. RIBEIRO, Fléxa. A ARTE E A MORAL. O Paiz, Rio de Janeiro, 21 ago. 1925, p. 3. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. A ARTE E A MORAL. O Paiz, Rio de Janeiro, 21 ago. 1925, p. 3.

De Egba

Há quem acredite que os princípios morais são absolutos. É maneira cômoda de confiar-se nas leis da adaptação.

Não pretendo discutir se a moral é fenômeno sociológico evolutivo ou não.

Pela magnitude de tais assuntos logo se vê a impossibilidade de tratá-los eu, e em curto espaço.

O que merece ser focado no momento, é a moral na arte.

Há dias, um quadro foi recusado pelo júri de pintura das Exposições Gerais, sob o fundamento de que o assunto e o modo como estava tratado, principalmente, não convinham às boas regras da moral.

Não sei bem de qual. Mas, se a maioria do júri se referia ao conjunto das normas das boas ações, não é fácil compreender que tem a Arte com a Moral.

Uma obra de arte só deve ser bela. A beleza não é, propriamente, e conforme se atribui a Platão, o esplendor da verdade. Acredito antes que a verdade seja o esplendor da beleza.

Aquela é acidente desta.

Ainda porque tudo que é belo é naturalmente verdadeiro.

Existe a verdade como indicação, como refulgência da Beleza.

Como se vê, o terreno fica fugidio, uma vez que se cuida de esferas metafísicas dessas duas realidades ideais...

Arte não precisa de metafísica; é como as mulheres realmente formosas, que dispensam os adornos: o seu prestígio maior e deslumbrante vive sempre da pura nudez.

Creio que a razão mais profunda da diferença de espécie entre a Moral e a Beleza resulta exatamente da gênese de cada uma.

O sentimento estético é biológico, congenital; ao passo que o moral é adquirido, obra ingente de adaptação.

Aquele está fundamente relacionado com a reprodução da espécie; não escapa à ação genésica da vida. Todo o seu desenvolvimento e esplendor espiritual é apenas fenômeno, complexo embora, de pura dissociação de ideias. No entanto, o sentimento moral resulta de uma contínua, vigilante, dominadora ortopedia afetiva, pelo influxo violento da razão. É a aspiração de uma finalidade abstrata de perfeição que jamais existiu na realidade.

No primeiro há libertação: o homem se integra na natureza; no segundo, domina a escravidão: o homem se justapõe, postiçamente, às convenções sociais.

Todas as modalidades da beleza exaltam a vida; a disciplina moral a deprime e humilha.

Eis por que entre essas duas entidades - moralista e artística - o antagonismo é completo e inexorável.

O artista, criador da própria beleza, em síntese social, é ser libertário por excelência. Ao passo que o moralista, renegado e mutilador, é escravo de suas próprias teorias e convenções.

Como, porém, o lastro fundo da natureza é o mesmo, na constituição ontogênica de ambos, sucede que este se apresenta hipócrita, sonso, velhaco embiocado, enquanto que o outro abrolha generoso, leal, cheio de ímpetos magníficos.

O primeiro é, talvez, mais social; mas o outro é mais humano.

Como o moralista seja, em geral, refalsado e intrujão, vaidoso de suas virtudes, sucede que toma sempre ares de ser aperfeiçoado pelos martírios constantes, a disciplina punidora dos instintos.

Mais próximo deles, impelido na torrente maravilhosa dos sentimentos, o artista se apresenta como homem primitivo, ainda não dosado convenientemente pelos métodos da civilização.

Para não fugir da atração dos sexos, bastará vê-los diante de formas femininas nuas: o moralista arrisca um olho, ávido de concupiscência sopitada, ao passo que o artista imagina logo um conjunto de beleza tangível, que aquela visão daria, exaltando os seus sentidos na realização de uma obra de arte.

São seres incompatíveis, que se não podem unificar.

E eis por que não será possível tomar a moral como critério analítico para obras de arte.

Uma coisa pode ser muito moral, como assunto, e apresentar-se ignóbil como execução.

E de motivo desprezível é possível engrandecer-se o homem, criando a expressão definitiva da vida.

Franz Halls fez de uma feiticeira, de um pequeno e miserável pescador, como de meia dúzia de octogenárias, três largos poemas, intensos de sentimentos, eloquentes de realidades, mais profundos que a própria vida; transfigurou os modelos: deu-lhes caráter universal.

Uma Virgem com o Menino, pintada por um lambe-tintas, será sempre quadro imoral. Mas, artista de gênio, fará de uma cena natural, [...] público condenável, assunto moral.

Que maravilhas, de intenso surto moral, não rebrilham e seduzem na Erótica, de Hokusai, como nas páginas de Felicien Rops? Quem dirá que a Quermesse de Rubens, ainda nos pares que se conjugam nos últimos planos, seja capitulada de imoralidade?

Tudo está em surpreender o flagrante da vida: ela é sempre bela se a soubermos compreender, exalçar, engrandecer, nas correspondências espirituais.

Em cada gota de prazer há um infinito que se oferece à nossa mesquinha percepção. Infelizmente a sociedade é fácil. E escapa-nos o melhor, que só começa depois de termos perdido a fome, pelo pronto enfartamento.

A dimensão de nossa capacidade de gozo é ridícula. Só o artista, sabendo escolher na confusão multifaria [sic] das coisas, consegue dissociar em fibrilhas mínimas as sensações, depurando-as em deleitações voluptuosas, e de tal sorte prolongando a alucinação dos sentidos, no mergulho sensual de impregnar-se na própria delícia da vida.

* * *

São comentários esses que me ocorrem a propósito do quadro Sesta tropical - que o júri da Exposição Geral de Belas Artes, deste ano, recusou, segundo dizem, por imoral, como tema e como arranjo cênico.

Quem examinar a referida tela verificará o engano deplorável. A Sesta tropical deveria, em verdade, ser recusada. Não por este motivo. Ela é ingênua, insignificante. Nada sofreria com sua exibição o pudor público.

O quadro referido é imoral por ser feio. Quero eu dizer por estar errado nos planos, na composição geral. Os corpos estão cheios de “vazios”. Verdadeiras bexigas assopradas.

Há nela cabeças falantes; troncos num plano, pernas em outro.

As figuras que ali se juntaram esperam, paspalhonas, que alguém lhes diga para que fim se reuniram.

Sob esse critério, sim: é uma obra imoral.

Tanto essa, como várias outras, aliás, que se ostentam nas paredes do Salão Nacional, e que deveriam ser vendidas, para que se extraísse o óleo tão útil e necessário à lubrificação do pobre mecanismo dos cérebros enferrujados que teimam em borrar excelentes metros de tela.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

RIBEIRO, Fléxa. A ARTE E A MORAL. O Paiz, Rio de Janeiro, 21 ago. 1925, p. 3.

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