. RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. II - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 27 nov. 1922, p.1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. II - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 27 nov. 1922, p.1.

De Egba

II - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA

Se arte é difícil... Muito mais é julgá-la em um meio em que de há muito se excluiu a sinceridade dos conceitos de maldizer ou de louvação. Em geral, os nossos artistas não toleram a menor restrição no valor que eles mesmos se atribuem.

Ora, sem liberdade de juízo, sem sinceridade de análise, - não é possível ao crítico expressar-se com justeza sobre as obras expostas, nem marcar os estágios evolutivos das artes do desenho; e menos ainda procurar humildemente orientar o público no sentido de prestigiar o bom gosto, de enaltecer e avigorar, no seu espírito, os dogmas sagrados da beleza.

É verdade que também os pintores e estatuários poderão fazer considerações bem estúrdias e pitorescas sobre certos goliardos da crítica, ou noticiaristas de coisas de arte. Nesse capítulo ridente, há até, entre os artistas, um pequeno sotisier onde estão catalogadas expressões reveladoras: “Miguel Ângelo esculpe o mármore com o buril”... “Mulher esculpida por um Tanagra”... “puro estilo fantasia”... “museu de arte retrospectiva”....

Embora! Por que não havemos de falar com honesto entusiasmo das amostras de arte, enfileiradas da exposição contemporânea?

Somente para os professores da Escola Nacional de Belas Artes eu me reservo o direito de dar-me por suspeito.

Temo que a lógica afetiva me tende a fazer ver em outro ângulo de luz suas obras: e eu jamais mentiria à sinceridade que jurei manter em relação à Arte: em tudo se pode mentir, menos nessa espera divina da Verdade.

* * *

Artista curiosa, de sensível progresso, é a Sra. Georgina de Albuquerque. A sessão do Conselho de Estado se apresenta excelente como grupo como harmonia, além do arrojo que há no próprio assunto, em relação à tonalidade. Mas por que os três planos não se definiram com mais vigor? Em que valha as qualidades da fatura que revela, não vejo que a Princesa R […] esteja completa: a imperial criatura não assenta toda com o peso do volume. Se o busto é modelado com certo vigor, do tronco para baixo não se sentem as formas.

Manacá, ar livre, bem estudado, com tons risonhos; e se nos Efeitos do sol estão justas as sombras, particularmente as que se projetam no dorso do rapazelho, não compreendo o desenho das pernas do infante, que mais parecem de um jovem que só atingiu à maioridade. Mas como em todas as telas de D. Georgina há frescura e uma certa alegria espiritual, que é bem evidente em Colhendo Flores, embora aí a ação da luz, naquele ambiente, não esteja vista com justeza, pois os valores foram exagerados: forte uns, fracos outros.

Por que as violetas, como se vê à linha da anca até o solo, farão vibrar mais os verdes? E acaso a pele humana tecerá essa ronda de envios luminosos? Por que não há mais consistência nas massas?

Para o observador experimentado - o Sr. Pedro Alexandrino constitui o número excepcional do “Salão”. Sua arte em silêncio é magnífica. Tachos e Marmelos rivalizam com Joseph Bail. Com que sabor são acariciados os brilhos vibrantes do tacho areado, a moleza tranquila da toalha! Está justo, crespo, sentido, o caldeirão onde a luz morde os reflexos do metal. Como a escumadeira marca de uma nota vivaz esta natureza morta! e as sombras das fazendas projetadas nos metais? As pequenas manchas de luz que se coam através dos olhos da arupema dão uma graça ridente ao conjunto. Quem teria saído do Copa? No tumulto daqueles objetos inanimados há uma alma que vive com emoção. O Sr. Pedro Alexandrino tem qualidades primaciais entre os artistas brasileiros, e que dão notável destaque: honestidade no desenho, presciência de composição, seriedade no sentimento da matéria, dons da harmonia.

E não sei como a Escola Nacional de Belas Artes deixar-se-há privar de Tachos e Marmelos.

Porque é necessário não esquecer que nas novas salas de arte contemporânea, há muita figura que é menos viva do que qualquer das naturezas mortas do Sr. Pedro Alexandrino.

Creio que um dos êxitos do Rio, nestes últimos meses, foram os retratos do senhor Bror Kronstrand. O pintor sueco exibe cinco retratos: ou antes, um retrato só em cinco molduras.

Não é que o Sr. Kronstrand tenha acentuado e virtuoso estilo, que o marque com tal veemência, que, de longe, ele se anuncie, como se sua maneira fosse seu próprio arauto: e assim, as pessoas se aparentariam para não lhe destruir o modo de pintar. Nada disso. É que seus personagens não vivem: é apesar de serem todos da mesma família, o Sr. Carlos Sampaio, por exemplo, que tem uma cabeça interessante, embora haja dado cabeçadas na administração municipal, parece antes uma abadessa, horas depois de haver engolido doses maciças de calomelanos. Examinando melhor o processo técnico do Sr. Bror, creio que primeiro há desenho e depois uma coloração apropriada convencional. Todos os retratados precisam de um tratamento de Coleína, que como é como quem diz, extrato fluido de fel de boi. Acaso pintará ele com gasolina, ou outro produto do petróleo?

O retrato do Sr. Epitácio Pessoa, além da corcova com que se giba, não tem harmonia, e há nele uma parecença vulgar, antipática, materialona, que tira à criatura esses dons individualizantes do caráter, que unicamente podem assinalar um retrato. Ou será porque está parecido demais?

Os Efeitos do sol (n. 85), do Sr. Levino Fanzeres, traduzem fina emoção: há neles não sei que de tranquilo e enlerante. Por que esse primeiro plano, berra no verde cru em desarmonia com o conjunto, ritmos de montanhas e serenidade de águas?

Que pena o Sr. Marques Júnior não se ter aproveitado melhor do prêmio de viagem! O seu divisionismo é convencional (será possível?) asualmente [sic] absurdo. Haveria aqui, se o espaço permitisse, um colóquio sobre essa matéria. Mas não acha o pintor que como quadro de cavalete esse confetismo exagerado é menos compreensível do que como decoração? Toda teoria precisa de interpretação; e a interpretação é o modo pessoal de ver e exprimir idêntico fenômeno.

Há, em tudo, porém, uma verdade geral: antes do colorido é necessário que existam as massas e as superfícies. E como marcar perfis? - Só pela excelência do desenho.

E digo isso, modestamente, por estar convencido de que ainda nas coisas feias há uma alma de beleza.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. II - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 27 nov. 1922, p.1.

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