. RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. III - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 4 dez. 1922, p.1. - Egba

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. III - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 4 dez. 1922, p.1.

De Egba

Dizer a verdade é, quase sempre, testemunho de má criação intelectual. Só as naturezas fortalecidas pelo sentido valor estão aptas a recebê-la, medi-la, aceitá-la. Quantas vezes no conceito crítico não irradia e esplende, como luz subitânea, a revelação de fragmentos de nós mesmos, e que, até então, dormiam ignorados.

A sinceridade é alta primazia de admiração. O que todo artista deve querer exigir, no seu julgamento, são três qualidades essenciais no crítico: educação visual, honestidade e poder de compreensão.

E como compreender é também criar, o crítico que se esforça e inquieta, se reanima e entusiasma, para ressentir, repensar a obra de arte - pela flor e pelo perfume de sua espiritualidade - elabora com sua energia, com os estos de sua vida, com os haustos de suas aspirações, nova criação, fá-la renascer outra vez, no mesmo clima de sensibilidade, à mesma luz benéfica das ideias.

Quantas vezes, o pintor, tempos depois, não se confessa, na intimidade de seu ente de razão, e não verifica que as advertências e sugestões que o irritaram foram fertilizantes prestimosos?

* * *

Entre os pintores brasileiros, o Sr. Visconti é figura de exceção. O que mais o assinala é sua capacidade politécnica.

Desde o movimento pré-rafaelita - todas as agudas e constitutivas formas picturais modernas estão registradas com emoção e habilidade em suas telas. Isto significa que ele é espírito particularmente evolutivo. Essa sua aridez espiritual, - aliada à sensível aptidão técnica - fá-lo, desse ponto, exemplo vivo, e único, no Brasil.

A qualidade primaz, dominante, em qualquer obra do Sr. Visconti, de qualquer época, e não importa que fatura, - é o relâmpago de que há ali um pintor e um artista.

Não me cabe agora estudá-la, no que essa qualidade assimilativa importa de vantagens e prejuízos à sua individualidade.

Nestes envios do “Salão” o que se evidencia é o seu neo-impressionismo, isto é, o atento e cuidado estudo das sombras luminosas e das cores e reflexos ao ar livre. O Sr. Visconti é, enfim, e de modo sintético, um impressionista. O mundo é uma sinfonia de cores. Nenhum outro pintor brasileiro, creio eu, já melhor compreendeu o problema do ar-livrismo, como ele.

Um corpo exposto ao ar livre, como se sabe, além dos raios luminosos que não absorve nem decompõe, e que reemite à retina, também reenvia os reflexos dos objetos circunvizinhantes, formando na rede irradiante, uma vibração luminosa em que os tons se dividindo se mesclam e formam, já na retina, como que uma unidade ótica - é o que se chama a cor. Ora, a luz do espaço é profundamente diversa da luz interior da oficina: pois há reflexos e há complementares.

Como se sabe ainda, há entre nós quem desconheça esses princípios, - que ele jamais esqueceu, - e que tente pintura ar-livrista.

No Sr. Visconti, o sentimento do colorido é maior, mais justo, mais previdente do que o das linhas e dos contornos, onde, às vezes, há indecisões.

Ainda nos quadros presentes ao certame o fenômeno se evidencia com segurança: o modelado, às vezes, pode falhar; pode ainda a construção não se estabelecer à agudeza de certos exigentes, - a coloração é sempre exata, preciosa; de elevado sentimentos são as superfícies coloridas. E por que teria o Sr. Visconti exposto frágeis desenhos, como esses que vão de 262 a 272, do catálogo?

E quando falo de desenho, é claro que só me refiro a quando ele é o instrumento apto à transcrição das ideias do pintor, e não como mera e impessoal tabuada escolar.

Outra natureza sensível, de dotes receptivos apreciáveis, é a do Sr. Carlos Oswald: as tendências são, porém, bem diferentes das do Sr. Visconti. Estamos, aqui, em face de um luminista.

Tanto vale dizer de um intimista? É claro que o Sr. Oswald se perde, às vezes - quase sempre - em uma fotofilia bizarra, em que as luzes são trazidas com certa convenção e no intuito de efeitos impressionantes, para destruírem o tom local, mas que não se harmonizam com o ambiente em que elas vão cantar. O que predomina em suas composições é uma espécie de espiritualidade decorativa. Quer ser mais sugestivo; é, porém, mais decorativo. Embora! em todas as suas cenas de fantasmas de luz há um senso místico que as relaciona, - Viva a independência, - que expõe, - parece sair um pouco de seus modos habituais: mas como é delicioso de ternura, de afetividade, essa juventude que ajoelha e se curva! Embora a construção da figura central desagrade, erra no quadro envolvente harmonia que seduz.

O Sr. Pedro Bruno apresenta, entre outros trabalhos, uma grande composição: O Precursor: c'est une machine. Creio que o pintor andou errado na escolha do tema: o desenho não é feliz, o plano se inclina e corre, as figuras não assentam com as cargas no solo.

Entre o Precursor e o homem que lhe veste a alva há larga distância, no solo, o que impossibilitaria este, nem só de tocá-lo, para vesti-lo, como ainda de sentir que o antebaço é quase demais. Esse cidadão, assim de três quartos, oferece tal superfície de costas que se fica a pensar o que seria se elas fossem vistas na sua imponente totalidade! Além disso, os elementos construtivos do grupo não se relacionam, não fazem unidade. Aliás, já que esta mesma inopia [sic] de composição foi observada no quadro a Bandeira, que lhe granjeou o prêmio de viagem: valores, volumes, dimensões nem sempre se acordam para a total expressão. As massas imperantes não regem, na variedade, a coordenação necessária aos efeitos integrais do conjunto. O resultado é o seccionamento dos grupos, a falta de centro de conjunção e irradiação. É claro que não pretendo exigir que o pintor, ainda hoje, se escravize aos dogmas clássicos da composição; mas, dentro da liberdade individual, não é possível fugir a certos princípios que são cardeais na realização de obras dessa natureza.

Entretanto, há na pintura do Sr. Pedro Bruno inspiração, certa idealidade, e como que a procura da bela matéria. Nesse quadro de sirena – Guanabarinos - vive o sentimento de ar livre, de vibração amorosa da cor, irradiante à refração marinha, que são de bem louvar; há mais liberdade na fatura. Por que a Sonia, que tem leveza espiritual na efloração da cabeça, não foi marcada, nas superfícies, com mais vigor? E se assim falo é nem só em relação ao desenho, como também o visionamento interior das formas. Essa figura carece de equilíbrio, parece mutilada.

Há no Sr. Pedro Bruno honestidade no trabalho e vivo desejo de revolução.

Basta, para demostrá-lo, destacar o seu trabalho principal do certame deste ano: Anunciação. Obra sentida, viva, em que o pintor revela, no modelado, no desenho e na coloração, compreensão de certas realidades picturais – o que é o índice remissivo da personalidade.

Retrato de criança creio ser a tela mais significativa do Sr. Leopoldo Gotuzzo. O modelado é bom, o sentimento do desenho é feliz, e, principalmente, o azul de contraste é original e está estudado com carinho. Como de tudo isto, resulta um envolvimento harmonioso das pastas, realçando com sinceridade a expressão da puerícia encantada!

Mas já não perduram essas qualidades na Pensativa, onde não há proporções entre os membros da figura, principalmente em relação a cabeça que, além do mais, não tem vulto, silhuetando-se em um recorte plat. Ora, na natureza só há, afinal, volumes e planos.

O Sr. Antonio Parreiras, com os consideráveis envios deste ano, chegou ao magnífico esplendor das más qualidade no desenho e na pintura.

Não é, porém, uma decadência. São os primevos dotes que agora entram em completo desenvolvimento. Sua técnica é preciosa nas impropriedades que comete: as páginas com que se faz notar, este ano, estão escritas com inolvidáveis erros de sintaxe de construção, grafismos aberrantes e falta de equilíbrio.

Não é crível que esses aborígines fossem deslocadores: pois o Sr. Parreiras os articula como tais. Que ideia, santo Deus, se faz da anatomia humana! e pior ainda: de uma exposição de belas artes, onde, ao menos devem presidir o bom gosto e o senso das proporções! E dizer-se que a pintura é a cópia interpretativa da ação luminosa e colorante da atmosfera sobre os custos!

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O “Salão” sufragará, hoje, o nome do pintor que merecer a mais alta distinção que o certame anual consede: a Medalha de Honra.

Não sendo expositor – a não ser de ideias e tão pessoais que nem servem para que os outros e por isso delas ninguém cuida, - e não podendo, portanto, votar na assembleia dos artistas, posso, no entanto marcar duas possíveis correntes eletivas: Visconti e Pedro Alexandrino. Não faço muita questão de categorias de arte: mas figura e paisagem me comoveram mais que natureza morta, ainda quando é magnífica - conforme já tive o prazer de assinalar - como do pintor de Cerejas e Metais.

Fléxa Ribeiro.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Arthur Valle

RIBEIRO, Fléxa. AS BELAS ARTES NA EXPOSIÇÃO. III - ARTE CONTEMPORÂNEA: PINTURA. O Paiz, Rio de Janeiro, 4 dez. 1922, p.1.

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