. R. de C. A Exposição Anual de Belas Artes. A Illustração Brasileira, 2. ano, n. 33, 1 out. 1910, p.117-118. - Egba

R. de C. A Exposição Anual de Belas Artes. A Illustração Brasileira, 2. ano, n. 33, 1 out. 1910, p.117-118.

De Egba

Dois retratos pintados com a maestria soberba de Rodolpho Amoedo, o Amoedo dos bons tempos, sem as lamentáveis inovações de colorido em que seu robusto talento se perdeu durante tanto tempo, chegando a nos dar a triste impressão de que perdera as melhores qualidades de dezembro.

Estão logo à entrada e dão ao visitante uma impressão boa, sólida, de pintura honesta e sadia. Depois logo adiante tem-se a surpresa dos painéis de Pablo Salinas. É uma maneira tão nova, tão diversa do que estamos acostumados a encontrar em nossas exposições... A maneira de pintar é nova... porque tem uma estética antiga, lembra os mestres de antanho, Fragonard, Chardin, um Chardin, que visse claro e luminoso. A primeira impressão chega a desagradável; de dúvida, de artifício, parecem oleografias em sua elegância amaneirada e chic. Mas observando com atenção, vê-se quanto desenho, quanta arte de composição, que primor de detalhes há no Concerto, no Atelier, O Chá, o Tango, e A sobremesa. Apesar das cores sempre bonitas e muito lavadas como em uma aquarela para folhinha os pequenos quadros de Pedro Salinas são pequeninas obras-primas em que, sobretudo, o desenho é levado ao apuro de uma ciência. O quadro A noite tem mais preocupação de verdade e é magnífico.

Agustin Salinas, com as mesmas qualidades de desenho, o mesmo gosto pelos detalhes pitorescos, pelas cenas da antiguidade e os horizontes teatrais tem uma pintura mais larga, mais nervosa, apresenta telas de grande beleza como Colheita de Milho e As Lavadeiras.

Visconti, um pouco acadêmico, tem um bom quadro - Onomástico; Henrique Bernardelli figura apenas com dois retratos feitos com a perfeição desse artista que é o mais completo, o melhor dos pintores do Brasil. Pedro Peres tem uma composição com muitas qualidades - Previsão dolorosa - a figura da criança é agradável, a composição elegante. Infelizmente o outro quadro, Passeio Impedido é de ingenuidade desoladora. Eugenio Latour mostra-se mais uma vez artista de raro mérito e sentimento encantador com a Violeta. O Ceifeiro de Francisco Manna está bem desenhado, mas tem colorido vago. De F. Ferraresi, o Arco degli Orafi é excelente, o Bolle de sapone assaz interessante.

O trabalho de Dario Villares Barbosa Lobos do Mar (que figurou no Salon de Paris) é desconcertante. Parece o trabalho de um principiante que já possui todas as ficelles dos mestres, sabe copiar modelo, mas não tem a autoridade necessária para fazer um quadro. Suas figuras não são más; falta-lhes porém naturalidade, a verdade, que não se exprime apenas pela cópia mais ou menos hábil, falta-lhes vida.

Depois da missa, composição de Coelho de Magalhães, tem desenho louvável, mas cor hedionda; o tríptico de Miguel Caplong [sic] Os três beijos é uma obra em que há audácia e nada mais. A composição é tudo quanto há de mais infantil - desagradável; Luiz Cristophe apresenta uma paisagem com boas qualidades.

E por falar em paisagem. Nunca a natureza do Brasil fora vista e interpretada com a maravilhosa perfeição, que se mostra nas telas de João Baptista da Costa. E todas os seus trabalhos expostos são verdadeiros prodígios de metier e de verdade, são paisagens de Petrópolis metidas em moldura; o homem que assim pinta nossos horizontes é uma glória nacional, uma glória autêntica, que há de sobreviver a muitos nomes hoje aureolados pela fama de coloridos brilhantes e aspectos de fantasia bonita.

Pedro Bruno expôs um bom estudo (n. 21); José Brugo dois estudos magníficos, especialmente o nu e uma anedota Les Affiches, em que há singular sentimento.

Carlos Gomes Fernandes apresenta uma paisagem (tríptica), horrenda, José França várias telas, falsas como Judas durante a traição; D. Gabriella Costa uma composição A Prece, apavorante; Alvaro Teixeira um estudo monstruoso...

Mas o nível geral da exposição é bem superior ao de algumas anteriores; vê-se que houve mais escolha, houve talvez mais onde escolher.

- Na exposição especial de trabalhos de Daniel Berard é lamentável que, a par de trabalhos excelentes, expusessem outros absolutamente indignos.

R. de C.


Imagens

A. Salinas - Fim do trabalho no campo

João Baptista da Costa - Paisagem de Petrópolis

Dario Villares Barbosa - Lobos do Mar

P. Salinas - A noite


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

R. de C. A Exposição Anual de Belas Artes. A Illustração Brasileira, 2. ano, n. 33, 1 out. 1910, p.117-118.

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