. RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. I - SEÇÃO BELGA. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 nov. 1922, p.1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. I - SEÇÃO BELGA. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 nov. 1922, p.1.

De Egba

Apesar de maldizentes, os artistas brasileiros têm um traço característico da mais pura originalidade: vivem isolados.

Podem acusá-los de não dar livre curso à sua inspiração, de fugir ao chamamento isolito [sic] de seu destino nas inovações artísticas, que não se exercitarem à mão-tente [sic] com os princípios do desenho; como também de não procurarem ampliar em perspectiva germinais as paisagem mentais de seu espírito na cultura geral: ninguém lhes poderá jamais negar esse esforço, esse heróico abandono: eles vivem sós.

É caso único, talvez, entre os povos civilizados. Em todos os centros de vida coletiva, a sociabilidade, a camaradagem é o laço constante e afortunado que enreda e prende, seduz e consola, os irmãos do mesmo sonho, as almas sedentas das mesmas aspirações. Guildas, ou sociedades, ou reuniões cotidianas, os atraem e, por momentos, os isolam na multidão. Modernamente, os cafés, como os de Paris, substituem as guidas e outras academias dos incaminati com Luizes, Agostinhos e Annibaes Carracci. E com vantagem. Tira o caráter de disciplina às assembleias, e dá-lhes a boêmia e livre confraternidade, indispensável ao florescimento das ideias e dos sentimentos; ao confronto progressivo das técnicas.

Quem não se lembra da Rotonde, boulevard Montparnasse? Nesse centro de artistas, elementos heterogêneos de todas as nacionalidades, formam um todo homogêneo pelas mesmas ideias. Ali convivem, diariamente, em horas aprazadas, após os labores da oficina, pintores, escultores, gravadores, arquitetos, súditos de Lenin, Mussolini, Bonar Law, Poincaré, cidadãos da livre América, homens kemalistas, neo-gregos, nipônicos e boêmios, que se emulam na mais afetuosa irmandade. Por entre eles sorriem, revoam e arrulham os mais graciosos modelos.

Quem se isola - é excelente verdade - mais se aperfeiçoa. Mas a vingar o insular-se, se o convívio foi animado, confraterno, excitador, intenso nas criações de reflexos novos. Convívio e solidão - devem alternar-se, como na natureza, vales e montanhas.

Entre nós, nada de semelhante sucede. O próprio caráter topográfico da cidade concorre para isso: poliópolis vasta: tudo está distante; bairros mesclados, sem fisionomia específica - permitem que os artistas tanto morem no Leblon, em S. Cristóvão, como em Santa Tereza ou em Ramos.

Além dessas condições de ordem material, outras existem de ordem intelectual, que não desejo agora assinalar.

* * *

Deixando à margem esse revelador semblante burguês e pacato da arte brasileira, vou ver o “Salão” deste ano, comemorativo do centenário, e, por isso, da maior importância e significação.

Creio que nunca o certame anual de artes se realizou em condições tão simpáticas e propícias como a presente. As novas galerias, que o zelo e a tenacidade inexauríveis do professor Baptista da Costa conseguiram que se construíssem - permitiram convenientes instalações nas novas salas, aos envios deste ano.

Não me sendo possível, por agora, anotar todos os trabalhos expostos, farei comentário de conjunto sobre cada seção.

A maior curiosidade do “Salão” deste ano é a concorrência dos artistas belgas. Duplamente importante: pelo valor e pela oportunidade que oferece aos jovens artistas brasileiros para examinarem, em vários exemplares, os resultados de certas formas modernas da pintura e de escultura. Principalmente no que diz respeito ao divisionismo, neo-divisionismo e pontilhismo - que vai além de Seurat e Paul Signac - e que são representados por um dos seus chefes - o Sr. Theo van Rysselberghe, de quem creio ter sido eu o primeiro a tratar no Brasil, por 1914. Já o admirava com emoção, desde a sua Hora ensolarada e a Leitura, onde Emilio Verhaeren (cuja efígie Bonnetain medalhou) lê um daqueles ígneos poemas em que emerge campos alucinados, cidades tentaculares e ritmos soberanos, e é ouvido por Mauricio Maeterlinck, Fleix Fenéon, René Ghil e outros da ronda simbolista.

De Theo van Rysselberghe há três quadros que devem ser assinados aos estudiosos: Dame au blanc, Pièce d'eau à Grenade e Arc em ciel. O primeiro revela toda a técnica da divisão dos tons e da mistura ótica para a formação da síntese dominante.

A figura e o ambiente estão banhados de finas vibrações luminosas; e as inquietações da luz dão-nos a emoção da atmosfera. Como isso também se evidencia em Arc em ciel e Pièce d'eau, preciosos exemplares! Quanto as almas juvenis - e principalmente os mestres – deviam meditar no exame de Rysselberghe!

Na seção de pintura, onde há bastantes produtos oriundos da crise da fealdade de que foi atacada, de 1910 para cá, arte francesa, com os cubistas - logo se evidenciam a segurança técnica e as raras qualidades do Sr. V. Gilsoul. Que ambientes! Canal prés de Bruges traz a revelação de poeta e de pintor, dono da perspectiva aérea, senhor da emoção das coisas. No Escalier à Versailles - assunto ingrato, de expressão geométrica – os céus são magníficos, vão longe, e o cântico da hora flui com intensidade: as mesmas qualidades e senhorio se evidenciam.

Como esquecer o Sr Laermans, com o seu Moulin? De princípio, ele parece antipático nas cores e no estúrdio dos tipos; mas convém demorar na contemplação, ou melhor, voltar outra vez a vê-lo: ele tem alguma coisa a nos dizer. J. Gouwellos apresenta uma academia – Ondulations – que está feita com sentimento, graça, inteligência e inolvidável prazer. Sente-se isso na fatura, na verve, como na belle matière. Também se revela com destaque o Sr. M. Verburgh, em Les Modistes: largueza das pastas, sentimento da matéria, a justiça dos tons, dando modulação airosa às figuras, e não sei que de brejeiro na flor espiritual das tonalidades.

Para que mencionar o Sr. Mambour, bem representativo (Derain e Friesz?) com o seu trio microcéfalo? Onde os elementos de anatomia? Mas deixando de lado a compostura somática do homem - que sempre deve ter algum valor - que significam esses três cretinos hemiplégicos, cujos crânios o ímpeto sonoro arrebatou? São abortos que tocam instrumentos que jamais tiveram os perfis e as composições com que o pintor os representa.

Sou espírito libertário, amigo das renovações na arte; mas não me ofereçam a vítima humana com o nariz no umbigo e as orelhas nos glúteos.

Aliás, essa forma alarmante dos discípulos de Picasso – passou. Hoje, ó céus! volta-se à casta pulcritude linear de Ingres. Nem ao menos começaram por Delacroix! Foram logo ao violino de Monsieur Ingres...

Felizmente, o Sr. Mambour tem poucos companheiros que se lhe emparelhem: a maioria lhe é inferior, decididamente inferior...

Na escultura, há dois bronzes de excelência: Mère et enfant, de Lagae, e L'Yser, de Braecke. No primeiro, o envolvimento é sensível e a ternura se evidencia. Em L'Yser, porém, há qualquer coisa de poderoso, intenso; é um instantâneo do ser na atmosfera de bruma; é uma representação; alguma coisa como um flagrante de perfis. Evoca; comove: faz pensar. Essa cabeça de soldado, larga e viva, arrasta, no ímpeto de seu assomo concentrado, o vigor fecundo e imanente de símbolos.

Também o Sr. Wynants se apresenta com interessante tête de soldat, onde há largueza nas massas e particular idealidade na vida interior.

Mas por que o Sr. Mimme se exibe com esse feto ajoelhado, que mais parece um tendal de apófises salientes... fora do lugar? E como o diabo teria modelado o Sr. Puvrez a sua Jeune Fille nue? Tudo em planos como na escultura rudimentar dos negros do hinter-land africano? Os pequenos traquinas costumam lavrar figuras dessa jaz – em molongós ou cascas de melancia...

Mas para que cuidar dessas formas teratológicas de modelagem se L'Yser emerge na memória, aglomerado de forças, impassível, estranhamente simbólico?

E até outro dia.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. I - SEÇÃO BELGA. O Paiz, Rio de Janeiro, 20 nov. 1922, p.1.

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