. PEIXOTO, Cosme. O SALÃO DE 1894 IV. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 nov. 1894, p. 1. - Egba

PEIXOTO, Cosme. O SALÃO DE 1894 IV. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 nov. 1894, p. 1.

De Egba

Os srs. Pedro Weingartner e Modesto Brocos também são professores da escola Nacional; e, portanto, lugar lhes compete imediatamente depois dos mestres que o engrossamento proclama intangíveis, e dos quais, com irreverência que nunca me será perdoada, tenho ousado dizer umas tantas coisas que fariam arrebitar ainda mais a cauda do cavalo da estátua, se porventura naquilo fosse admissível maior tensão.

O primeiro trabalho que vi do sr. Weingartner foi exposto, se bem me lembra, na casa do sr. Pacheco. Representava um interior de biblioteca e traduzia paciente estudo e qualidades de desenhista. Mais tarde, na Academia, expuseram-se paisagens do mesmo artista, e, francamente, menos me agradaram. Agora ainda menos.

A vista de Nova Veneza (n. 203) tem deplorável colorido. Há oleografias em que melhor se manifestam os recursos da cor. Não conheço a localidade, mas entendo que foi caluniada. Nunca poderia ser assim, sob pena de haver por lá um sol diferente do que ilumina as regiões catarinenses que tenho percorrido.

O n. 211 representa Um piquete de força de Arthur Oscar, de passagem em Nova Veneza. Aí o céu é bem sentido, mas no grupo dos cavaleiros os cavalos muito deixam que desejar. Se são tais os famosos animais dos pampas não vejo porque se devam envergonhar os honestos sendeiros que arrastam tílburis.

Os demais quadros, dando testemunho da operosidade do autor, não o dão todavia da proficiência que se poderia augurar da sua estreia. Será um eclipse? Absorvê-lo-ão [sic] os labores do magistério? Não sei, nem posso dizê-lo. O que está no salão, não demonstra ainda a decadência, como se dá com as obras últimas de outros professores. Pode ser uma parada, e mesmo aos maiores artistas é lícito estacionar de vez em quando para resfolegar e tomar alento. O pior foi que esse momento de repouso coincidisse com a carga desordenada do esquadrão dos novos contra os moinhos de vento do academicismo.

E, a propósito do sr. Weingartner, bom será dizer que nele tenho um excelente auxiliar no intuito de tornar patente a injustiça clamorosa com que o Marial da Gazeta de Noticias deu o finado ex-imperador como protetor de nulidades artísticas, que ele impunha às massas inconscientes. Com efeito, o sr. Weingartner, havendo revelado notável propensão para a pintura em sua ex-província natal (o Rio-Grande do Sul), foi mandado estudar na Europa pelo ex-imperador, e como pensionista dele completou os seus estudos. Ora ali está como o falecido chefe do Estado desprotegia os novos! Criando, a expensas suas, um dos professores fortes e ousados (como lá diz o Marial) dos quais se rodeou o sr. Bernardelli [Rodolpho Bernardelli] para restaurar a arte no Brasil!

Não sou sebastianista, já o disse, o com isto não admito brincadeiras. A minha patente põe-me a salvo de suspeitas; e da minha biografia, já publicada, ressalta a antiguidade do meu republicanismo, anterior, muito anterior ao dos supremos magistrados da República, pois o sr. Prudente antes de 1870 era monarquista liberal, e o sr. Manuel Victorino ainda o era no Congresso deste partido em 1888. Mas, por ter nascido republicano, não se segue que eu deva apoiar todas as iniquidades de Marial. Weingartner é um ousado, um forte e deve o que é ao generoso ex-imperador. Leve o diabo o republicanismo que precisa de ser mentiroso! Pois não basta o ser ingrato, quando assim se faz preciso para a salvação da pátria?

A transição entre o sr. Weingartner e o sr. Brocos suavemente se faz pelos retratos do sr. Ubaldino do Amaral. Se não fosse a fotografia, muito tempo houvera perdido o ilustre homem de Estado posando sucessivamente nos ateliers dos dois professores. E o mais interessante é que cada retratista teve uma ideia diferente da tez de s. ex. Este o fez pálido, aquele rubicundo. Comparem-se os ns. 64 e 213. Se estivessem juntos os dois quadros, gozaria o público de mais um daqueles gostosos reclames: o sr. Ubaldino era assim; tomou xarope de qualquer coisa e ficou assim…

O sr. Brocos é principalmente um paisagista. Algumas de suas telas revelam o homem que sabe o que vê e que sente o que sabe. Entre elas pareceu-me a melhor o n. 57 - Garimpeiros. As figuras destes caçadores do vil metal são, como todas as figuras de paisagem, meros episódios do poema da natureza, mas episódios bem inventados e bem metidos na ação principal.

O cenário dos Garimpeiros é o da terra de Minas, de onde também o sr. Brocos tirou a sua Vista da cidade de Diamantina. (n. 65). Vista é uma maneira de dizer, porque o quadro ficou quase todo ocupado por uns penedos. Eu poderia dizer ao sr. Brocos que o melhor sistema de se tirar a vista de uma cidade não é a gente colocar-se por trás dos pedregulhos que a escondem; mas, em boa e santa verdade, antes quero Diamantina deste modo entrevista na tela do sr. Brocos, do que a Nova Veneza complacentemente esparramada no quadro do sr. Weingartner.

Saudemos com um elogio alguns belos estudos de paisagem de Teresópolis (ns. 60 e 62), e, para elucidação do artista, ponderemos-lhe que em seu n. 54 confundiu coisas muito distintas. O catálogo diz: Mulatinha, e o quadro representa uma crioula. O sr. Brocos talvez não tenha andado muito pelo nosso interior. Para bem-fazer estas distinções é preciso conhecer as fazendas.

Do sr. Brocos ainda há uma água-forte (n. 240) em que patenteia certo vigor, e com ele se acabaria a parte da exposição dos professores da Escola, se não fossem ainda os trabalhos do sr. Girardet, na seção de gravura de medalhas e pedras preciosas. Sobre isto nada direi, porque obras deste gênero não podem ser bem apreciadas em uma vitrina mal banhada de luz, quando muitas vezes até se faz necessário tomá-las à parte e cuidadosamente examiná-las com uma lente.

Passemos, pois, a outros expositores de quadros, e, logicamente, depois dos mestres, vem ao caso estudar os discípulos, isto é, os que como tais se incluem no catálogo; o primeiro será o sr. Baptista da Costa, que obteve o prêmio de viagem à Europa. Á tout seigneur, tout honneur.

O sr. Baptista é um trabalhador, disseram-me, e eu o creio pelo número de seus quadros, catorze, de n. 19 à 32. Tem não pouco talento, sem o que não faria algumas das paisagens exibidas. É moço ainda, e já vê o seu mérito reconhecido pela escola (o que aliás não é muito) e pelo público, que lhe compra os quadros. Não tem, pois, razão de queixa contra a sorte, e deve empenhar todo o esforço para corresponder às finezas da inconstante deusa.

Das obras do jovem artista algumas citarei, sem estabelecer preferências. O n. 19, por exemplo, é uma bela paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas. Todos nós conhecemos aquilo, e, contudo, aquilo está visto com olhos de poeta. O pintor não corrigiu a natureza (noutro dia fizeram-me a fineza de atribuir-me este pecaminoso conselho) mas soube colhê-la em seus bons momentos, e ouvi-la cantar dentro da alma antes que tentasse fixá-la no quadro. Não conheço o sr. Baptista, mas não se me dera de apostar que anda namorado. Não há para inspirar o paisagista como essas duas falas benfazejas - a mocidade e o amor.

Outra boa paisagem, a de n. 32: Estação da Mangueira. Estive ali uma vez, aborrecidíssimo, a espera do trem, que nunca mais chegava. Andei e desandei por ali fora… achei o sítio insignificante. Agora, pelo quadro do sr. Baptista, vejo que fui muito injusto: eu não tinha compreendido essa beleza campestre. É que me faltam as tais fadas benfazejas; ô amor ó mocidade!

A Capela Malla Machado (n. 33) não desmerece dos precedentes – e, para que o moço artista não se ensoberbeça, com lhaneza lha direi que maior partido pudera haver tirado da concepção do n. 20: Leitura interrompida. Um mancebo depõe o livro e olha pela janela afora. Medita, cisma… em quê? Na glória? É talvez um novíssimo que sonha acabar com os novos! Deus lhe apresse a realização de tais sonhos e ponha breve termo ao reinado da incompetência! Ao pensamento não correspondeu a execução. O interior penumbrado do aposento faz, com a perspectiva descortinada da janela, um contraste demasiado cru e violento. E a figura não é graciosa, podendo aliás sê-lo sem perder a naturalidade. Quanto ao Repouso (n. 26) o melhor é não falar nele. Direi apenas que representa um mulato (ou caboclo?) de terracota […] e por sinal que muito feio. É o quadro maior do autor, e é também o seu maior pecado.

Eis ali os trabalhos do aluno laureado da escola Nacional… Mas aqui entram a assaltar-me fundadas dúvidas sobre este ponto delicado: será realmente João Baptista da Costa uma feitura da escola Bernardelli-Amoedo? E respondo que não.

O sr. Baptista foi aluno do professor Medeiros, que honrou uma das cadeiras de desenho da antiga Academia, e que foi fraternalmente privado dela pelo sr. Bernardelli, depois de a ter conquistado em concurso e ocupado com distinção durante doze anos. Entregue aos seus recursos quando começou a mirabolante fase dos revoltosos, o sr. Baptista, nada podendo aprender com o sr. Amoedo (e sabemos por que razão) entrou a fazer-se pintor por si mesmo, cultivando de preferência o gênero em que mais podem colaborar a observação e o sentimento próprios: a paisagem.

O sr.. Baptista é professor no Instituto Profissional. Imagine-se com que assiduidade acompanha as lições da escola! Não; o de que ele precisava, deu-lho seu mestre, o sr. Medeiros; o resto tem-lho dado a contemplação da natureza.

Quando esta não se lhe apresenta sob a forma predileta, em várzeas aveludadas e colinas que revestem, como lá diz o poeta das Brasilianas, a verdejante clâmide da terra, - então o sr. Baptista vacila e faz índios de terra cota.

Os demais discípulos da escola são os srs. Fiusa Guimarães, João Macedo, Bento Barboza e Angelo Visconti.

Os dois primeiros são paisagistas incipientes, embora revelando inclinação para o gênero… E notai bem que é sempre a paisagem sempre o ar livre, sempre o terror das lições dos mestres reformadores… Ao ar livre criam asas e ensaiam seus vôos… Pobres rapazes! Possa a mãe Natureza prodigalizar-lhes os carinhos que lhes não podem dar os mestres da escola – umas lições menos verdes que as da Volta do Trabalho e menos imorais que as de Filetas!

O sr. Bento Barboza, além de pintor, é jornalista, - mais uma razão para querer-lhe bem, pois sempre dei o, cavaquinho pela gente que escreve para jornais. Infelizmente nada posso dizer desse cavalheiro como jornalista pois nunca li a Revista Theatral, apenas sabendo que é ilustrada; e, quanto à pintura, só mencionarei o número 44 - Vovó, – título este que que ao princípio me entusiasmou, acreditando que ia ver o famoso canhão que para as plagas do Cócito (linguagem mitológica em homenagem a mitológico [sic] da escola) mandou tantos e tão negregados custodistas; mas logo verifiquei que a Vovó era simplesmente uma triste velhota. Dei-lhe boas tardes e passei adiante.

O sr. Visconti é outro filho da Academia, que, logo após a revolta de 1890, foi mandado para a Europa, naturalmente com o que lhe tinham ensinado os antigos mestres. Entretanto figura como discípulo de Amoedo e Bernardelli! Sempre, e em toda parte, a prestidigitação, aparentando frequência e aproveitamento de todo o ponto ilusórios!

Dos trabalhos do sr. Visconti o que mais me impressionou foi a Leitura (n. 194) bela cabeça metida num livro. As bananeiras (n. 197) tem a singularidade de representar, diante de uma soca dessas plantas, um cordão de que pendem várias peças de roupa. É prosaico, de mau efeito e vulgar como as ruas enfeitadas para festas públicas.

Eis em resumo os alunos de nova fase: dois, os melhores, vindos da antiga Academia, a saber: um que foi logo para a Europa e outro que vai agora e que aprendeu paisagem consigo mesmo. Dos três restantes, dois são ainda paisagistas em começo, - sempre paisagistas sublinho de novo - e o outro na exposição apenas foi pai de sua Vovó, ou bisavô de si mesmo, o que não o recomenda por muito novo.

Vamos aos discípulos de escultura…

Mas aqui tem lugar um zero gigantesco - 0 -, e sinto que não o possa mandar imprimir em tipo garrafal.

Não há alunos de escultura!

Em geral quando se anuncia que um gênio vai reger uma aula afluem os discípulos. Na escola, não: o professor é imenso, é enorme, é colossal - e ninguém quer aprender com ele!

Assim como (pelo teorema de Marial, escritor da Gazeta) quanto mais longe está um diretor de estabelecimento tanto melhor o dirige, assim também quanto mais genial é um mestre, tanto menor o número de seus discípulos! No limite, como me dizia em Maceió o meu professor de matemática, sendo infinito o gênio do mestre, deve ser zero o número de alunos! E assim é na famosa escola, cantada em prosa e verso pela benevolência dos compadres e pela inconsciente bajulação dos pascácios.

A aula de escultura extinguiu-se, é preciso repeti-lo, e extinguiu-se sob o governo autocrático de Rodolpho, o imortal.

O gênio desdenha satélites. Durante muitos anos brilhará sem competência no céu artístico. Concursos, para estátuas a fazer, não os pode querer com estrangeiros o nativista mexicano. Quando uma vez, no senado, se falou de abrir certame para não sei que estátua, levantou-se um pai da pátria e disse que era inútil a concorrência em país onde havia um Bernardelli. Ignoro se depois disto foram todos ao Capitólio render graças aos deuses por ser o aniversário do óbito do academicismo.

Tão somente em pediria vênia para modificar a frase cipiônica que ficaria assim:

– Admiradores do gênio, Bernardelli regenerou o ensino da escultura, acabando com ele. Como os vencedores implacáveis, passou tudo a fio de espada: academicismo, mestres, alunos. Não resta pedra. Só Rodolpho é escultor! Vamos, não no cimo do Capitólio, porque isto seria acadêmico, mas para baixo do cavalo bebericar vinhos gelados!

Cosme Peixoto,

Oficial honorário.

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P.S. Cavalheiro tão discreto quão oficioso escreve-me informando que Marial não é, como talvez eu supusesse (diz ele), o ilustre Lulú Senior, mas sim, um mancebo, fidalfo nas letras por via de hereditariedade. Ao sr. M de A. (tais as iniciais do meu correspondente) tenho que responder que absolutamente jamais confundi Lulú Senior com Marial, cujas vacilações de estreante nunca poderiam ser tomadas pelas manhas do veterano. Se trouxe à baila o bom Lulú é porque ele, diretor da falange Bernadellesca, veio contar onde se mete para apreciar estátuas.

Quanto à fidalguia literária de Marial, apenas lembro que a Constituição de 24 de fevereiro de 1891, vigente pelo menos em parte, aboliu os títulos de nobreza, que aliás não eram hereditários no Brasil, mesmo nos tempos […].

Assim, respeitando a gloriosa ascendência de Marial, mui respeitosamente pondero que, simples alferes republicano, não lhe posso fazer continências como a um príncipe de sangue. Aguente-se balanço!

C. P.


Digitalização de Fundação Biblioteca Nacional Acessível em: http://memoria.bn.br/

Transcrição de Karina Perrú Santos Ferreira Simões

PEIXOTO, Cosme. O SALÃO DE 1894 IV. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 nov. 1894, p. 1.

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