. RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. V - ARTE CONTEMPORÂNEA: ESCULTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 18 dez. 1922, p.1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. V - ARTE CONTEMPORÂNEA: ESCULTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 18 dez. 1922, p.1.

De Egba

Raramente se dirá com justeza que a seção de estatuária, do “Salão” do Rio de Janeiro, constitui certame de escultura: em geral, em grande número, o que há é modelagem. Poucas vezes o bronze se mostra; e o mármore é impressionante exceção.

É a convicção de muitos que o verdadeiro original da escultura, não é nem a pedra nem o bronze, e sim no barro em que a obra foi moldado, ou mesmo o gesso para onde ela passou sem muito perder do imprevisto ardente da inspiração. Aí vivem todos os ímpetos e mordidos da primeira fatura.

Mas quem não trabalha na matéria dura não se pode, afinal, dizer escultor. Será no melhor sentido, coroplasta, modelador de figuras em matéria dócil, essencialmente plástica, como é a terra ou a cera.

Já, há anos, tratando do êxito de Dardé - que ficou célebre com o Fauno e a Douleur - sustentei que os “talho direto”, em se atacando logo matéria definitiva, após o croquis, retirava do estatuário o intermédio da maquete, e o deixava em contato mais imediato com o mármore, a pedra ou a madeira, podendo ele imprimir, nesses blocos, mais viva e fresca impressão de seu sentir e do sabor vivaz e virgem de suas ideias. O barro, obediente e servil, é uma estação: aí se perpetuam muito mais sutis, finas, imponderáveis emanações de espírito, táteis percepções intransponíveis, improntos de fuga. Muitas superfícies - que eram animadas da modelagem, sobre a fremente pressão do dedo ou a voracidade do desbastador - vão reaparecer, no mármore, totalmente inertes.

O talho direto é a verdadeira expressão da luta do artista com a matéria: e só através dela o seu espírito, refletor da beleza, poderá radiar com serenidade. Aliás, em tudo o intermediário é mau: é claro, entanto, que aqui não vai censura nem condenação ao uso generalizado; mas acredito que nenhum artista de consciência negará a veracidade destes conceitos. O talho direto não tem virtudes estéticas especiais que possam transformar artesão em artista: é apenas um processo. E, empregado convenientemente, em certas realizações, apresenta vantagens preciosas e de forte e misteriosa evidência.

A estatuária moderna francesa – progênie magnífica do gênio de Rodin - aí está para confirmar o acerto: Bourdelle, Abbal, Dardé, J. Bernard. Este último é até um reacionário contra o impressionismo escultórico...

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É verdade que no presente certame há exceção do conceito inicial desta noticia: mármores e bronzes povoam as galerias. Não me sendo possível falar de Correia Lima, começo a parlar com o Sr. Pinto do Couto. Dos envios do estatuário português, o retrato do “Barão H. de M.” (n.72), que eu já conhecia, é a obra de mor valia, pois tem vida espacial como massa e planos. Feito com particular sentimento da matéria, há nele senso das linhas interiores das formas: além dessas qualidades técnicas, patenteia ainda caráter e individualidade, que não é bem a mesma coisa. Não sei por que o Sr. Couto decepou, tão bruscamente o barão, pelas rótulas, deixando como cul-de-jatte, em uma espécie de paúl [sic]. De certas disposições particulares do modelo, o Sr. Pinto do Couto se aproveitou com êxito, pois variados planos estão assinalados com viveza, e fazem no jogo de luz efeitos que concorrem à vida do retrato. Em alguns pormenores, como na mão direita, há evidente e emocionado estudo. O cirurgião “Dr. A. V. C” (n. 75), está construído com segurança de quem conhece a profundidade dos volumes e procura da individualidade à expressão. Já no retrato do Sr. “W. B.” (n. 70) se apresenta desigual o estatuário: as superfícies são lisas, sem vigor; as faces assim lixadas, polidas, dão impressão de qualquer coisa de fátuo e despido de interesse. Será que o modelo fosse tão amorfo que não permitisse, ao Sr. Pinto do Couto, marcá-lo um poucochinho fora deste tom balofo e vazio? É verdadeira cera perdida... e com ruim defunto. Embora esteja cuidado em valores opostos a este, o retrato do conselheiro “R. B.” não me parece ter atingido no visionamento do escultor: é obra de realismo vulgar, sem beleza, dentro da realidade, que o modelo deveria naturalmente inspirar. Não me refiro à beleza, no sentido comum; mas à ideal, que resulta do caráter da obra.

Mas ninguém vence o Sr. Leopoldo Silva na quantidade de exemplares enviados, a não ser o Sr. Finta de Aba. O Sr. L. Silva trabalha com abundância o mármore e usa, com preferência, o bronze. Só isso é motivo de simpatia. Infelizmente, não lhe possa ser gabos porque seus envios se ressentem de certas imperfeições que são fundamentais como elementos anti-artísticos. Suas figuras são rígidas; de uma execução espessa; há nelas não sei que de áspero. O mármore não se aclara nem se amortece; é uniforme. Por outro lado, e sempre de maneira geral, não sinto diferenciações específicas da matéria nos seus trabalhos: cabelos, variações da epiderme, e outros elementos, é tudo a mesma coisa. Na “Esposa da morte”, por exemplo, as superfícies são mortas, o corpo não é prismático; o braço esquerdo jaz postiço em movimento que falhou, e que deixa a figura paralisada no tempo. Na Testa de Fanciulla flutua mais vida e creio ter sido estudada com amor em relação aos dotes característicos do modelo. Não sei: mas - como na “Mulher em repouso” (n. 36) - apreendo que o Sr. Leopoldo Silva ainda não domina o ofício, é por ele dominado: o tipo andrógino, assim deitado, está sem muitas faces, como se o corpo fosse uma prancha esquadrinhada com intuitos de talhar xoanas [sic] dedálicas. Pois o corpo feminino (não será um hermafrodita?) cheio de tantas curvas, mavioso em suas ondulações numerosas, glória de ritmos, só apresenta esse aspecto de rigidez cadavérica, ao Sr. Leopoldo Silva? Onde a frescura do granulado do mármore, sugerindo a elasticidade renitente e cálida da epiderme humana? Em todo caso, a “Menina e moça” é uma revelação feliz. Creio, porém, que a falha fundamental da técnica do escultor - é ver as formas como superfícies em extensão, ao invés de considerá-las como vistas de profundidade. Não há, pois, nos seus trabalhos, a consciência da estrutura interna - conhecimento esteológico [sic] seguro - que se pronuncia à flor da pele, com esse frêmito pressentido da tensão muscular, com esse vulto denso que caracteriza a intensidade palpitante da vida na forma animal. Na construção anatômica, no modelado e no movimento está toda arte do estatuário. Entanto, como a pele humana é cheia de numerosas e sucessivas saliências e reentrâncias saborosas, que dão relevo e vigor aos aspectos e a fazem viver como de irradiação sensível, ainda nas superfícies que aparentemente são lisas!

O Sr. Finta de Aba é um artista húngaro, que se apresenta como discípulo de Rodin. Lamento não encontrar em seus trabalhos nada daqueles traços que estrelam arte do grande Mestre francês: nem ciência do modelado, nem movimentos transitórios, nem o desdobramento continuativo do gesto, nem busca desenfreada de perfis que se ligam por meio de planos sucessivos, nem mesmo a superposição do desenho do movimento, ao desenho anatômico, quanto mais a procura do caráter, como padrão de beleza! O que se nota é exatamente a falta de lógica nas suas composições: há confusão de planos, como no “Sonho que se evola”. É evidente o desejo de fazer da escultura uma arte dinâmica: as massas estão repartidas arbitrariamente, mas procurando estabelecer jogo equilibrado de forças. Como, porém, o Sr. Finta pareça não se ter apurado muito no desenho, nota-se que esse amálgama de totalidades não fora estudado como faces significativas; além de que representa talhos anatômicos muito duvidosos, como contornos desenhados, ou talvez que os valores não tivessem sido observados com atenção, e as relações de “opacidade e transparência” não correspondam à verdade, entre as formas e o meio em que elas se desenvolvem. O que, porém, se me a figura mais exato é que o Sr. Aba não chega à síntese: é um mundo caótico: tem-se a impressão de um simbolismo teratológico; e os pormenores se aglomeram, à solta, e criam verdadeira sarabanda à vista do observador, que não consegue focar a unidade e ler com clareza as transcrições plásticas da estatuário húngaro. Para atingir à intensidade expressiva, como na “Imortalidade”, não se faz mister acumular massas, como em aparelhos poligonais dos pelágios - e sim ver a profundidade dos volumes e a silhueta interior das formas. Ter-se-á, acaso, o Sr. Finta impressionado com as obras de Sudbnine?

É totalmente diversa maneira da senhora Nicolina Vaz Pinto do Couto: e de puro estilo italiano moderno! “A República Brasileira” é lisa, fria, admiravelmente comercial. Não há sinceridade na fatura. Com certa habilidade manual é possível obter assim, nem só essa obra, como a “Cabeça de estudo”: tão postiça esta quanto aquela é enfática. De há muito que os italianos se fizeram hábeis feseurs, e enchem o mundo de peças fabricadas como se fossem a reprodução de dado cliché. Na “Cabeça de criança”, a ilustre escultora chega a um modo adocicado, mimoso, bonitinho, mas que não é a expressão da vida na sua seleção característica, que deve ser o destino da arte.

Com Beatriz, o Sr. Antonino de Mattos não mostra muito progresso. Mas é evidente que seu espírito tende para certa suavidade, bem longe daquela Escrava, que nada personaliza, nem mesmo o sexo. Mas o artista ainda não consegue sentir com evidência os planos, e as extremidades, daí não ver os volumes de face, em fundo, marcando-lhes, pelos relevos e concavidades, perfis, e permitindo, assim, que se possa contornar a figura sempre por eles acompanhada. É claro, porém, que se começam a aliar, na sua sensibilidade, as realidades das formas com certas idealidades da expressão.

Por que o Sr. Laurindo Ramos tenta já o retrato? O seu “Paulo Barreto” parece mais bexiga, tanto quanto cheia, uma cabaça por cabeça, do que indivíduo humano. Nunca pensei que o bronze pudesse ficar tão lambido. Uma folha de acanto ou outro ornamento clássico, seria tirocínio indispensável. O retrato é uma síntese de caráteres: é necessário não estar peado, discipularmente, pelo aprendizado da técnica, para que a mão liberta fique obediente às impulsões instantâneas da observação. Na estatuária é necessário fixar, das móbeis expressões, a mais típica: só, desse feitio, e por processo de síntese, conseguir-se-á que o retrato conserve, sugira, na sua imobilidade, como energia latente, os signos espirituais e ativos da vida.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. V - ARTE CONTEMPORÂNEA: ESCULTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 18 dez. 1922, p.1.

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