. RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. IV - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 11 dez. 1922, p.1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. IV - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 11 dez. 1922, p.1.

De Egba

Por várias vezes têm assinalado o pendor de meu espírito pelas inovações artísticas: assim, recebo, de bom aviso, com alvoraçada simpatia, as tendências moças, ainda as mais perigosas. Convencido como ando de que Arte não evoluciona, mas se renova, vivo sempre a afeiçoar esses surtos benfazejos para as conquistas de novas formas técnicas. Entre a natureza e o artista a luta é eterna e sempre virgem: ela se oculta e vela nos seus sedutores mistérios; e ele vai tateante, ávido, atilado na sua cegueira, procurando apresar-lhe os enigmas da beleza.

A natureza é o grande modelo: o que o artista aspira não é copiá-la, nem reproduzi-la, na sua semelhança externa, na sua parececença vulgar; ele sonha e anseia por alguma coisa de mais profundo e inédito: quer interpretá-la; surpreender na sua vida interior, imortalizar, pela virtude técnica, a movediça efemeridade de seu semblante, como espelho de sua própria alma. Mesmo porque, objetivamente, a natureza é pobre de emoções; mas rica, inexaurível, nas suas miraculosas ressurreições subjetivas. O artista é o que vê e revela o mistério da beleza que se oculta.

Feita a profissão de fé, ninguém me pode acreditar ancorado, tranquilo, no remanso de uma enseada, na configuração geográfica da estética. Nunca, para usar o exemplo clássico, que encontrei divergências, na finalidade artística, entre Ingres e Delacroix: ambos me seduzem e comovem: em um eu sinto com o pensamento, em outro penso com o sentimento. Ambos formam a unidade eleita.

Se o trabalho realizou a beleza, isto é, a “expressão” da verdade de caráter universal, se nele há uma vida interior das formas poderosa e maior que a exterior: - pouco me importa a técnica de que o artista se serviu. Técnica é meio, e não fim. Que assoma e assoberba é a individualidade: afirmar-se é a condição imanente do espírito de todo artista.

Ainda mesmo em artes diversas, essa unidade, às vezes, aparece: Carrière - um dos grandes pensadores da França - pintava na sua monocromia, em planos, como escultor; Rodin - ressurreição impetuosa de Fídias, através de Miguel Angêlo - esculpia marcando valores de colorido, como um pintor.

* * *

Ora, pois, conforme eu ia dizendo, não vejo motivos para não olhar com simpatia os processos do Sr. Helios Seelinger.

Entre os dons naturais e o conhecimento constante de recursos do ofício deve haver sempre harmonia. A aptidão ingênita, que é muito, não é tudo. O Sr. Helios, que tem sentimento do pitoresco, uma imaginação neo-romântica, consegue realizar uma espécie de mitologia realista, não vem este ano ao “Salão” com muita fortuna. O seu tríptico apresenta defeitos visíveis da arte de compor, além que no painel central o desenho não conseguiu transcrever com justeza as formas: do grupo que luta bastaria examinar alguns pormenores anatômicos, e ver-se que uns não estão articulados com veracidade, e outros parece que não foram interpretados, diante da própria realidade. Em “Navio fantástico”, por exemplo, tudo está no mesmo plano: o barco é recortado sem naturalidade, imponente em sua massa, mas sem que o pintor não conseguisse dar nada de essencial da caravela. Mas quem poderá negar o Sr. Helios seelinger o dom decorativo, originalidade nas concepções (que começam a ficar monótonas) e, sobretudo, um lirismo jovial e pagão que lhe marca bem uma individualidade em nosso meio, pois não mais é possível aproximá-lo nem de Arnold Böcklin, nem de Franz von Stuck ou Max Klinger.

O Sr. Francisco de Nemay apresenta alguns retratos: como para mim a qualidade fundamental do portrait é um acento da individualidade que ele deve marcar, julgo os trabalhos do pintor obras muito secundárias. Além disso, o Sr. Nemay não procurou expressar os signos reveladores da vida moral do personagem, que deveriam ter sido obtidos por uma observação mais cuidada, meticulosa, alerta e policial-secreta, durante o convívio da pose. Ficaram, desse feitio, as criaturas sem muito caráter. E não sei que espírito mal me segreda que se há certa frescura nas tintas, já o mesmo se não dá com a construção, como pode bem afirmar o retrato de dona Rosalina Coelho Lisboa, que se encomprida na tela, sem volume, em tons frios. Como o Sr. Nemay não marcou a passagem do tom local para as sombras, o retrato não avulta, as distâncias não estão sentidas, a tela continua uma superfície lisa; e como não há equilíbrio entre as superfícies coloridas, a nota dominante não rege nem pontua o concerto cromático. Sem ambiente, não há, em verdade, nem movimento, nem vida, no seu mais profundo sentido.

Com os “Primeiros sons do hino da independência”, o Sr. Bracet se evidencia possuidor de uma maneira sua, que parece cultivada com carinho: uma coloração pálida, que às vezes contrasta com o pastoso de certas figuras, como ainda se pode ver no envio deste ano: é alguma coisa que vive ausente, mas que se mostra sem confusão na sua silhueta externa. Infelizmente a perspectiva é falha: o movimento não é exato, as figuras não parecem plenas de volume: há não sei que de vazio.

Da senhora Marieta Galliez só me cabe dizer que ainda não conseguiu unidade em sua fatura pictural, embora seja evidente no seu espírito o sentimento do ambiente interior. Os trabalhos que envia é muito apreciável o “Estudo” (número 144), onde há envolvimento, emoção da hora, delicadeza na interpretação dos tons locais. Mas já os mesmos dons não se mostram no “Trecho do parque do Catete”, sem veracidade na atmosfera, e que é um ar livre pintado com efeitos luminosos de interior: onde essa rica multiplicidade de reflexos que é, hoje, o domínio precioso de todas as escolas que derivava do impressionismo, da técnica de Monet, de Sisley, Renoir; neo-impressionismo, divisionismo, pontilhismo?

E a falta de sequência lógica no modo de tratar esses temas de ar livre ainda mais se pronuncia em Tarde: aqui a natureza é de metal opaco; os verdes são crus; a água não tem brilho nem transparência; as formas estão recortadas.

Et, peintre, fier de mon génie,

Je savourais dans mon tableau

L'énivrante monotonie

Du métal, du marbre et de l'eau.

Vejo antes e D. Marieta Galliez um temperamento de intimista, onde as frescas harmonias se encadeiam pelo próprio parentesco que há entre certas cores; o que importa dizer que suas qualidades melhor se expandirão transcrevendo as formas aclaradas pela mesma luz.

Acredito que a revelação deste ano é o Sr. Oswaldo Teixeira, em cuja juventude vários dons preciosos afloram. Se me coubesse dizer alguma coisa ao jovem pintor, diria: “cuidado! alerta! que te querem inutilizar pelos gabos”. Já várias promessas reais se tem fanado na estufa do ba-ta-clan dessas gloríolas!

Para quem traz essas qualidades, a salvação vitoriosa estará no equilíbrio entre elas e a disciplina cotidiana no estudo. Estudo que não deve crestar o impulso juvenil e generoso da criação, mas que será o meio perene inigualável para fixar as suas impressões em face da natureza.

Só para conhecer a estrutura íntima das formas, o desenho da matéria “habitada”, quantos anos de análise e contemplação, de experiência e meditação?

Tudo está em nós: os aspectos da natureza são apenas motivos para nos revelarmos. Muito do que o Sr. Teixeira ainda hoje compreende, por instinto, o fará, mais tarde, de consciência refletida. No seu “Homem da Rosa” há interesse, certa fantasia lunar que seduz, sem afastar qualquer coisa de espiritual, de mordaz ou farsista. Mas a construção não é sólida; não há consistência nas formas. E por que a luz que aclara a camisa refrange e corre nos cetins que vestem as rótulas ainda desce a iluminar as tíbias? Como é possível alumiar tantos perfis? A avó e D. Juan Tenorio chamam o nosso interesse; apesar de que o primeiro não ofereça unidade nem na composição nem na fatura, pois os pequenos estão convencionais; não parece estudo do natural o pequerrucho.

Mas, que valem esses descuidos e imperícias, diante das reais e afirmativas qualidades no compreender e sentir os corpos e a sua colaboração no ambiente que com tanta viveza se esperançam no Sr. Oswaldo Teixeira? Estudando, trabalhando com afã, conhecendo-se melhor ao rever-se nas obras dos mestres, viajando para realizar esse inter-visionamento e a necessária educação visual, ao par do conhecimento técnico, no confronto dos maiores, - virá a ser um nome na pintura brasileira.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. IV - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 11 dez. 1922, p.1.

Ferramentas pessoais
sites relacionados