. Visconti. Lucilio. Príncipe Gagarin e sua dupla visão. Paula Fonseca e sua evolução. A ilusão do colorido. Um processo inédito de crítica artística.

FLÉXA RIBEIRO

De longa data, sozinho, me oponho à interpretação pictural que os nossos artistas têm dado à paisagem brasileira.

Ao que parece, o transvio vem mesmo desde o esquecido Franz Post. Agostinho da Motta e Baptista da Costa (entre os dois há sensível diferença: naquele melhor desenho, mais solidez; neste maior capacidade ocular, vendo com mais exatidão a natureza tropical) continuaram, de um modo geral, a pintar a paisagem, como entidade abstrata. Acreditaram que sua geometria era suficiente; a atmosfera e o colorido poderiam ser imaginados, sob a influência discipular das escolas europeias.

Mas não me cabe agora voltar a falar dessas preliminares da paisagem brasileira.

Até hoje ainda não vi que se pudesse destruir os assertos feitos no tocante à interpretação da nossa natureza.

Para resumir aquela velha pregação, direi que o pintor não poderá negar estas duas realidades e que ele sente, mas que não acredita possível, por vício mental de educação estrangeira, especialmente francesa: 1º) Aqui há muito sol e pouca luz (entenda-se: luz colorida); 2º) Na perspectiva panorâmica (geralmente preferida pelos pintores) não há cores cruas: o verde é verde cinza, o azul é azul cinza, o violeta, o róseo são cinzas. Assim, cobrindo os volumes coloridos, há uma neblina tênue, transparente, mas grisalha, de leve, isto nos dias de sol pleno. Os corpúsculos em suspensão, a evaporação úmida, a bruma que vem do mar, tudo isto forma um velarium lúcido, tremulina impalpável, mas real, que vela luminosamente as coisas, as distâncias... As sombras que se esvaem, e emergem, às vezes se esfumam, nesse meio túrbido, saturadas de turbilhões fúmidos, esbranquiçados, esgarçam-se em fugas, e voltam logo à recomposição.

Se tomarmos para limite deste comentário o trecho predileto dos nossos paisagistas, nestes últimos tempos, o Pão de Açúcar, ou mesmo os aspectos circunvizinhos da Guanabara, que vemos?

Quais são as dominantes cromáticas? O verde, o azul, o róseo, o róseo-violáceo; por vezes, um castanho mauve nas massas. Mas tudo isto está como esbatido pelo próprio sfumato, dir-se-ia escamoteado por prestímano invisível, que mostra e esconde ao mesmo tempo, com velocidade intangível de prestidigitador, à magia esfuminhante do sol, cuja luz se funde no tom gris-perle dos vapores montantes das águas guanabarinas.

Não me refiro às cores acidentais, com os laivos verde-pastel e os garços que se demoram nos céus-nascentes e poentes. Falo da escala principal nos planos e nos volumes.

Ao que parece, não passam de quatro os pesquisadores da paisagem brasileira, e que desejam dar, realmente, uma solução autêntica à sua fisionomia específica, fugindo à cartilha de pintar que trouxeram da Europa: Lucílio de Albuquerque, Henrique Cavalleiro, Hans Pap [sic] e o príncipe Paulo Gagarin.

Nós vivemos diante de uma natureza magnífica: ela tem suas leis especiais. Cumpre aos artistas estudá-las com atenção sentida. Do esforço decisivo deles depende a formação de uma escola de paisagistas, que ainda não temos. É verdade que já conseguimos conhecer da existência de uma paisagem peculiar do Brasil...

* * *

Este ano, em Santa Tereza, Visconti se aproxima daquela realidade, dando-nos, numa hora especial, de neblina excessiva, uma das interpretações mais justas. É uma visão de poeta que se integra em bela matéria de colorista em tons suaves. Gostaríamos de vê-lo, artista politécnico, de sagacidade ótica, binocular, escolher, numa visão panorâmica, um dia de sol pleno, um bloco de paisagem que vive sob a influência da Guanabara, para termos, em definitivo, um exemplo salutar.

Lucilio de Albuquerque, que deve ser admirado pela sua constante vitalidade evolutiva, e que se tem consagrado, nestes últimos anos, à conquista de uma pintura mais de flagrante da natureza brasileira, oferece em O Pão de Açúcar sutil percepção da movediça turbação da atmosfera, como certa onda de poesia, no plano de base do cone famoso. Mas os céus não participam daquele mesmo sentimento, e se mostram como que fora do ambiente, inertes, sem profundidade mole.

No primeiro plano, além disso, há certa dureza como se a atmosfera fosse outra.

Com surpresa, vejo o príncipe Paulo Gagarin, em Paisagem carioca, dar um salto, e tentar realizar alguma coisa de eclético, nesse mesmo caminho, já referido.

Sua paisagem apresenta dois aspectos diversos: no primeiro plano, as bananeiras foram ajustadas com veracidade de sentimento; são motivos vistos dentro da luz natural, no ambiente colorido das formas compreendidas num horizonte limitado; no segundo, os demais planos, principalmente o imediato, e na amplitude panorâmica, dada ao quadro, o pintor, intelectualmente, por determinação exclusiva do raciocínio, com uma ótica minuciosa e quase fotográfica, que nos deve impressionar, reproduz, ou antes copia, a enseada de Botafogo. Essa duplicidade empresta à Paisagem carioca qualquer coisa que é exato, mas que não é verdadeiro: e isso inquieta, e choca o observador.

Em arte as coisas são como parecem ser e não como são. A verdade científica é uma, a artística outra. Para o pintor, no caso presente, o maior problema consiste em dar nas massas, no vigor e profundeza do modelado, a realidade das minúcias.

Se o pormenor é característico, nós o podemos fazer compreender exatamente pelas massas ricas de variedade, que só se mostram quando intensificamos forçadamente o nosso olhar.

Haveria muito interesse em conversar com o príncipe Paulo Gagarin, mas... a redação de jornal não é própria. Em todo caso, ao que me parece, houve intenção, por parte do paisagista, de fundir, num quadro só, os dois meios únicos de realizar a paisagem brasileira: com horizonte limitado, - muito sol e pouca luz, ou com o alargamento panorâmico, tudo esfumado pelo elemento intermédio que se interpõe entre as coisas e o observador, num país tropical, pouco próprio para paisagem, segundo a técnica europeia.

Pelo que se vê, o resultado não deve tê-lo agradado. Mas fica a Paisagem carioca como excelente documentação de quanto a natureza carioca é difícil de ser conquistada.

Ainda o melhor será abandonar por completo as cores literárias com que quase todos os paisagistas brasileiros insistem em conquistá-la. É esse precisamente o caso de Paula Fonseca, que se mostra evoluído, conseguindo nas suas paisagens outeirescas luminosidade e frescura.

Como discípulo de Baptista da Costa, sente-se ainda em Paula Fonseca as influências do mestre famoso. Apesar dos inegáveis progressos do artista, esse tom de crueza cromática, escorrendo cores vivas, não lhe empresta a unidade que só resulta de observação mais justa da atmosfera que reveste as paisagens. E depois, nem sempre é feliz no corte que escolhe ou prefere.

Paula Fonseca se apossa dos volumes, e muitas vezes, da síntese das formas, mas ainda lhe falta vê-las com mais sentimentos, dentro da luz que as banha, no envolvimento incorpóreo em que elas são verdadeiramente eloquentes.

Quando falamos em natureza tropical, por convenção intelectiva, só admitimos o excessivo na cor e na luz. Confundimos a fecundidade da terra com a luz que se satura de cor.

No entanto, se observássemos o quanto a sombra luminosa é colorida!

Eis por que fico à espera de uma demonstração, in loco, que o pintor me prometeu, diante da natureza compassiva.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

RIBEIRO, Fléxa. OS PAISAGISTAS DO SALÃO OFICIAL. O Paiz, 25-26 ago. 1930, p. 1.

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